Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Hipocrisia em estado puro

A vida não é um cliché

Ideias

2014-11-25 às 06h00

Jorge Cruz

“Nos tempos difíceis em que vivemos, somos confrontados com quem, dominado pela ambição sem escrúpulos, quer recuperar benefícios perdidos, esquecendo-se dos que não têm nada, dos que procuram trabalho e não encontram, dos que, abertos ao dom da vida, querem educar os seus filhos com dignidade e não conseguem”.

A corajosa denúncia foi feita sábado passado pelo Bispo do Porto na homilia da missa da solenidade litúrgica de Cristo-Rei, celebrada na catedral diocesana, ou seja, dois dias depois de uma coligação de circunstância entre PSD e PS ter aprovado na especialidade a reposição de benefícios aos políticos.

A voz lúcida e respeitada de D. António Francisco dos Santos surgiu como um reforço de peso das inúmeras correntes que, desde a apresentação da proposta na Assembleia da República, se manifestaram contra a intenção de repor as subvenções vitalícias aos ex-titulares de cargos políticos, mesmo nos casos em que os seus rendimentos superem os dois mil euros.

É certo que, entretanto, ao retirar a proposta antes da votação em plenário, os dois partidos do bloco central emendaram a mão mas, em todo o caso, a existência deste caso não pode ser ignorada tanto mais que se trata de um facto que acentua a enorme hipocrisia que grassa em alguma classe política. São, aliás, exemplos como este que contribuem para manter a política e seus intérpretes em níveis extremamente baixos de popularidade.

Aliás, não será pelo facto de os proponentes terem pedido para retirar a proposta que o assunto será esquecido. Como muito bem lembrou Mariana Mortágua, “a votação (na especialidade) foi uma vergonha. Foi uma vergonha que PS e PSD tenham considerado que a prioridade política era repor pensões dos ex-políticos enquanto condenam pessoas a uma vida de pobreza”. Por essa razão a deputada do Bloco de Esquerda considerou, e bem, que a decisão de retirar a proposta, já depois de aprovada, “não foi bom senso”, conforme foi dito por Couto dos Santos, antes “foi um acto de má consciência”.

Não por acaso, os dois partidos do bloco central haviam iniciado o debate do Orçamento do Estado na especialidade com críticas vivas e por vezes contundentes aos níveis de austeridade que o documento propõe para o próximo ano. Ao fim do dia, porém, puseram-se de acordo para aprovarem a reposição das subvenções vitalícias aos políticos, proposta apresentada pelos deputados Couto dos Santos (PSD) e José Lello (PS) na sequência de pressões não desmentidas do governo. Os votos contra do PCP e do BE, a que se juntou a abstenção do CDS/PP, foram insuficientes para chumbar a intenção da maioria de circunstância.

É conveniente recordar que ainda antes da sua aprovação, a proposta já tinha gerado enorme polémica na opinião pública, bem patente nas redes sociais e nos comentários às notícias online. A ebulição dos protestos contrastava com o que ia sucedendo no Parlamento, onde o tema ia passando praticamente ao lado dos deputados, que o comentaram em surdina, com a honrosa excepção de Mariana Mortágua, que se manifestou contrária à incompreensível reposição.
Todavia, a onda de repúdio viria a crescer após a aprovação transformando-se, pouco a pouco, num autêntico tsunami de protestos que ameaçava inundar e, quiçá, afundar os dois partidos que, com a sua atitude nada solidária para com a maioria dos portugueses, não tiveram qualquer pudor em agravar ainda mais o fosso entre eleitos e eleitores.

Valeu, na circunstância, por um lado, a autêntica revolta protagonizada por alguns deputados do PSD, a que se juntaram as vozes críticas de parte do aparelho e das próprias bases do partido e, por outro, a iminência do voto contra do CDS/PP, facto este que não terá sido despiciendo tendo em conta a necessidade de manter a coligação, mesmo que “ligada à máquina”.

Destacados militantes do PSD como Carlos Carreiras, presidente da Câmara de Cascais e vice-presidente do partido, ou o eurodeputado Paulo Rangel, para só citar dois e não tornar a lista demasiado extensa, reagiram publicamente contra a aprovação com duras críticas que, em última análise, atingem directamente Passos Coelho.

Carlos Carreiras, talvez o mais crítico desta nova trapalhada, lembrou a imoralidade da proposta mas foi ainda mais longe ao considerá-la “uma vergonha” que “simboliza muito do que tem afastado os portugueses do sistema partidário”. Por isso mesmo não hesitou na classificação: “é um erro colossal, é uma péssima decisão”.

No enquadramento a que procedeu para melhor compreensão do que estava em causa, o vice-presidente social-democrata disse que há 318 beneficiários “que custam ao Estado (a todos os contribuintes) 758 mil euros por mês, mais de sete milhões de euros por ano. Valor médio de 2300 euros por subvenção.” Lembrou que não se sabe “quem são todas e todos”, embora sublinhando que muitos “continuam no activo, outros acumulam reformas (inclusive do Estado) e alguns são os paladinos da moral pública nos órgãos de comunicação social, de onde recebem como comentadores”. Demolidor, principalmente se tivermos em conta que o autor é vice-presidente do partido e um prestigiado autarca.

Mas Paulo Rangel também não teve qualquer rebuço em considerar tratar-se de “um mau exemplo. Acho um mau sinal, acho que é inoportuno nesta altura”, afirmou sobre o assunto.
Terá sido por se ver acossado pela onda de protestos e pela autêntica revolta na bancada do PSD que Passos Coelho terá dado ordem de recuo. Evitou, desta forma, males maiores mas o certo é que a tentativa gorada de reposição das subvenções vitalícias aos ex-titulares de cargos políticos vai certamente deixar marcas. E dificilmente será branqueada. Até a hipocrisia deve ter limites.

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