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Índice de Qualidade das Elites (EQx)

Ser, saber, aspirar

Índice de Qualidade das Elites (EQx)

Ensino

2022-01-26 às 06h00

Francisco Porto Ribeiro Francisco Porto Ribeiro

A atual proposta de texto parece-me oportuna, na medida em que se aproxima o período eleitoral. Poderá ser uma proposta de reflexão para as opções a ter em conta e um estímulo à iniciativa de voto. De resto, o tema enquadra-se na minha área de investigação. Na altura, tive dificuldade em avaliar, quantitativamente e, por consequência, qualitativamente, esta questão. A qualidade das elites é um tema recorrente ao longo dos tempos, e de difícil mensuração, mas temos, agora, a partir de 2020, um fator de referência, que a considera o Índice de Qualidade das Elites (EQx).
Trata-se de um trabalho desenvolvido por uma universidade Suíça (https://elitequality.org/) e do qual já se extraiu um relatório apresentado em setembro passado (Elite Quality Report 2020). Por sua vez, este trabalho tão interessante tem um único parceiro português, felizmente, também da academia, nomeadamente, a Faculdade de Economia da Universidade do Porto(https://sigarra.up.pt/fep/en/web_base.gera_pagina?p_pagina=%c3%adndice%20qualidade%20elites)

Todo este esforço permitiu envolver a análise e observação de dados de 32 países que conduziu à criação de 72 indicadores diferentes. Em súmula, e segundo o referido documento (pp.01), o posicionamento (ranking) de Portugal apresenta-se mediano (nem bom nem mau), no universo de países analisados, encontrando-se na 14.ª posição (média), com um total de 58 pontos, ou seja, ligeiramente acima da “linha de água”. Mesmo assim, e conforme é referido no ponto 8 do documento, Portugal está melhor posicionado que a Itália (17.ª posição) e a Espanha (18.ª posição), sendo que a Grécia não se encontra, ou seja, lideramos a Europa do Sul (Europa das Oliveiras, segundo Professor Doutor João Bilhim).

Sendo este o primeiro índice mundial que mede a qualidade das elites, tendo em consideração o modo como gerem as suas ações e as diferentes abordagens para a geração de riqueza, com base na avaliação do modo como favorecem ou dificultam o progresso do país, o índice avalia o grau de contribuição agregada para a sociedade, das elites nacionais, pelas vias política e económica, medindo as consequências das atuações, no seu todo. Considerando que para apurar este valor foram considerados padrões relacionados com Poder e Criação de Valor, o resultado combinado para Portugal (14.ª posição) resulta de diversas variantes, conforme tabela 14 (pp.20), é possível apurar que o nível da gestão e controlo de poder político e económico encontra-se na 12.º posição, com 61,4 pontos (abaixo da “linha de água” o que implica afogamento), enquanto que na rubrica da criação de valor encontramo-nos na 15.ª posição, com 56,3 pontos (confortáveis para respirar). Para uma visão mais global, destaco ainda o quadro 17 (pp.24) onde é possível identificar que, em termos da criação e de extração de valor, Portugal tem menos 10,5 ponto que o líder da tabela (Singapura lidera esta tabela). Em termos de apreciação global, feita pelos docentes envolvidos, considera (pp.44) que Portugal está numa posição de liderança, expressando apenas o universo de países do sul da Europa, e que ainda tem muito trabalho pela frente. Se considerarmos o pós-crise financeira de 2010, Portugal cresce a níveis inferiores à média dos seus parceiros europeus, revelando-se que não somos suficientemente competitivos, sendo mesmo um dos países membros da União Europeia mais endividados, encontrando-se fortemente dependente do sector externo, com enfâse para o Turismo. Destacam, ainda, diversas rubricas observadas que revelam Portugal com uma melhor performance, no que se prende com a criação de valor económico, por parte das elites (na 10.ª posição), contra a má criação com base em valores políticos (na 25.ª posição).

Por fim, e contextualizando toda esta questão, devo esclarecer que a motivação deste artigo de opinião teve por base o trabalho dos professores doutores Óscar Afonso e Cláudia Ribeiro do OBEGEF (Observatório de Economia e Gestão da Fraude) e autores da análise feita no relatório acima referido. Posteriormente, publicaram, em 2021, de um trabalho intitulado Elites e desempenho económico, in Riscos de Fraude e Corrupção no Programa de Financiamento Europeu, da Editora Almedina (pp.15-32). Segundo os professores, (p.15) a qualidade das institui- ções atende à qualidade das elites e as elites medíocres estão associadas a instituições de pior qualidade, sendo que é de esperar altos níveis de corrupção, o que impacta negativamente na vantagem competitiva do país, na desigualdade salarial inter-país e, naturalmente, no crescimento económico.

Os autores consideram que (p.16) “o sucesso económico de um país depende, em grande medida, da qualidade das suas instituições, principalmente dos «quadros» criados, que moldam a poupança, o investimento e a inovação.”
Por estarmos em período de eleições, destaco o que os autores referem, sobre os líderes políticos, que (p.17) balançam o seu poder nas instituições e, consequentemente, determinam o crescimento económico e o desenvolvimento humano em horizontes de médio e longo prazo. Consideram, ainda, que a sua «qualidade» determinará o funcionamento do Estado e o desenvolvimento económico e humano de um país, referindo um estudo académico de 2020. Com base no mesmo estudo, referem que (p.19) elites de elevada qualidade seguem modelos criadores de valor que dão à sociedade mais do que dela retiram, desenvolvendo atividades produtivas e potenciadoras de riqueza, num processo em que todos ganham (win-win).

Acrescentam que um país onde existam elites de alta qualidade, estas ajudam a ultrapassar a crise financeira com a menor perda social e destruição não-criativa possível.
Os professores revelam algo que temos vindo a sentir ao longo dos últimos anos, com os diversos processos jurídicos (infelizmente sem sucesso), referindo que (p.20) as «elites de baixa qualidade» estão mais comprometidas em fazer aumentar a sua riqueza individual à custa de valor criado por outros, apropriando-se mais do valor criado do que aquele que geram para a sociedade, representando entrave ao progresso das sociedades, caracterizam-se por elevados níveis de corrupção, sobretudo nos financiamentos públicos.
Os autores consideram que (p.23-24) os Relatórios da Qualidade das Elites serão um instrumento de análise económica aprofundada que permitem enquadramento inovador conducente a novas interpretações do estado das sociedades, capacidade de comparação do potencial de desenvolvimento dos países; capacidade de complementar e, possivelmente, aperfeiçoar a análise económico ortodoxa e elevado potencial de sustentação do debate público sobre políticas nacionais.
Fica a partilha e a proposta de reflexão.

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