Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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Impressões de uma viagem pelo interior

Assim-assim, ou assim, sim?

Ideias

2017-03-26 às 06h00

Manuel Barros Manuel Barros

O despovoamento do interior e a vocação estruturante do território foi tema de uma crónica trazida à estampa neste espaço. Decidi desta vez revisitar este assunto, de forma impressiva e a propósito de uma viagem, com um grupo de amigos por Trás-os-Montes e Alto Douro. Um território que percorri vezes sem fim, numa diversidade de contextos, por razões profissionais. Uma excelente oportunidade para fazer uma incursão sobre o que fui pensando, escrito e defendido sobre este território.

Uma visão diferente. Um período de tempo centrado na execução de programas e a gestão dos recursos, que me estavam confiados por via das funções que fui desempenhando. Missão centrada nas preocupações estavam focadas na evolução das assimetrias regionais, marcadas pelo despovoamento e a desertificação do interior. Na promoção de projetos de desenvolvimento, através de medidas concretas para a defesa interesses das populações residentes, com especial destaque para a dignidade e bem-estar dos mais velhos, e a fixação e atração dos jovens.

Um contexto, em que o litoral a oferecer muito mais oportunidades a todos os níveis, o interior tem ficado cada vez exposto ao atraso e à estagnação tecnológica e social, bem como quem lá vive, para além de ser uma população idosa, se está a tornar cada vez menor à medida que vão morrendo. Devendo o seu enfoque, ser colocado na postura de combatividade que está a ser adotada, pelas populações locais para inverter a situação. Uma dinâmica assumida na impressão, que o despovoamento não têm causas naturais, e o interior não pode ser visto como uma realidade, constituída por “velhos e lindas paisagens com animais felizes”, serviços a fechar, mulheres de pele mal tratada a trabalhar no campo, e homens sentados à espera do fim.

Quando visitamos estes espaços de forma descontraída, fruindo as suas riquezas e observando a sua transformação, confirmamos que impressão de perda, de envelhecimento, de despovoamento e de isolamento, imperando uma imagem redutora, que teima em persistir. O futuro destes territórios de baixa densidade, apesar de tudo, não se esgota nesta perspetiva. A avaliar pela crescente valorização da natureza, do património, da cultura e pela fantástica rede de vias de comunicação, que quebraram definitivamente as distâncias. Sendo necessário contrariar, esta visão fatalista das carências e das dificuldades que se vivem, atualmente, no interior do País.

Uma desigualdade, com claras diferenças entre o litoral mais rico, mais jovem e com mais oportunidades e o interior globalmente  mais pobre e mais débil. Uma realidade social com falta de empregos, que a continuar ao ritmo atual, confirmando a impressão, da tendência de concentração acentuada da população na faixa litoral, confirmando que interior vai perder até 2040, de acordo com alguns estudos, quase um terço da população actual e de parte significativa do território, que corresponde a mais de dois terços do país.

Este é um tema que se presta a demagogias fáceis. Por impulso imediato muitos afirmam que 'faltam apoios e subsídios ao interior', mas ninguém avalia o impacto dos subsídios, que já foram distribuídos para a fixação da população e para o incentivo da atividade económica, nestes territórios de baixa densidade. Neste contexto, de visita mais ou menos turística, ficamos com a impressão que neste âmbito, corremos o risco de fazer mais do mesmo para resolver um problema, cuja receita falhou ao revelar o efeito inverso, tendo em linha de conta as mais-valias diretas, na melhoria das condições de vida e infraestruturas criadas ao logo das últimas décadas.

Michael Porter escreveu há 20 anos a este respeito, sobre a valorização dos recursos endógenos. Recursos que permitem desenvolver uma economia mais sustentada e competitiva, e com maior capacidade de barrar a entrada para novos players noutras geografias. Antecipando a necessidade de as universidades e institutos politécnicos trabalharem com as empresas em áreas, cujas oportunidades devem ser exploradas, com base na identidade e na diferenciação dos territórios de baixa densidade. Promovendo desta forma, o desenvolvimento de competências endógenas e de mais empresas, com capital, experiência e mercado, através da valorização e fixação dos recursos humanos que saem desses centros de conhecimento.

Volvendo quase duas décadas, a tendência está a crescer por ação direta da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro e do Instituto Politécnico de Bragança, ficando-nos a impressão de que estão a ajudar a “fintar” o despovoamento. Um papel que se está a aprofundar, com a sua participação em consórcios com outras universidades e politécnicos da Região Norte e com atração de estudantes internacionais. Afirmando assim, as vantagens destes centros de conhecimento, com mais gente, mais conhecimento e a com ao alagamento das oportunidades de mais e melhores empresas.

Uma impressão cada vez mais acentuada, de que inversão de um processo de décadas cuja origem não é, tal como já afirmamos, tanto por causa das infraestruturas e equipamentos, mas a regressão do crescimento económico, a incapacidade de criação de emprego para fixar pessoas e para dar vida a estas comunidades. O perfil populacional de baixa densidade, com que carateriza o povoamento desta região, é a causa e consequência do círculo vicioso, que marca o progressivo esvaziamento e envelhecimento da sua população, que se conjuga com um povoamento disperso, disseminado por pequenos aglomerados e com uma regressão demográfica, agravada pela perda dos ativos mais jovens e empreendedores, que fogem do território.

Nesta perspetiva, e de acordo com o que pudemos vivenciar, nos contactos com as estruturas de alojamento, a gastronomia, a qualidade dos produtos e a paisagem preservada, o despovoamento do interior “é um fenómeno dramático, mas não é uma inevitabilidade”. Desde que sejam adotadas políticas corretas de qualificação das pessoas, de urbanismo e preservação do património, como tem vindo a vários países da Europa, onde já se regista uma inversão.

Algumas regiões, já estão a “recuperar e a renascer”, ficando-nos a impressão, que vão ultrapassando o nó górdio deste problema, à medida que vão criando e retendo valor e emprego, com capacidade de dinamizar as economias locais e os serviços de proximidade, estruturantes da sustentabilidade económica destes territórios. Temos ainda muito caminho a percorrer… Em boa companhia, vale a pena visitar, conhecer e repetir.

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