Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Incertezas e perplexidades!

Bragafado 2018: a trindade do fado tradicional

Ideias

2011-10-24 às 06h00

Artur Coimbra

1. Nunca, como por estes dias aziagos, os portugueses experimentaram tão seriamente a prova inclemente da incerteza e do medo. Pelo menos, que me recorde, desde que a democracia foi reinventada em Portugal, após o 25 de Abril de 1974.
Os portugueses, mais pobres ou mais remediados, sobretudo no universo da classe média, vivem hoje momentos de angústia e temor, que é indisfarçável, perante o quotidiano e o futuro.
As certezas que foram construindo as suas perspectivas e os seus planos de vida começam a desabar, como baralhos de cartas, sem que eles tenham alguma responsabilidade pelo que está a passar-se.
A “roubalheira colossal” que este governo acaba de anunciar, para 2012 e 1013, pelo menos, com os cortes cegos e drásticos nos subsídios de férias e de Natal, a radical diminuição das deduções à colecta em matéria fiscal para as famílias, a violentação assumida do chamado “Estado Social”, traduzida em cortes precipitados em áreas sensíveis como a educação, a saúde e a segurança social, além dos desbragados aumentos da electricidade, do gás e dos bens essenciais, acaba por traduzir-se no acréscimo de um sentimento de insegurança, de hesitação e de desconfiança.
O mundo que até estes dias nos dava razões para estarmos confiantes, pela sua estabilidade, em que cada português podia fazer as suas contas e delinear o seu futuro e o dos seus, acaba de sofrer um abanão de difíceis repercussões.
A gravíssima crise que os portugueses comuns não provocaram mas que vão pagar com língua de palmo, queiram ou não, leva a que ninguém saiba com algum realismo com o que contar. Os portugueses temem hoje seriamente e com fundadas razões pelo dia de amanhã: pelo seu emprego (os que conseguem ter um emprego), pelo seu vencimento, pelo futuro dos seus filhos, pelo sistema de saúde, sobretudo o SNS, tendencialmente gratuito, pela sua reforma, pelo que lhes pode acontecer depois de uma vida de trabalho e dedicação ao emprego e ao país.
Tudo hoje é incerteza e insegurança, o que é dramático, para a imensa maioria dos portugueses, por razões que têm a ver com decisões políticas erradas e altamente lesivas dos interesses nacionais, tomadas por uma meia de governantes incompetentes que cortam e pregam a seu bel prazer, para ganharem votos, hipotecando as gerações vindouras com decisões criminosas como a compra dos submarinos que não servem para nada, a salvaguarda de um BPN que foi um covil de gananciosos, as tristemente célebres parcerias público-privadas que vão afundar os orçamentos futuros e o “buraco” da Madeira, de que se desconhece a dimensão. Todos os quadrantes político-partidários, mais ou menos, estão comprometidos com esta bandalheira de país, com uma soma incomensurável de desperdício e de decisões que deixam cada vez menos futuro ao futuro dos portugueses, afinal, os menos culpados do que está e vai passar-se. E deveriam pagar por isso, não tenho a mínima dúvida: qualquer profissional que não sirva os interesses de uma empresa ou de uma instituição, por decisões erradas ou desbaratamento condenável de recursos, é penalizado, e bem. Porque é que os políticos, cujas decisões, boas ou más, atingem toda a população, que deixam “buracos colossais” para as gerações futuras pagarem, não hão-de ser condenados pelas instâncias judiciais, e não apenas por essa cobertura esburacada da “responsabilidade política”?!... Sou dos que entendem que as responsabilidades políticas são para serem assumidas claramente e que os recursos públicos têm de ser gastos com a maior parcimónia, para que não entremos (como já entrámos há muito), numa espiral de retrocesso social e civilizacional, de empobrecimento rápido de todo um povo que não tem culpa da incapacidade e da inépcia de muitos dos políticos que se nos oferecem às eleições e que deveriam estar, não em S. Bento, mas no Limoeiro!...
São eles que estão a descredibilizar e a destruir a democracia!

2. As perplexidades vão em vários sentidos. Desde logo, no sentido daqueles governantes e políticos que, tendo habitação em Lisboa, não são capazes de abdicar de um subsídio mensal que chega a mais de 1400 euros. É legal? Pode ser, porque são os políticos que o decidem, para os seus interesses, o que ressabe a despudor. É imoral? Completamente, numa altura em que os portugueses se vêem confrontados com imensas dificuldades, cortes de subsídios e subvenções. Porque é que os governantes ou os deputados têm de ter direito àquele subsídio, e um professor ou um médico que se desloquem para 400 quilómetros da sua habitação, têm de alugar casa ou quarto e não recebem nem mais um cêntimo para fazer face a essa renda?
E depois queixam-se do descrédito da classe política…
Perplexidade é também o aumento salarial que o director nacional e outros dirigentes da PSP concederam a si próprios no ano passado, o que apenas agora foi conhecido, sem que o ministro, ou quem quer que seja, tenha atalhado essa vergonha! …
Como é perplexidade ter-se conhecimento de que o corte nos subsídios não é para todos, para além dos funcionários públicos e pensionistas. Os funcionários da banca estão em negociações para manterem os subsídios, alegando cláusulas contratuais inerentes aos fundos de pensões. Os pensionistas do Banco de Portugal também não querem ser penalizados, alegadamente por a instituição integrar o Eurosistema e ter sistemas diferentes. Também os trabalhadores da TAP deverão escapar aos cortes, por uma aldrabice conseguida no ano anterior, em que foram autorizados pelo então governo para, em vez de baixar os salários em 5%, aplicar essa redução nos subsídios de Natal e de férias.
Este país, alegadamente democrático, justo e equânime, é um alfobre de injustiças e de fugas. Onde as leis gerais se fazem para que se institucionalize a excepção. Um país de vigaristas e de “chico-espertismo” no seu esplendor.
Um país onde só os trabalha-dores por conta de outrem cumprem as suas obrigações: o resto, é o regabofe de quem mais tenta escapar ao fisco, à segurança social, ao cumprimento dos seus deveres, àquela coisa básica que se chama “justiça”!

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