Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Humanizar a Medicina é a única alternativa

Carta à Leonor: olhar mais para fora para melhorar aqui por dentro

Ideias

2018-03-05 às 06h00

Pedro Morgado

Até ao início da era científica, toda a Medicina era tradicional. Ou seja, tratava-se de um conjunto de conhecimentos e aptidões que passavam de geração em geração com base em crenças que não careciam de demonstração. Foi o método científico que revolucionou a Medicina (e toda a Sociedade), fazendo crescer de forma exponencial a compreensão dos fenómenos químicos, físicos e biológicos bem como o conhecimento acerca das doenças e de possíveis formas de tratamento.
A Medicina passou então a incorporar os conhecimentos que lhe chegavam da ciência e, em todo o mundo, passou a tratar-se de uma prática baseada na evidência e no conhecimento científicos. Na prática, os médicos deixaram de atuar de acordo com conhecimentos e aptidões assentes em crenças históricas para passarem a propor tratamentos que se baseiam na demonstração e no conhecimento científico. A conjugação dos avanços da Medicina com a melhoria das condições de vida, de salubridade e de trabalho motivaram um espetacular aumento da esperança média de vida e, sobretudo, do número de anos de vida saudável. É sempre bom recordar os mais céticos e pessimistas que, em menos de 100 anos, a esperança média de vida mais do que duplicou.

Esta Medicina baseada na evidência científica é responsável por termos erradicado um conjunto vasto de doenças infeciosas que anteriormente eram altamente mortais, por conseguirmos deter com sucesso grande parte dos cancros que eram rapidamente fatais, por convertermos a infeção por HIV numa doença crónica, por controlarmos a diabetes, por tratarmos com grande sucesso a Esclerose Múltipla, por travarmos o avanço outrora irreversível da esquizofrenia, por devolvermos a mobilidade aqueles que sofrem fraturas e por tantas outras conquistas que certamente não caberiam numa enciclopédia das antigas.
Apesar de todos os sucessos, a Medicina baseada na evidência científica não está, naturalmente, isenta de erros nem livre de ameaças.
Importa salientar que alguns erros decorrem de insuficiências do próprio método científico e de limitações na tecnologia disponível e outros ocorrem pela deficiente interpretação ou aplicação do conhecimento científico pelos profissionais que, sendo humanos, estão naturalmente sujeitos a errar. Uns e outros, mais ou menos inevitáveis, têm normalmente vida curta num sistema livre, aberto e baseado na evidência científica.

Entre as ameaças à Medicina destacaríamos aquela que é uma das suas principais virtudes: a massificação. Com a justa imperiosidade de garantir o acesso universal aos cuidados de saúde, os sucessivos governos transformaram os Hospitais e Centros de Saúde em máquinas de produção de consultas. Os tempos dedicados aos doentes foram esmagados e toda a prática foi dirigida para a aplicação de técnicas de tratamento reconhecidamente seguras e eficazes. Os médicos e enfermeiros deixaram de ter condições para ouvir adequadamente os doentes, para lhes explicarem aos tratamentos e para lhes garantirem o tempo necessário à exposição das suas angústias e ao esclarecimento das suas dúvidas.

É a desumanização de uma Medicina baseada na evidência científica que está hoje obrigada a desfigurar-se numa atividade dirigida para a produção em massa que leva alguns doentes a desconfiaram das suas virtudes e a entregarem-se às mãos das chamadas medicinas tradicionais onde encontram o tempo e o conforto para as suas angústias, mas não o tratamento para as suas doenças.
A saúde é um assunto muito sério. Num regime democrático, é uma obrigação do Estado garantir que os cidadãos têm acesso a uma Medicina baseada na evidência científica com condições para uma prática verdadeiramente humanizada. O diagnóstico está feito: humanizar a Medicina é a única alternativa que protege os doentes.

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