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Idadismo: um flagelo social a nível global

O Estado desta Nação

Idadismo: um flagelo social a nível global

Ideias

2024-06-15 às 06h00

António Ferraz António Ferraz

Segundo um relatório específico da Organização Nações Unida (ONU, março.2021), a nível global, uma em cada duas pessoas tem atitudes discriminatórias em relação aos mais velhos e, na Europa, uma em cada três refere ter sido vítima de discriminação com base na idade. Este fenómeno conhecido como idadismo (ou etarismo) empobrece a saúde física e mental dos idosos e contribui para seu isolamento social. Por sua vez, o “Relatório Mundial sobre Idadismo” divulgado pela Organização Mundial de Saúde (OMS.2022), refere que este é um problema à escala global, apontando para a necessidade premente de uma ação visando combater o que designa por “desgraça devastadora para a sociedade”.
Mas o que é o idadismo? Para o citado relatório da OMS, “o idadismo promove estereótipos, preconceitos e discriminação contra pessoas com base na idade”. Em concreto, ele aparece quando a idade é usada para classificar e dividir as pessoas causando danos, desvantagens ou injustiças e quebrando a indispensável solidariedade intergeracional. Na verdade, não afeta apenas as pessoas idosas, embora estas sejam indubitavelmente o grupo etário que mais padece com as atitudes “idadistas”. O conceito de pessoa idosa não é um conceito flexível (mais de 60 anos, mais de 65 anos, ou outro?) dado que existe um entendimento diverso resultante do aumento da expetativa de vida, sobretudo, nas sociedades mais desenvolvidas. Porém, tal não impede que o idadismo atinja várias áreas da ação humana: saúde, sociedade, economia, etc. Desta forma, o idadismo pode apresentar um caráter: (a) institucional, com leis, regras e normas sociais das instituições que restringem de forma injusta as oportunidades e danam de forma sistemática as pessoas com base em sua idade; (b) interpessoal, quando sucede com as interações entre duas ou mais pessoas; (c) autoinfligido, quando é internalizado e voltado contra si mesmo”.
Em Portugal, um dos países mundiais onde a questão do envelhecimento (e longevidade) apresenta contornos muito relevantes que há alguns anos tem vindo a aparecer associações de iniciativa da sociedade civil visando o esclarecimento público e a ação no combate ao idadismo. São os casos, por exemplo, das organizações “Stop Idadismo” e “Cabelos Brancos”.
Mas, quais as consequências nefastas do idadismo em diferentes áreas da ação humana? Destacam-se, entre outras, (a) Área do Trabalho: o ambiente do trabalho torna-se na área onde mais prevalece os estereótipos, preconceitos e discriminização e que mais abala a saúde física e mental dos mais velhos. Exemplificando, “existe numerosas situações em que as pessoas idosas surgem diretamente afastadas dos processos de recrutamento e seleção das empresas. Em outras situações, padecem de isolamento ou tratamento indevido por hipotéticas razões, como sejam, menor dinamismo, menor “adaptabilidade às mudanças” ou dificuldades com a tecnologia, etc. A propósito, a OMS refere que “não se pode permitir que os estereótipos baseados na idade restrinjam as oportunidades das pessoas”; (b) Área da Saúde: encontra-se relacionado a uma saúde mais frágil, um declínio físico e mental em aceleração e uma pior qualidade de vida resultando em uma expetativa de vida mais curta. Assim, foi estimado que 6,3 milhões de casos de depressão a nível mundial encontram-se associados ao idadismo; (c) Área da Sociedade: faz crescer o isolamento social e os casos de solidão. Existe também uma tendência nos ambientes familiares de subestimação dos idosos, controlando as suas vidas e os afastando da tomada de decisões e, logo, diminuindo os seus níveis de autonomia e autoestima; (d) Área da Economia: cria condições maiores para a pobreza e a insegurança económica. Os idosos muitas vezes não tem acesso a certos benefícios, como os seguros ou os empréstimos hipotecários dada a idade; (e) Área dos Afetos: cerceia a vida amorosa e sexual dos idosos ainda sujeita a muitos preconceitos e continuando a ser um assunto tabu para a própria sociedade.
Conclui-se, então, da necessidade premente de combate ao idadismo, este flagelo social a nível mundial. Mas o idadismo poderá ser contrariado? A resposta não deixa de ser positiva. Pese embora, o idadismo possua um elemento cultural que pode levar tempo para mudar, medidas sociais, políticas e empresariais podem ser postas em prática visando um combate eficaz ao idadismo. Na verdade, de acordo com vários estudos na matéria, “estratégias que combatem o idadismo no ambiente laboral podem gerar oportunidades para a formação de valiosas equipas intergeracionais” para as empresas. A propósito, o relatório da ONU (mencionado atrás) aponta três estratégias objetivando minorar o idadismo:
(1) Estabelecimento de políticas e leis úteis para reduzir o idadismo contra qualquer segmento etário;
(2) Desenvolvimento de iniciativas culturais em todos os escalões do ensino, do 1º ciclo à universidade;
(3) Criando incentivoso ao contato intergeracional, a fim de reduzir os estereótipos e preconceitos entre segmentos etários. Por último, mas não menos im- portante, dever-se-á envolver a comunidade científica na abordagem das várias temáticas conectadas com o idadismo, tanto por via dos meios de comunicação social, como pela via da realização de fóruns, jornadas, congressos, etc., uma vez que deste modo se poderá desmistificar as ideias erróneas e injustificadas, credibilizando a transmissão da informação.

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