Correio do Minho

Braga, terça-feira

Heróis do Mar

Confiança? Tínhamos razão.

Ideias

2011-12-04 às 06h00

Carlos Pires

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

“Mar Português, Fernando Pessoa, in Mensagem


1. Como eu gosto deste poema! Veio-me de imediato à memória após assistir, através da televisão, à emocionante chegada dos pescadores sobreviventes do naufrágio da embarcação “Virgem do Sameiro”. Na noite de sexta-feira passada, optei por visionar essas imagens, em detrimento de muitas outras que outros canais e noticiários difundiam. Não, não me obrigassem a assistir a mais discursos da senhora Merkel, às patéticas entrevistas dos políticos de colarinho branco e gravata, aos discursos de comentadores da vida pública nacional, às tricas e hipocrisias de tantos outros, quando aquelas gentes de Caxinas me proporcionavam, afinal, exemplos maiores e genuínos de bravura e de solidariedade.
Verdadeiros “heróis do mar”, aqueles pescadores viveram três dias perdidos em alto mar, superando, em condições inóspitas, o desespero do medo, do frio e da fome. Os familiares e amigos que os aguardavam entoaram o hino de Portugal. Justificadamente.
Desde a época dos Descobrimentos que Portugal merece o estatuto do país que conquistou o mar até então nunca navegado. No poema “Mar Português”, Fernando Pessoa evoca, de forma magistral, os sofrimentos passados pelos familiares dos marinheiros que partiam corajosamente rumo à aventura marítima, sublinhando que as mães, esposas e filhos dos que embarcavam choraram tanto que as suas lágrimas tornaram o mar salgado - maravilhosa metáfora! Todos estes trabalhos com um único objectivo - “Para que fosses nosso, ó mar!”.
O poeta acaba por questionar se todo esse sacrifício por parte dos Portugueses teria valido a pena. A resposta é afirmativa: “tudo vale a pena”/ “se a alma não é pequena”, isto é, quando se é dotado de um espírito bravo e sonhador, nada do que se faz será em vão.
No passado, o povo português teve que se sacrificar e de ultrapassar muitos obstáculos. No entanto, apesar dos perigos e dos desafios, os portugueses conseguiram fazer valer o seu esforço, dando a conhecer a sua glória. Conclui-se, pois, que o sucesso pertence àqueles que batalham. A recompensa das grandes dores são as grandes glórias. Esta é a grande herança dos nossos antepassados, a qual está inscrita no nosso código genético e a qual hoje, mais do que nunca, urge lembrar e realçar.

2. O Fado foi eleito pela UNESCO património imaterial da Humanidade. Todos nós nos devemos sentir orgulhosos. Portugal tem estado na boca do mundo pelas piores razões - a Moody’s a baixar-nos o rating, a crise, o empréstimo do FMI, o olho gordo das economias emergentes nas nossas energias renováveis, a pedincha de investimento às ex-colónias, etc… . Desta feita, contudo, ficamos (re)conhecidos por algo único; uma parte da nossa cultura é aplaudida e passa a pertencer ao Mundo. O fado fala de nós próprios, da “arte de ser português”, do destino de um grande Povo que sempre soube vencer infortúnios e adversidades, cantando, rindo ou chorando o Fado.
Os portugueses vivem tempos difíceis. Muitas famílias vivem o desespero do desemprego. Outras vivem o medo de terem de o enfrentar.
Trata-se de uma questão difícil e sem solução à vista. Contudo, temos que acreditar que com determinação, esforço, sensibilidade e vontade, poderemos todos juntos, se para isso formos devidamente consciencializados e mobilizados, barricar o problema e ultrapassá-lo. “Tudo vale a pena” - repita-se! - “se a alma não é pequena”. Devemos ser grandiosos e prontos a desejar o impossível. “Tudo vale a pena” para se alcançar o ideal sonhado.
Deixemo-nos inspirar pela heroicidade dos pescadores de Caxinas, exemplo recente de que “Quem quer passar além do Bojador” / “tem que passar além da dor”, entendendo-se “Bojador” na sua dimensão simbólica, poderosa metáfora do medo e do desconhecido. Deixemo-nos ainda motivar pelo reconhecimento internacional do “Fado”, enquanto forma de expressão musical indissociável da identidade portuguesa.
Acredito que o povo português tem força anímica e humanismo suficientes para levar com determinação a difícil tarefa de se erguer das trevas. Será difícil? Certamente que sim; contudo, a nossa grandiosa História mostra-nos uma constante que é mister invocar em tempos difíceis - a esperança e crença sebastianista de um amanhã mais risonho.
Aprendamos com os erros, olhemos para as nossas vitórias e não baixemos os braços.

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