Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Instrumentos para ler o mundo

Diplomas em tempo de 130.º aniversário

Ideias

2016-03-20 às 06h00

Artur Coimbra

1. Decorreu ao longo desta semana, entre segunda e sexta-feira, a sétima edição das Jornadas Literárias de Fafe, que coincidiram com a semana da leitura das escolas, sob o lema “Elos de Leitura'.
Um momento de exaltação da cultura e das letras e artes, em particular, que deve também servir de reflexão, e ela foi feita, sobre a problemática da leitura e da iliteracia nos vários graus etários da população.
Ou seja, tentar perceber porque é que se lê pouco em Portugal, quando tantos livros são editados todas as semanas e todos os meses, como se pode verificar em qualquer livraria ou até pela leitura dos jornais e revistas da especialidade. Aliás, ainda na sexta-feira, o professor Arnaldo Saraiva (UP) referia que se editam no nosso país mais de 12 mil livros por ano, o que dá um milhar de livros por mês, que não cabem sequer nas livrarias…
E porque é que a juventude não lê, se é que não lê, já que temos pragmaticamente a noção de que colecções como “Uma Aventura” ou o “Harry Potter” são devoradas por fãs de jovens leitores…
Certamente, haverá múltiplas razões para o facto de se ler pouco em Portugal.
Uma delas, e não despicienda, será seguramente o proibitivo preço dos livros que se vendem por aí. Qualquer modesta obra impressa, com 100 ou 150 páginas, orça os exorbitantes 15 a 20 euros. Considerando o débil poder de compra da maioria dos cidadãos, explica-se a escassa ou nula compra de livros, até porque se compreende que não é de todo, para a imensa maioria, um bem de primeira necessidade.
Depois, existe uma coisa chamada Plano Nacional de Leitura que certamente enfrenta grandes limitações a diferentes níveis e não conseguirá atingir os objectivos de promover massivamente a leitura em Portugal. Fica-se pela indicação de livros recomendados e apenas para a infância e juventude, quando a leitura deverá ser exercitada quotidianamente até morrer!...
O papel da escola também não é de desprezar quando se fala nestas eternas questões. Tirando o caso de professores excepcionais que incentivam a leitura e a escrita aos seus alunos, porque eles próprios estão motivados para elas e as exercem quotidianamente, de forma apaixonada, a maioria dos profissionais limita-se a debitar conteúdos, a cumprir programas e a seguir às risca as recomendações do Ministério. Cumprem escrupulosamente a sua função, e ninguém lhes leva a mal por isso, mas não formam leitores nem incentivam o aparecimento de futuros escritores.
Também a falta de instrução ou a iliteracia dos pais é um óbice à dinamização da leitura entre os mais novos, certamente. Em casas onde não há a mais pequena biblioteca ou não existem sequer livros, e isso não tem forçosamente a ver com as condições financeiras da família, a probabilidade de os jovens gostarem de ler é utópica. Não há o exemplo, não há o ambiente, não há a atmosfera.
Por outro lado, muitas vezes não há dinheiro para livros, mas há para jantaradas, para passeios, para telemóveis ou tablets, bem mais dispendiosos. Mas é tudo uma questão de prioridades, e de cultura ou incultura de quem gere e ordena…
De equacionar ainda o apelo de formas concorrentes de lazer, como os audiovisuais, os computadores ou a Internet, meios francamente mais confortáveis, mais cómodos, mais preguiçosos, que não convocam o esforço mental. A leitura, sendo agradável e motivadora para quem aprecia, exige algum empenhamento, concentração, espírito de sacrifício, disponibilidade intelectual, que nem sempre são agradáveis ou interessantes para quem não gosta de ler...
Não é por acaso que uma personalidade de renome mundial como Bill Gates afirmava que “os meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história”.
A leitura e os livros são fundamentais instrumentos para ler o mundo, para melhor o interpretar, para que nos situemos da forma mais adequada, correcta e intensa no nosso tempo e no nosso lugar.
São utensílios de cidadania e de exercício mais consistente da nossa identidade singular e colectiva.
A leitura e a literatura permitem perscrutar os mistérios do homem, interpretar a psicologia dos outros, criar mundos imaginários necessários à sobrevivência do homem.
A leitura permite-nos ganhar consciência e reforçar os índices de uma fantástica aventura chamada liberdade!...

2. Esta segunda-feira celebra-se o Dia Mundial da Poesia. Dia de ler, reler, debitar, interpretar, cantar, recitar aquela que é uma das modalidades maiores e mais apetecíveis da literatura universal.
Num tempo ferozmente globalizado, dominado por estereótipos, cânones e padrões uniformizadores, enfim, pela “indigência” de que fala o poeta maior Manuel Alegre, a poesia continua a impor-se como factor de singularidade, de revolta, de resistência moral: é única, original, irrepetível, como são todos os rostos humanos que lhe dão corpo e substância.
Nesta oportunidade, gostaria de homenagear a poesia através de um poema do amigo David F. Rodrigues, que no final do ano passado publicou em Viana do Castelo um divertido e sarcástico livro, com o título “estes cantares fez & som escarnhos d’ora”, recuperando uma antiga tradição portuguesa de escárnio e maldizer. Reza assim:

hoje quando acordei prometi
não pensar na poesia e sequer
por isso um único verso escrever

ao passar porém no jardim da avenida
observei um avantajado e corpulento zangão
penetrar repetidas vezes no fundo gineceu

de uma jovem rosa talvez de alexandria
talvez damascena e nele demorar-se
em serena e plena quietude de prazer

um velhinho adiante sentado no banco
babava os olhos por umas bonitas pernas
de menina que usava miniminicalções

seguindo esqueci-me da promessa matinal
desculpem não cumprir o bom pensamento
fica para outro momento menos sensual

Vivam a leitura, a literatura e a poesia, não um dia, mas todo o ano, para todo o sempre!

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