Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Há padres bons...

Carta à Leonor: olhar mais para fora para melhorar aqui por dentro

Ideias

2010-04-10 às 06h00

Paulo Monteiro

No filme ‘A Conspiração da Corte’, de António del Real, baseado em factos históricos onde o poder e a morte conspiram na corte de Felipe II, existem duas passagens bem claras de um caso grotesco de pedofilia. Um dos padres importantes da corte é visto por duas vezes a violar um jovem negro, depois de o espancar com várias vergastadas. Nas duas situações o jovem é visto em profundo sofrimento. Notou-se que a dor era constante e a prática comum. Até que... um dia, de tanta violência e de tantas vezes ser sodomizado, ganhou coragem e fez justiça pelas suas próprias mãos, matando, com uma facada, o padre.

Pergunto: qual a razão da existência destas cenas num filme em que se fala da política e dos problemas do Rei Felipe II com a sua corte, com as intrigas e as traições do primeiro-ministro António Pérez e da princesa de Éboli e ainda das ameaças de poder perder Flandres?
A resposta será clara? Seria aquele caso isolado ou, pelo contrário, uma prática comum dentro do seio da Igreja? O certo é que o realizador pretendeu vincar bem aquelas duas cenas que se passaram no século XVI.
O certo é que a pedofilia é um crime horrendo.

Horrendas foram, também, as imagens e as palavras que vimos e ouvimos há poucos dias numa reportagem feita pela cadeia de televisão brasileira SBT. Imagens explícitas de um padre brasileiro de 82 anos numa situação de sexo oral com um jovem de 19 anos. Na reportagem da SBT, antigos acólitos denunciaram casos em que eles próprios ou outros adolescentes foram vítimas de abusos sexuais pelos indivíduos agora afastados.

O padre em questão, Luiz Marques Barbosa, era considerado uma figura de primeiro plano da igreja local, detendo o título honorífico de monsenhor e sendo alvo de testemunhos de reconhecimento da população e da hierarquia. Mas a sua vida obscura apanhou todos de surpresa. Ninguém acreditava que aquele ‘santo’ fosse capaz de fazer tal coisa... Mas fez. E, o mais grave, o mais horrendo, foram as suas palavras, quando entrevistado pela própria SBT: “é um caso de confessionário. Só ao meu confessor eu posso dizer qualquer pecado meu”. Não são palavras ou maneira de pensar completamente errada? Claro que sim. Devia ter vergonha e nem a idade lhe serve de desculpa porque na altura não pensou na idade dos jovens de quem abusou...

Muitos criticam a Imprensa e de que esta aumenta os casos e as situações. Pode ser verdade, em alguns casos. Mas também é verdade que se não fosse a Imprensa muitos destes casos continuavam fechados a sete chaves e não eram tornados públicos, fazendo com que as violações e os casos de pedofilia continuas-sem impunes. O certo, também, é que esta notícia vinda à luz do dia, foi comentada pelo Vaticano e que o padre Luiz Marques foi afastado da sua paróquia e será julgado pela justiça civil.

Os casos de pedofilia na Igreja são mais que horrendos se tivermos em linha de conta que a doutrina da igreja católica nos fala de pureza de bons costumes, de bons hábitos... Quem pratica a pedofilia no seio da igreja pratica um crime ainda maior por ir precisamente contra os seus princípios e linhas orientadoras.

Os números do Vaticano falam em cerca de 3000 acusações de pedofilia contra padres e que foram tratadas pela justiça do Vaticano entre 2001 e 2010 por casos ocorridos nos últimos 50 anos. Mas são números suspeitos. Dizem outros estudos que os números são bem mais elevados. E todos os dias aparecem novos casos. Só que não devem, nem podem, ser tratados unicamente pela justiça do Vaticano. Têm de ser, forçosamente, tratados, também, pela justiça civil, porque acima de tudo está a lei e está a julgar-se um homem que cometeu um crime horrendo.

Em Portugal, entre 2003 e 2007, dez padres foram indiciados pelo Ministério Público por abuso sexual de crianças num total de 5128 casos, de acordo com os dados dos relatórios anuais da Polícia Judiciária que Pedro Pombo recolheu para a tese de doutoramento ‘Abusa-dores Sexuais. Uma perspectiva Neuropsicológia’, apresentada no ano lectivo 2007/2008 na Universidade de Salamanca, em Espanha.

Os números e os casos de pedofilia surgem-nos todos os dias e todos os dias aparecem nas televisões, nas rádios e nos jornais. Bem sabemos que muitos casos são abafados, escondidos, e por isso não conhecidos. Mui-tos outros são falsos, cheios de sede de vinganças de terceiros sem escrúpulos. Mas a justiça tem de ser severa com todos.

E é pena que muitos sacerdotes se fechem no silêncio em vez de ajudar a justiça a acabar com este flagelo.
Honra seja feita a D. Jorge Ortiga que, desde a primeira hora, tem tido uma posição clara e acertada: “o acto em si é pecaminoso, portanto terá de ser resolvido dentro dos tribunais da Igreja e comunicado para a Santa Fé. Por outro lado, também é um crime e, como crime, terá uma outra implicação que diz respeito mais aos tribunais civis”. E foi mais longe quanto a clérigos acusados de abusos sexuais: “eu já disse que um é demais e voltarei sempre a dizê-lo. Mas as situações são para assumir”. É de arcebispos como este que Braga, Portugal e o Mundo precisa. Claro nas palavras e objectivo nos actos.

Os crimes de pedofilia são horrendos. Todos os que o praticam devem ser severamente condenados. É uma vergonha para a Igreja ter gente assim no seu seio. Mas também é horrendo ter professores que agem da mesma maneira, eles que ensinam e devem ensinar o bem. E ter pais que violam os filhos... também é grotesco.

Mas temos que saber distinguir o bem do mal. Os maus dos bons. Não podemos colocar todos os servos da Igreja na mesma panela. Não nos podemos é esquecer que não são todos iguais. É que por este Mundo fora também existem os padres bons... e é a estes que eu quero hoje prestar a minha homenagem, porque conheço alguns e sou amigo deles. Eles que não têm culpa dos outros.

Acreditem: ainda há, e muitos, padres bons... e que praticam e pregam o bem!

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