Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Há gente deste calibre que não sabe o mal que me faz

Como sonhar um negócio

Conta o Leitor

2015-08-09 às 06h00

Escritor

Rosa Pires

A toda a hora sou abalroada e logo eu, que fujo a sete pés, como o diabo foge da cruz a estes pensamentos retrógrados e afeminados que roubados quase ao desbarato à minha serena e paciente figura, lhes deve parecer uma cançoneta feliz.
Deixem-me em paz.

Não fomentem a minha loucura a sorrir sempre que me falam da minha terra quase campeã!
Mas que mal lhes terei feito eu, para merecer tal desmesura?

Ai, as tíbias - diz-me uma - esse bolo, a transbordar de creme de manteiga que me dizem que deve ser um bolo da cidade. Mas eu não sei. E no calor da viagem quase se desfazem, ou com a vontade que me assola de as comer, quase ficam pelo caminho e não chegam ao destino de quem as pediu.

O braga é grande, e um dia vencerá! - Diz-me outro, e não sei porquê. Quero eu lá saber de futebol, de bola ou campeões? Sei, isso sim, que apesar de já ter passado de carro ao lado do tal construído na pedreira, as pedras seculares de onde ele nasceu adormecem num silêncio que a mim metem dó, nem tanto pelos jogos - que eu não tenho pretensão de os ir ver, mas pelo dinheiro que ali foi gasto e ainda hoje os milhões nos sai a todos nós do bolso.

Fala-me outra das “papas de sarrabulho” que a minha sogra tão bem faz. E que tanta vez a ajudei em natais intermináveis e por páscoas friorentas, a desfiar as carnes ao fim do trabalho na casinha ao pé da Sé. Agora transformada num café que não sei o nome e nunca lá entrei. Pelas recordações. Pois, o que sabem os jovens estatelados que por ali permanecem sentados agora, e que não conheço por entre fumos e bebidas frescas a rir alheios à minha imagem que os olha quase transfigurada? O que saberão os turistas que calcam aquelas calçadas a olhar as ruas ditas “zona nobre” da cidade, como se conseguissem descortinar alguma coisa escondida dos nossos olhos? Olho-os agora como se a estranha fosse eu e não eles!

O que saberão eles dos ecos das gargalhadas que se desprendem daquelas paredes agora pintadas, as do meu filho e dos primos que também ajudei a mudar a todos eles as fraldas a vir por detrás de mim e roubarem-me a socapa as carnes já desfiadas? E das zangas deles mas na hora de cada um recolher às suas casas a pergunta era sempre a mesma: “ Avó, amanhã podemos voltar para cá?” E no sorriso da avó nem palavras eram necessárias…

E sobre a Dona Maria e que viveu até perto dos noventa anos e que descia, já a custo, o lance de escadas a pique e pelo ranger dos seus passos na madeira apodrecida o meu sogro, o Sê Zé, ainda mal ela tinha entrado a soleira do rés- do-chão, já o sol reluzia na borda do copo cheio até cimo do tinto tão apetecível como ela dizia embora também tivesse na casa dela e também para dar um nó de conversa com o meu sogro? O meu sogro que ainda hoje continua a dizer que das duas vezes que emigrou para França e Alemanha, nem um mês por lá aguentou com as saudades do seu rico são Joãozinho…

E vendo-me por ali a Dona Maria, já o meu filho um adolescente retorquia sempre: “eu hoje não disse asneiras, pois não?”… que, além de “zé” a primeira palavra aprendida por este não seria difícil de adivinhar, pois então.

Mas o meu filho lembra-se já de poucas coisas nos tiques dos meninos da capital que não dizem palavrões.

Mas há os que me dizem também que sou tão engraçada a dizer “ôitenta”, em vez de “oitenta”, mas que para mim é a mesma coisa. Mas eles dizem que não. Que pareço que o digo ao fechar a boca como se fosse libertar um assobio. E um dia estive defronte ao espelho por tempos intermináveis a proferir as mais das disparatadas das palavras e alguns impropérios. E o que eu me ri, nem queiram saber…

Ao que esta gente, mas a maioria descendente de gentes das terras de Viseu, Bragança, Lamego e até mais a norte me obriga!

Conhecer, só conheço uma verdadeiramente alfacinha e que “não tem terra”, como ela diz, pois nunca passou das linhas de Sintra para cima e da Caparica para baixo.

Até o médico numa clinica em Setúbal que me operou ao nariz, pela pronúncia que em oito anos seria difícil de eu perder, me disse que todos os anos uns dias em agosto, nas férias, vai a um restaurante no hotel do bom-jesus e faz isso desde miúdo comer o melhor prato de bacalhau que alguma vez comeu!

Foi o pai, comerciante, que lhe incutiu pelas viagens que fazia ao norte e fá deste ficou.

Já lhe perdi a conta a quantos me perguntaram: “por quem trocou uma cidade tão jovem e bela?”
Às vezes respondo e, outras vezes, encolho os ombros. Não foi escolha minha.
Mas será que se reuniram todos, penso isso muitas vezes, para me sarnar?

Nem tenho que me justificar, mas será uma espécie de contestação para me dizerem sem convicção para o admitir: volta para a tua terra degenerada!”
Deixem-me em paz!

Não acordem de dentro de mim a fonte de Níobe que serenou por séculos dentro dela os seus fantasmas e a sua dor…

E o Tejo…

Esse menino tão sereno…tão cintilante que se me oferece todos os dias de dentro do comboio…e que brinca com as gaivotas tais aviões de papel ou barcos multicolores a inspirar aos audazes sonetos, amores e saudades…

Que pouco destes, que assim atentam ingratos contra a minha quietude a saltitar em ecos de partitura dentro do meu peito, saberão que existe um Este.

Um rio, ao fundo da avenida, com o Picoto lá no alto onde o sol se banha e se deleita e se levanta na alvorada de alma mais enriquecia e que de rajada num lance de ventania, mergulha de cabeça na superfície de prata dos meus olhos e me revolve as recordações em turbilhão…
Pronto…lá teve que acontecer.

Rebentaram-se-me as lágrimas como rebentam as águas quando as mães o vão ser!

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