Correio do Minho

Braga, sábado

Há vida para além da rede?

Mais amigo do ambiente (3)

Escreve quem sabe

2018-01-08 às 06h00

Pedro Morgado

A futurologia é uma atividade particularmente recorrente nesta fase do ano. Se pensarmos que há 15 anos ainda não tínhamos Facebook e que hoje vivemos na ressaca de duas eleições fortemente manipuladas naquela rede social depressa percebemos que este tipo de exercícios corre um grande risco de fracasso. Ainda assim, e porque o tempo é de futurologia, vale a pena arriscar uma primeira crónica no ramo.
Estou capaz de apostar que o Facebook, como o conhecemos, está a atingir o seu pico de sucesso e, a menos que se reinvente, iniciará uma fase de acentuado declínio. Isto não significa que a socialização através dos meios tecnológicos esteja ameaçada, sendo certo que a tendência será caminharmos para uma maior maturidade (e, arriscaria, discrição) na utilização pública destas redes.

Há uns dias ouvíamos um jovem de 18 anos confessar na Antena 3 que ainda era “dos poucos que utiliza o Facebook”, numa reveladora alusão ao desinteresse que a rede gera entre os mais novos.
Mas os problemas do Facebook estão longe de ser uma matéria de gosto. Há algumas semanas acordámos com a notícia de que a rede social tinha censurado a página de humor “Jovem Conservador de Direita” com o pretexto de que o seu conteúdo era ofensivo. O episódio é fácil de contar: depois de algumas críticas aos partidos mais à direita no espetro político português, um conjunto de utilizadores descontentes com o sucesso do projeto humorístico e possivelmente ofendidos com o seu conteúdo denunciaram a página de forma concertada. Perante um número elevado de reiteradas denúncias, o algoritmo suspendeu a página num primeiro momento para a eliminar definitivamente pouco depois.

Do episódio, rapidamente resolvido através da pronta indignação dos seguidores e da sua amplificada pelas notícias nos meios tradicionais de comunicação social, resultam duas lições relevantes: a primeira é a de que os negócios que assentam toda a sua estratégia comercial no Facebook comportam riscos significativos, ficando dependentes da vontade e da ganância da empresa americana. A segunda é a de que a ideia de que o Facebook é um espaço de liberdade não passa de uma fantasia: os seus mecanismos de controlo são cegos e têm tiques censórios, não existindo qualquer política de promoção dos Direitos Humanos nem de proteção contra a disseminação de ideias falsas que têm um conteúdo marcadamente machista, xenófobo, racista e homofóbico.

Ainda ontem denunciei ao Facebook um comentário colocado na página oficial do Município de Braga que continha um conteúdo evidentemente xenófobo e uma mensagem de ódio relativa à comunidade cigana. Aparentemente, dizer que “os ciganos não são verdadeiros portugueses” não é contrário a nenhum dos padrões de Comunidade do Facebook. Estranhos padrões, diríamos.
Poder-se-á alegar que o problema não está na rede social, mas no uso que as pessoas lhe dão. Se é certo que há muito quem não tenha interiorizado que a rede social é um amplificador que dá a cada indivíduo uma visibilidade coletiva que antes estava reservada a um conjunto muito limitado de figuras públicas, também é certo que o desenho algorítmico da rede tem uma filosofia que incentiva a modelagem do pensamento e do comportamento humanos de acordo com interesses comerciais que lhe subjazem e que, verdadeiramente, desconhecemos.

A verdade é que nesta década que vivemos à roda do Facebook, maximizaram-se os piores vícios da sociedade de consumo: da sede de “gostos” à exposição do superficialmente “feliz”, as redes sociais converteram-se numa poderosa arma de construção e destruição de modas, de ascensão e declínio mediático, de exaltação e depressão de tendências. As redes sociais são hoje um dos principais estímulos ao consumo e uma proeminente fonte de desencantos e frustrações na busca incessante de ter mais e mais sem que, no entretanto, nos preocupemos em ser alguma coisa.
Neste início de 2018, convém não esquecer que há vida para além da(s) rede(s) e que a melhor tertúlia ainda está no café, o melhor jogo ainda está no estádio, a melhor palestra ainda está na Universidade, a melhor notícia ainda está nos meios tradicionais de comunicação social, a melhor leitura ainda está nos livros e o melhor programa de Domingo ainda está à distância de uma caminhada.

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