Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Impreparação política e efeitos colaterais

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2014-05-20 às 06h00

Jorge Cruz

Fontes oficiais anunciam-nos que a troika já se foi embora mas a realidade mostra-nos que os portugueses estão bem longe de a verem pelas costas. As mesmas fontes garantem-nos que o país recuperou a sua soberania mas a verdade é que o Governo de Passos Coelho continua a agachar-se perante os credores estrangeiros subalternizando os portugueses.

Subsiste, portanto, uma desconformidade substantiva entre o que nos é anunciado e a realidade. Falam-nos de um país que não reconhecemos como sendo Portugal, mas sim um país virtual que, como Passos Coelho avisou há dias em Macedo de Cavaleiros, não só não deve criticar a Europa como deve agradecer-lhe. Será também por essa razão, pela sua cada vez menor ligação aos portugueses, por se recusar a encarar a dura realidade com que o povo se defronta, que o Governo e a maioria de direita que o suporta exultam com alguns números. E comemoram! Sabe-se lá o quê…

Sim, porque o programa de assistência financeira pode, na verdade, ter chegado ao seu términus mas é um facto indesmentível que o país está hoje mais pobre e mais endividado. Claro que sempre haverá quem diga que esses são apenas efeitos colaterais. O problema é para quem sofre na pele tais efeitos.

Depois de Passos Coelho ter posto em prática a sua agenda ideológica, utilizando como alibi o memorando da troika, Portugal está bastante diferente para pior: os cortes de salários e de pensões e os brutais aumentos de impostos, medidas que o líder do PSD sempre prometera não tomar, agravaram substancialmente as condições de vida dos portugueses; o desemprego foi elevado para números nunca antes verificados; o encerramento de serviços públicos essenciais agravou as dificuldades da interioridade; e, além de tudo o mais, permitiu que o valor da dívida tivesse um crescimento galopante, para níveis assustadores.

Com um panorama tão dramático - e não serão alguns tímidos “progressos” que poderão inverter a situação - que razões haverá para comemorar como, aparentemente, o fazem quer Governo quer Presidência da República? Só se for o vencimento de teses pessoais, não de objectivos que a todos interessam.

Há cerca de sete anos, portanto quando ainda nem sequer pensava fazer parte do Governo, Pedro Lomba, o actual secretário de Estado Adjunto do Ministro Adjunto, dizia que “uma educação política não se faz no poder” até porque “o poder comprime, deforma, vicia.” Lomba, em tempos apelidado como um dos ideólogos da nova direita e um dos rostos da desastrosa campanha de comunicação do governo, acredita ou, pelo menos, em 2007 acreditava que “o poder ilude” razão pela qual defendia que “uma verdadeira educação política tem de anteceder o poder.”

Creio ser esta a questão nuclear nem sempre devidamente valorada quando se trata de análise política. Sem pretender generalizar ou enveredar por qualquer tipo de populismo, não quero deixar de exprimir a minha opinião sobre esta matéria: e a minha convicção é a de que subsiste, de facto, muita impreparação na classe política.

Se a essa falta de preparação aliarmos a dose de arrogância que frequentemente anda associada à ignorância, temos o “caldo” perfeito para uma classe política fraca e desligada das realidades. E são tais políticos que, uma vez no poder, se isolam nas suas conchas mais ou menos douradas, usando e abusando da demagogia e da mentira e afastando-se cada vez mais dos eleitores. São, enfim, políticos, ou meros aprendizes, completamente divorciados da realidade.

Sabe-se que as pessoas com valor, que não ignoram o descrédito da classe política, recusam envolver-se porque rejeitam misturas com a mediocridade e com o oportunismo. E a consequência está à vista: vence a vulgaridade, ou seja, quem acaba por ascender ao poder não são os mais capazes, os mais bem preparados, mas a rotineira tribo de submissos, gerada e alimentada a partir das lógicas dos aparelhos partidários.

Muitos destes políticos têm o entendimento que o exercício democrático se esgota nas eleições e que uma vez no poder lhes basta a força dos votos para impor as regras. E assim esquecem rapidamente os compromissos eleitorais, mentem aos eleitores e prosseguem imperturbáveis as suas carreiras políticas fechados sobre eles próprios.

Mas, como diz o povo, apanha-se mais depressa um mentiroso que um coxo. E a realidade encarrega-se de desmentir, mais tarde ou mais cedo, ultimamente deveras cedo, os anúncios pomposos de paraísos alaranjados com que nos bombardeiam ciclicamente.

A mentira tem pé curto e é desmascarada quando menos se espera. Ainda agora isso sucedeu com o estudo do Instituto de Políticas Públicas (IPP) ao referir que o Documento de Estratégia Orçamental (DEO) “não é exequível” e implica mais cortes salariais na Função Pública em 2015, o que desmente claramente o anúncio do governo. Tal ocorre, uma vez mais, porque “o nível de austeridade que está subjacente a este DEO é superior ao que seria necessário no quadro das nossas obrigações europeias.” Ou seja, “foi-se longe de mais e este DEO não é exequível nem praticável” garante o presidente do IPP, Paulo Tiago Pereira.

O curioso é que às vezes são os próprios protagonistas a contradizer-se. Vejamos o que disse Cavaco Silva em 2013: “Temos urgentemente de pôr cobro a esta espiral recessiva, em que a redução drástica da procura leva ao encerramento de empresas e ao agravamento do desemprego”. Agora, porém, para alinhar politicamente com o Governo de Passos Coelho no foguetório que pretende assinalar a saída da troika, parece ter-se esquecido das suas próprias palavras e surge a demarcar-se, entre outros, de Manuela Ferreira Leite, de Bagão Félix e do próprio PS.

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