Correio do Minho

Braga,

Herança + hipótese… holística…

Quando eramos anjos

Ideias

2019-04-08 às 06h00

Filipe Fontes

Não se sabe bem quando a cidade nasceu. Aliás, não se sabe bem quando, onde e como nasceu. Apenas se sabe que nasceu por necessidade e que implicou sempre a presença de três palavras / realidades incontornáveis: as pessoas como protagonistas deste fenómeno; o território como suporte físico de actuação; a relação entre os seres humanos como necessidade e vontade, como acção central e razão de ser da junção e reunião dos seres humanos, agora transformados em pessoas (porque em relação uns com os outros).

Também se sabe que a evolução das cidades, e dos seus modos de conformação e sedimentação, foi sempre resposta ao binómio da necessidade e da (re) invenção: a resposta às necessidades básicas de sobrevivência enquanto seres (nomeadamente alimentação) e, depois, às necessidades sociais e económicas (que a estruturação da relação entre as pessoas naquilo a que chamamos sociedade gerou) sempre foi o grande catalisador do seu processo de mudança e crescimento. Dir-se-á, o seu grande factor instrumental de evolução; a (re) invenção como sinónimo de um processo que identifica caminhos e possíveis opções (para descobrir e materializar as melhores soluções que permitam à cidade responder positivamente às suas necessidades e exigências) sempre foi o grande rebocador daquilo a que, hoje, chamamos desenvolvimento e progresso; a revisão crítica deste mesmo processo, a capacidade de superação e eliminação de necessidades e de as transformar, não em falta ou carência, mas em exigência de “melhor e mais justas” sempre foi o pêndulo deste dito desenvolvimento e progresso no seu significado de estabilidade, assertividade e equilíbrio. Ou seja, e recorrendo a uma palavra que tanto se usa na actualidade (embora, tantas vezes, de forma enviesada), “sustentado”.

Resulta assim que entender a cidade implica sempre “olhar para trás”, analisar o quê, como e porquê foi feito (num esforço não de reescrita da história mas de entendimento dessa mesma história) e perspectivar o dia de amanhã, imaginando e delimitando cenários e possibilidades que sejam capazes de responder à realidade que, na data, as cidades enfrentam. Isto é, valorizando (na sua justa medida) a circunstância, esse momento que vivemos e que transporta a hipótese de hoje (e que desconhecemos o que será no dia de amanhã).
De tudo isto, é convicção de que encontramos três palavras incontornáveis na cidade e que, porque tal, são (deveriam ser) presença incessante no seu processo de desenvolvimento: herança, hipótese, holística.

Herança no sentido de que o passado não se apaga, não se elimina e que, por muito esforço que se faça, jamais deixará de influenciar e (ajudar) a determinar o presente e o futuro. “Olhar para o que foi feito”, “analisar as hipóteses que forma formula- das e os seus resultados”, entender a herança deixada, valorizando-a e rentabilizando-a na justa medida do interesse de todos, é inevitável e deveria ser prática corrente e obrigatória. Não há cidade sem história, não há processo urbano que comece com “folha branca, lisa e imaculada”. Pelo contrário, há sempre “o que fomos e quisemos ser”, há sempre rasto e rastilho…

Hipótese na capacidade de antecipar, prever, planear, preparar o dia de amanhã, formulando cenários e caminhos que se julgam possíveis e plausíveis para melhor resposta à circunstância actual e problemas que se adivinham e identificam. Hipótese que deve ser perspéctica e prospectiva, que deve ser ousada e inovadora na medida da adição de novas realidades, novos formatos e capacidade de resposta aos desafios. Ou seja, hipótese que acrescenta valor e singularidade, somando à herança recebida mais saber e capacidade, mais riqueza e património, num processo que, naturalmente, e se assim for, em crescimento e desenvolvimento (nunca esquecendo que a “rotulação” de melhor ou pior de um momento temporal da cidade – relativamente àqueles que o antecedem – não se faz pela sua materialidade ou nível de riqueza e conforto, mas sim pela sua capacidade de responder assertivamente, e tão justa e qualitativamente quanto possível, à circunstância do momento e sua perspectiva de futuro).

Entre a herança do passado e a hipótese do futuro, emerge a holística que (re) lembra a cidade como um processo uno e contínuo, indivisível no tempo e no espaço. E que para o seu entendimento, gestão e desenvolvimento, nada mais fundamental há do que nunca deixar de perseguir a globalidade da cidade, conjugando, equilibrando, rentabilizando, aprendendo e transformando o que a cidade foi e “deixou construído”, o que a cidade “quer e pode ser”, o que a cidade “representa e é capaz”.
O passado solidifica, o futuro perspectiva, o presente é o momento, numa tríade que não deixará de ser, entre os três, dependente, consequência e beneficiária. Entender a cidade neste formato holístico é condição fundamental para o seu governo e sucesso na gestão do seu momento.

Acredita-se, a cidade tem uma capacidade de resistência e resiliência demasiado forte para quebrar e desaparecer. E, como tal, resistirá e persistirá mesmo que gerida de forma casuística, compartimentada e sem incluir a “cadeia toda do processo”. Seguramente que resistirá e persistirá. Mas, uma cidade será tão melhor e mais feliz se não necessitar de direccionar as suas energias, recursos e suor para corrigir visões parciais e segmenta-das do seu processo. Porque se concentrará na essência da sua razão de ser: as pessoas e a sua felicidade!

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