Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Hoje recebi flores...

Saúde escolar: parceiro imprescindível das escolas de hoje

Conta o Leitor

2013-08-13 às 06h00

Escritor

SUSANA MIRANDA

Vi-o entrar em casa, já passava da meia-noite, e nem me atrevi a perguntar o porquê da demora, nem sequer do “esquecimento” de avisar que não iria jantar em casa. Mostrei-me desinteressada, enquanto preparava o lanche das crianças para levarem para a escola. Ele resmungou qualquer coisa a pedir desculpas que eu não quis ouvir e virou-me costas, como sempre.

Ouvi os passos do meu marido em direção ao quarto, e só aí consegui pensar naquele “pedido de desculpas” improvisado e sem qualquer sentido, não fossem os quinze anos de casamento e a previsibilidade dos acontecimentos diários. Há demasiado tempo que era assim…

Nos primeiros tempos caía em depressão, chorava durante o dia em que estava sozinha em casa, incapaz de desabafar com quem quer que fosse. Agora, limito-me a desempenhar um papel... o papel de esposa, dona de casa, mulher de um psiquiatra bem sucedido e respeitado na sociedade. Ninguém imaginava a atrofia do meu casamento falhado.

Confesso que quando o conheci pensei que fosse o “príncipe encantado” dos romances literários que sempre adorei ler. Sempre cavalheiro, muito bem vestido, com bons modos, encantador perante os olhares da família. No fundo, o homem perfeito! Os sinais de irritação e fácil descontrole eram evidentes, porém sempre arranjei justificações na minha cabeça como o stress e a pressão do dia-a-dia. Afinal, aquele era o homem que amava e o amor perdoa tudo... Ou quase tudo!

O dia do casamento foi um verdadeiro sonho, num lugar magnífico, debaixo de um céu azul e um sol quente. Ainda hoje consigo ver as rosas, as velas e os tecidos de seda espalhados pela decoração idealizada por mim ao pormenor. Nada podia falhar, já que era o dia que tanto esperei e ansiei! Apaixonei-me por ele desde o dia em que o conheci, e casei-me com a convicção de que seria eterno. Hoje sei que tudo é “eterno” apenas enquanto dura…

No dia seguinte, enquanto preparava o jantar, recebi mais um telefonema igual a tantos outros, em que me dizia que não vinha jantar, com a desculpa de mais uma reunião de trabalho na clínica. Melhor assim! Eu só conseguia ter paz quando estava com os meus filhos apenas, sem aquele olhar ameaçador sempre a perseguir-me. Eles já estavam habituados à ausência do pai, mas eu sempre procurei que eles não percebessem as nossas discussões, falta de amor e respeito. Afinal, era o pai deles, o herói que lhes satisfazia os desejos todos, e pouco mais...

Eu sempre soube das traições constantes do meu marido. No entanto, tudo aquilo se tornou indiferente para mim. Numa tarde, igual a tantas outras, em que me dirigia para o supermercado e antes de ir buscar os miúdos à escola, coincidência ou não, deparei-me com o carro do meu marido do outro lado da rua, estacionado em frente a um café. Contornei a rotunda para lhe fazer uma surpresa, contudo nesse momento ele estava a abrir a porta do carro a uma jovem mulher que eu não conheci. Morena, alta e esbelta, entrou no carro com um sorriso enorme e um olhar cúmplice para ele. Dentro do carro, e sem quaisquer pudores de quem estivesse a ver, deram um beijo longo e aparentemente apaixonado. Sem pensar, perante aquilo que acabava de assistir, acabei por segui-los sem que ele se apercebesse durante alguns quilómetros até à periferia da cidade, acabando por perceber exatamente para onde se dirigiam. Um motel! Encostei o carro à berma da estrada e desabei... chorei durante muito tempo, até perceber que tinha obrigatoriamente que me recompor e ir buscar os miúdos à escola. Uma coisa era desconfiar, outra era ter a confirmação com os meus olhos, sem que ninguém me tivesse contado! Senti-me perdida, sem saber qual seria o passo seguinte ou que rumo dar à minha vida. Não tinha ninguém com quem desabafar, não tinha ninguém para me aconselhar ou mesmo ajudar. Tinha perdido a minha independência e não tinha meios para me sustentar, nem a mim nem aos meus filhos. Eu queria muito ter coragem para pedir o divórcio, mas sabia que não era a solução. Não tinha saída…

Com o casamento, tinha acabado por me isolar e afastar-me dos meus amigos e da minha família. Agora, ao perceber o pesadelo em que a minha vida se tinha tornado, sabia que ninguém me poderia ajudar ou sequer compreender a minha infelicidade.

Com medo da sua reação, acabei por não fazer qualquer tipo de comentário à cena que tinha presenciado. Chorei e sofri em silêncio, mais uma vez, sempre pensando nos meus filhos e na visão inocente deles perante a vida. Na sua doce ignorância, nunca compreenderiam a minha revolta e a minha dor. Muito menos se o causador disso fosse o pai que adoravam.
Nessa noite recebi flores... e mais uma vez, em forma de pontapés, murros e insultos…

No dia seguinte entrou em casa tarde e, como sempre, cansado segundo dizia. Limitei-me a fazer o meu papel e fingir que estava tudo bem. Deitar-me ao seu lado era um sacrifício, já nada me prendia àquele homem. Era alguém que entrava e saía de casa sem que eu conseguisse sequer sentir a sua falta. O amor tinha acabado há muito tempo, talvez desde o primeiro momento em que descobri quem ele era, afinal. Deixei simplesmente de lhe tocar, de nutrir qualquer tipo de sentimento por ele a não ser um ódio visceral, um desejo insano e secreto de que desaparecesse da minha vida para sempre, mesmo sabendo que era só uma utopia. Pelos meus filhos, aprendi a viver um dia de cada vez, sem precipitações, projetos e desejos de espécie alguma.

O homem que amei, o pai dos meus filhos, o meu sonho... Tudo tinha terminado com as constantes agressões físicas e psicológicas, acabando por viver os últimos anos da minha vida aterrorizada e violentada. Já não como mulher, mas só como um ser perdido na vida…
Uma noite, foi a última em que recebi flores... Flores verdadeiras… Rosas brancas…
Foram depositadas por ele… em cima do meu caixão!

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