Correio do Minho

Braga,

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Há um ano, no Natal

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

Ideias

2017-12-24 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Maria Alice lia com dificuldade as cartas que recebia pelo correio. Eram normalmente contas da água, da luz e do telefone, que pagava religiosamente. Essas cartas, Maria Alice ainda as entendia e conseguia ler, mas as cartas enviadas pela instituição bancária onde guardava o seu dinheiro não as conseguia interpretar e pedia sempre a um vizinho, de confiança, que o fizesse.
Maria Alice, que nasceu em 1945, ainda foi à escola durante dois anos, mas as dificuldades económicas da família não permitiram que continuasse os seus estudos.
Foi numa freguesia do distrito de Braga que Maria Alice nasceu e viveu a primeira e a última fase da sua vida. Na casa onde nasceu, no rés-do-chão, encontravam-se as cortes para os animais, que dessa forma aqueciam o seu quarto, situado no primeiro andar, já que a placa era construída em madeira.
Maria Alice casou nova, com 19 anos, resultando desse casamento o nascimento de dois filhos. Ainda se manteve em Portugal durante 15 anos, mas a miséria que assolava o país, na segunda metade do século XX, levou-a a emigrar, para o Luxemburgo. Tinha 36 anos. Nesse país do centro da Europa trabalhou com o seu marido, durante 32 anos, exactamente o número de vezes que veio a Portugal e sempre na mesma época, no Natal!
Ao longo de uma vida de três décadas de trabalho no Luxemburgo Maria Alice foi guardando no Banco tudo o que podia. Tinha uma casa, que conseguiu pagar na totalidade, uma quantia considerável de dinheiro no Banco e uma reforma que era suficiente para as despesas mensais que tinha em Portugal.
Maria Alice era muito poupada: ia sempre ao sábado de manhã, ao mercado, comprar os produtos para a semana, e não gostava que lhe oferecessem roupa, pois dizia que tinha a suficiente para usar uma indumentária diferente em casa dia da semana!
Há um ano, no Natal, Maria Alice encontrava-se à mesa da sua casa com o seu marido, os seus dois filhos, as duas noras e os seus três netos. Nove pessoas! Toda a sua família, rodeada à mesa, para o Natal! Anualmente, e por diversas vezes, afirmava que estes eram os momentos em que se sentia realmente feliz!
Há um ano, no Natal, e por insistência da família, Maria Alice prometera que no verão seguinte (de 2017) iria ao Algarve pela primeira vez! Partiria com o marido da estação de Braga e o comboio levava-os diretamente a Faro! Confortáveis, em apenas seis horas estariam no Algarve! Uma das suas noras comprometeu-se a reservar-lhes um apartamento, num local sossegado do Algarve, para que lá pudessem ficar durante uma semana.
Há um ano, a noite de Natal terminou com trocas de presentes entre todos os membros a família. Maria Alice não se esquecia de um único presente para todos os membros da família, que escolhia e comprava durante o mês de dezembro, mas não se sentia lá muito bem a recebê-los!
Ao final da noite, e no meio de sorrisos estridentes, um dos seus netos disse que, no Natal seguinte, o tema principal da conversa seriam as férias que os avós iriam passar no Algarve, pela primeira vez!
No início de 2017 o marido de Maria Alice efetuou uma rotineira ida ao médico. Desconfiada, a médica de família pediu-lhe um conjunto de exames e o resultado foi o pior: diagnosticaram um cancro no estômago. Não durou muito. Quatro meses depois do diagnóstico, o marido de Maria Alice foi sepultado, depois de passar semanas entre a sua casa e o hospital.
O choque emocional que Maria Alice sofreu com a morte do marido abalou-a profundamente. A viver sozinha, passou a alimentar-se mal e a sentir constantes fraquezas no corpo e algumas dificuldades de visão. No início de novembro deste ano, depois de uma ida à farmácia, sentiu-se mal e foi vítima de um Acidente Vascular Cerebral. Internada no Hospital, ainda resistiu três semanas, acabando por falecer no dia 25 de novembro.
O jantar de Natal de hoje à noite será diferente para a família de Maria Alice. Cada filho irá passar o Natal nas suas respetivas casas, porque ainda não se entenderam em relação à partilha dos bens materiais que os pais lhes deixaram.
Ao longo de uma vida de sofrimento, de trabalho, de distância do seu país e da região onde a viu nascer, de permanentes poupanças e de muitas privações, Maria Alice e o seu marido deixaram este mundo. Deixaram também uma discórdia na família, por causa dos bens a que cada um tem direito que, teme-se, só pela intervenção da Justiça se decidirá.
Há um ano, no Natal, Maria Alice estava rodeada de toda a sua família. Hoje à noite, cada filho irá realizar o jantar de Natal na sua casa, tendo, previsivelmente, como temas de conversa, as saudades dos pais, que faleceram num intervalo de poucos meses, mas principalmente a forma como irão resolver os bens que Maria Alice e o marido lhes deixaram.

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