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Braga, segunda-feira

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Há 50 anos, os tróleis de Braga “Meteram os eléctricos num bolso”

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Ideias

2013-11-11 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Uma cidade de média dimensão, como é o caso de Braga, possui transportes públicos que vão sendo actualizados e modernizados com o passar dos anos.
Aconteceu isso com a passagem dos “carros americanos” para os eléctricos, em 1914, tal como aconteceu com a passagem dos eléctricos para os tróleis, em 1963.
Por terem sido introduzidos em Braga os tróleis, há exactamente 50 anos, torna-se importante recordar este meio de transporte que entusiasmou muito os bracarenses na década de sessenta e setenta do século passado.

Os trólei-carros, como então eram conhecidos, entraram em funcionamento em Braga no dia 28 de Maio de 1963, substituindo os velhinhos e gastos eléctricos, que aqui circularam durante 49 anos, entre 1914 e 1963. (1)
A primeira viagem oficial de teste, com um trólei, conduzido por um motorista dos Serviços de Transportes Colectivos do Porto, teve lugar a 4 de Outubro de 1962.
Mas seria só no ano seguinte que os tróleis entraram em funcionamento. Foi no dia 22 de Maio de 1968 que “os novos veículos saíram para afinações no cabo-aéreo e ensaios necessários, afim que tudo esteja em ordem no dia da sua inauguração oficial”. (2)

Os tróleis eram muito desejados em Braga, uma vez que os eléctricos encontravam--se em adiantado estado de degradação.
O movimento diário de pessoas em Braga, cada vez mais crescente, justificava a alteração dos velhos eléctricos por um meio de transporte mais moderno e eficaz, como eram então os tróleis.
Este transporte moderno serviria toda a população, no seu movimento diário, “no leva-e-traz ao domicilio, tanto da criadita ladina ou açoada, de sapato tacão raso e aventalito de chita, como a «patroa» amaneirada ou simples de saca por onde espreitam, no regresso, cabeças de peixe de olhos vidrados ou cristas de galo vermelhuscas como a espuma do mosto que espirra dos cascos após a pisa”. (3)

A inauguração dos tróleis, então de atraente cor azul e branca, ocorreu no dia 28 de Maio de 1963. A primeira viagem realizou-se às 18.30 horas desse dia, desde o centro da cidade para o Bom-Jesus, tendo participado nela as entidades oficiais, os engenheiros e pessoal superior dos Serviços Municipalizados e o director destes serviços, eng. Soeiro de Carvalho.
Depois da inauguração, dois tróleis fizeram, entre as 19 e as 21 horas, percursos sucessivos entre a Ponte e o Cemitério de Monte de Arcos, nos quais viajaram gratuitamente todos os que quiseram experimentar este novo meio de transporte.

O agrado, em Braga, foi geral e disso mesmo deu conta o jornal ‘Diário do Minho’, em editorial de 31 de Maio de 1963, no qual referia que os tróleis eram muito bonitos, airosos, bem tratados, quase silenciosos, marcando “na velha urbe uma nota de beleza, de elegância, de bom tom (…) valorizando-a e dando-lhe um ar mais europeu”.

Os tróleis agradaram a todas as pessoas, mesmo “os que não pensam em servir-se deles, pois para a missa das 11 ou para o cafezito, à noite e sobre o almoço, já só sabem ou podem andar de automóvel, que os aguarda, como as éguas ruças do ‘Gregório’ antigamente aguardavam os passantes sobre a calçada, só com a diferença de não fazer faísca no chão de rebos…”. (3)

A circulação deste novo transporte público originou grandes alterações no trânsito, uma vez que o estacionamento foi proibido na rua de S. Vicente; na rua Domingos Soares; na rua de S. Victor; na rua de D. Pedro V; na rua Nova de Santa Cruz e na rua de Santa Cruz. Em contrapartida, o estacionamento na Avenida Marechal Gomes da Costa (actual Avenida da Liberdade), passou a fazer-se nos dois sentidos e paralelamente aos passeios.

Como curiosidade, há a referir que o preço das primeiras assinaturas foi de 50$00 (mensal); 100$60 (trimestral - só para estudantes e em dias úteis); 400$00 (semestral) e de 750$00 (anual).
Quando foram inaugurados os tróleis, o jornal ‘Correio do Minho’, na sua edição de 24 de Maio de 1963, referiu que este transporte vai “meter os ‘velhos’ eléctricos num bolso”. Na altura tiveram razão, mas, se hoje existissem os eléctricos em Braga, provavelmente meteriam no bolso todos os outros transportes públicos, principalmente pela atracção turística que causariam! Mas, à questão dos eléctricos, voltaremos no início do próximo ano.

Os tróleis circularam em Braga até ao dia 10 de setembro de 1979, sendo Braga a primeira cidade do país a acabar com este sistema de transporte. Os oito tróleis que aqui existiam, foram vendidos aos Serviços Municipalizados de Coimbra.

1) ‘Os eléctricos em Braga - 1914-1963’ será o tema do meu próximo livro, a ser publicado no início de 2014.
2) Jornal ‘Correio do Minho’, de 23 de Maio de 1963;
3) Jornal ‘Correio do Minho’, de 24 de Maio de 1963.

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