Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Inevitabilidades

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Ideias

2013-06-07 às 06h00

Margarida Proença

Deve ser por causa da instabilidade no clima, por causa da ausência do sol de novo , a relativa má disposição de hoje traduzida no título desta breve nota. São normalmente acusados os economistas por não terem previsto a crise, por não terem já tirado da cartola a solução milagrosa para a quadratura do circulo, mas esperamos também que eles digam aquilo que nos queremos ouvir . Se as propostas formula-das forem ao encontro da ideologia de cada um, dos objetivos que querem ser implementados, então estão certas; caso contrário são erradas. Tão simples como isso. Se uma dada organização, seja ela qual for ou a que nível se situar, quiser implementar um conjunto de estratégias que impliquem um nível de despesas muito elevado ou mesmo endividamento significativo, e algum economista alertar para os perigos envolvidos, para a necessidade de avaliar os custos face aos benefícios envolvidos, mete-se a sua opinião na gaveta por economicista e segue-se outro caminho.
Inevitável. A relação entre o dinheiro que entra e o que sai, e a forma como é utilizado, ou seja as prioridades que são defini-das, gera resultados que são inevitáveis. O progresso científico e tecnológico historicamente tem sido inevitável - e ainda bem - mas teve sempre consequências que se traduziram em mudanças profundas nas sociedades , e nos equilíbrios internacionais entre elas. Também inevitáveis. E por essa forma o “mundo pula e avança”.
Até finais da década de noventa resolviam-se os problemas em Portugal produzindo mais dinheiro; usando uma expressão do Dr. Medina Carreira numa conferência em Lisboa, “mandavam-se vir caixotes com escudos da Casa da Moeda” … e depois se havia problemas sérios, então desvalorizava-se e por essa via garantia-se alguma competitividade.
O modelo exportador português que estava baseado em salários baixos, quase inexistência de proteção social e num protecionismo garantido pela existência de pautas aduaneiras e quotas repercutiu-se numa estrutura produtiva caracterizada pela exploração de recursos primários (alimentar, celulose e outros), têxteis e vestuário de baixo valor acrescentado, reparação naval e pouco mais. Enfim, por aí começa normalmente o processo de industrialização.
A década de setenta teve fortes oscilações políticas e económicas, também por causa dos “choques petrolíferos” e resultou em dois ciclos de ajustamento com intervenção do FMI (1978-79 e 1983-84), mas na realidade crua e dura não se traduziu numa alteração significativa da estrutura produtiva. Claro que a indústria automóvel veio para Portugal (a Renault), e o sistema de apoio social começou a ser lentamente montado, mas basicamente o que aumentou foi a capacidade produtiva nos setores existentes, mantendo os fatores de competitividade inalterados .
E assim se chega ao pós-ade-são e aos milhões de euros que entraram através dos fundos estruturais e que possibilitaram os fortes investimentos materiais em infraestruturas. Em termos qualitativos, as alterações na estrutura produtiva exportadora portuguesa deveram-se fundamentalmente ao investimento direto estrangeiro na eletrónica e nos automóveis, mantendo-se os têxteis e o vestuário. O salto significativo em termos de educação formal e a crescente capacidade científica e tecnológica, e a pertença à União Europeia, atraía investidores. Tudo era possível; toda a fileira agro alimentar, incluindo a pesca, perdiam importância mas o calçado ganhava destaque crescente com base em design e criatividade, a industria de transporte e a eletrónica de consumo contribuíam para tornar cada vez mais importante o peso das exportações de tecnologia mais avançada.
Mas o peso da industria no PIB nacional tornava-se cada vez menor; entre 1986 e 2009 registou-se uma descida de cinco pontos percentuais , enquanto o comércio por grosso e a retalho subia de 15,2% para 21,5%. Outros setores como a construção, a informação e a administração pública aumentavam também de importância.
Até ao início da década de 2000, os problemas com as despesas sociais cresciam de 20,4% em 1995 para 27% do PIB em 2010, ainda assim inferior à média comunitária.
Há quem argumente que a cri-se começo no início da década de 2000, e que a crise de 2007-08 precipitou um conjunto de acontecimentos que mais cedo ou mais tarde viriam a ocorrer. Na minha opinião contudo, as coisas começaram a mudar uma década antes ainda como resultado do processo de reformas políticas e económicas induzidas pela Perestroika e pelas nacionalizações do petróleo numa série de países árabes. O mundo económico mudou revelando novas oportunidades para o investimento estrangeiro, deslocando empresas , potenciando novas formas de produzir em locais geograficamente dispares com extraordinários ritmos de comunicação potenciados pela internet. A Russia, a China, a India, o Vietnam, o Laos, o Brasil, a Colômbia, e tantos, tantos outros países acederam aos mercados mundiais dentro das condições de liberalização das trocas comerciais acordadas para todos. Concorrendo em mercado aberto, com níveis educacionais que rápidamente convergem em todo o mundo, com salários mais baixos e culturas que não justificam despesas sociais tão elevadas quanto no Ocidente, Portugal como outros países descobriu que perdia, rapidamente, quotas de mercado e emprego. O ranking das exportações portuguesas de mercadorias baixou de 36º em 1990 para 54º em 2011, de acordo com um estudo recente da CGD.
O euro é o culpado? Se sairmos do euro resolvemos o problema da crise e do desemprego, e crescemos? Não e não. A alteração do quadro político e económico mundial deu-se sem o euro. A globalização tambem. Se sairmos do euro resolvemos o problema ? não se percebe como. Claro que será possível produzir escudos na quantidade que se quiser, mas será necessário desvalorizar a moeda. Te-remos dinheiro para pagar contas domésticas - mas para importar? As máquinas que precisamos, as matérias primas que não temos, etc? e desvaloriza-mos até onde? e depois como financiamos o modelo social que temos?
A criação de emprego precisa de investimento, e precisa de mercados, e precisa de competitividade num quadro global completamente novo , complexo e instável. E sem tudo isso não haverá crescimento económico. A mudança profunda na forma como vivemos é inevitável.

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