Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Insustentável, disse ele

Sinais de pontuação

Ideias

2011-09-06 às 06h00

Jorge Cruz

Como que a confirmar que a tradição ainda é o que era, não obstante o clima de crise, o impagável Alberto João Jardim voltou a animar a época estival com os ‘sound-bytes’ a que desde sempre nos acostumou a partir do arquipélago madeirense. Entre outras “preciosidades” linguísticas produzidas este Verão, o político madeirense que goza de maior grau de inimputabilidade, voltou a deixar no ar a ameaça velada da independência do território que governa.

Não sei se pela distância geográfica, se por défice noticioso na região, ou se por qualquer outro motivo, a verdade é que Jardim parece ainda não ter percebido que o regabofe acabou. Continuar, impávido e sobranceiramente, a reclamar mais dinheiro, a exigir a manutenção das benesses fiscais, e a promover o crescimento da já astronómica dívida madeirense são actos de desespero de quem está acostumado a dar passos em frente quando se encontra face ao abismo mas não podem ser compagináveis com os tempos difíceis que atravessamos.

Mas será assim tão difícil entender que não existem mais quaisquer margens para endividamento e que, também por essa razão, é forçoso acabar de uma vez por todas com o despesismo? E não haverá quem lhe explique, tintim por tintim, a verdadeira situação da Região e do país? E que lhe faça ver a triste figura que faz quando assume o papel de dono da Madeira, como se estivéssemos perante um grande latifundiário e a sua propriedade.

Jardim tem a seu favor o notável desenvolvimento do território que gere, com a legitimidade do voto, é bom que se diga, desde os primórdios da autonomia. Mas esse facto, perfeitamente expectável e natural, que aliás também se verifica noutros pontos da geografia nacional, não pode ser usado como bandeira para os desmandos da criatura.

A dívida da Região é real, embora se desconheça ao certo o seu montante. O buraco agora descoberto pela troika, pelo me-nos de mais 500 milhões de euros, também “não é novidade”, segundo o próprio Jardim. E a justificação do presidente do Governo Regional é ingenuamente simples e seria até hilariante se o assunto não fosse demasiado sério.

“O Governo Regional informara já a população de que, para defender o povo madeirense, a alternativa às medidas financeiras político-partidárias do anterior Governo socialista que visavam parar a vida do arquipélago, foi a de não se render, resistir, mesmo à custa do aumento da dívida pública”, desculpou-se Jardim em comunicado.

Perante mais esta “explicação” sarcasticamente guerreira, na linha da costumada insistência patológica em culpabilizar o Poder Central, a Comunicação Social, a Maçonaria e a Internacional Socialista, as dúvidas que sobram não encontram respostas no plano político, antes talvez no âmbito de outras áreas do saber.

Mas o Verão madeirense não ficou apenas marcado pela trapalhada em torno da dívida da Região. Também a questão da manutenção ou não da Zona Franca da Madeira forneceu vasta matéria-prima para a Comunicação Social.

A notícia de que a renegociação com Bruxelas dos benefícios fiscais para a Zona Franca da Madeira “está fora de questão”, devido aos compromissos assumidos com a troika, foi o rastilho. Alberto João Jardim manifestou, de imediato, a sua convicção de que o Governo não acabará com a Zona Franca, ameaçando desde logo que essa eventualidade pode trazer de novo a questão da independência da Madeira.

Dado o mote atemorizador, Jardim aclarou que “a Zona Franca é tão decisiva para o futuro da Madeira e da sua população que uma situação de tentativa de anulação ia de certeza levantar de novo a questão da independência deste território”.

Colocada a questão nestes termos, o político madeirense, que sempre esteve de candeias às avessas com Pedro Passos Coe-lho, reconheceu então que algo havia sobre o assunto: “Não ceda a pressões que já vêm de há muitos anos da União Europeia para anular a Zona Franca para beneficiar outras zonas francas europeias cujos países a troika representa”, alertou Jardim. E acrescentou: “O que foi dito é que não é este o momento oportuno para reatar a questão da Zona Franca da Madeira e, tanto quanto fui informado, é mentira que o Governo tenha deixado cair a Zona Franca da Madeira, a não ser que tenham mentido a mim”.

Claro que só os próximos tempos esclarecerão ou não estas e outras trapalhadas em que o líder do PSD Madeira é fértil. Como quer que seja, creio ser mais que oportuno, mais que necessário e higiénico para a democracia, acabar de uma vez por todas com estes números circenses e, principalmente, com o tradicional despesismo que conduziu aquilo que o mi-nistro das Finanças considerou “uma situação de crise”, “uma situação insustentável”.

O programa de ajustamento estrutural e estabilização financeira para a Região, pedido pelo próprio Jardim no final de Agosto na sequência destas novas polémicas, já foi saudado por Vítor Gaspar, que garantiu mesmo que o plano de resgate “será desenhado com a urgência que a situação de crise e insustentabilidade” exigem.

Aparentemente, esta será a melhor oportunidade de, à boleia das exigências da troika, meter na ordem um político que sempre manifestou ausência de respeito, de consideração e de solidariedade para com os órgãos de soberania nacionais e um virulento desprezo com os seus opositores.

Constata-se que para mostrar que é um aluno bem comportado, que cumpre à risca as medidas constantes do Memorando de Entendimento, Passos Coe-lho tem usado e abusado do seu fundamentalismo ideológico, tornando-se frequentemente mais “troikista” que a própria troika”. A ver vamos se no caso da Madeira vamos assistir à postura “troikista” de Estado ou à posição a que o PSD já nos acostumou - mais próximo do “troquismo” (de troca-tintas).

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