Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Guerre colonial: Fafe na luta contra o esquecimento

As Bibliotecas e a cooperação em rede

Ideias

2014-12-14 às 06h00

Artur Coimbra

1) Na noite de sexta-feira, a guerra colonial foi recordada em Fafe, em diversos tons, a propósito do lançamento da obra “O Concelho de Fafe e a Guerra Colonial (1961-1974) - Contributos para a sua história”, uma edição da Núcleo de Artes e Letras e que contou com a colaboração de cinco historiadores, dois dos quais foram combatentes no Ultramar. O objectivo da publicação, que resulta de um curso livre de história local realizado em 2013, é claramente evocar os 50 anos do início da “Guerra Colonial”, ou “Guerra em África”, ou “Guerra do Ultramar”, ou até “Guerra de Libertação”, na perspectiva dos movimentos independentistas, que deflagrou primeiramente em Angola (1961), depois na Guiné (1963) e finalmente em Moçambique (1964). E também concomitante- mente, comemorar os 40 anos do 25 de Abril, que representou simbolicamente o fim do Império, ao inscrever como um dos seus propósitos referenciais a descolonização dos territórios ocupados há séculos, muito embora a guerra tivesse continuado e ainda morreram soldados portugueses até 1975, ano das independências das ex-colónias.
A iniciativa desta publicação é considerada “exemplar” e “pioneira”, a nível nacional, pelo conhecido Mário Beja Santos, também ele ex-combatente na Guiné e que esteve presente na sessão, considerando que não conhece no país nenhum caso de uma investigação do género, sobre o impacto do conflito numa determinada localidade, a diferentes níveis.
Depois de décadas em que pairou um cerrado manto de silêncio sobre a Guerra Colonial, em virtude das lesões emocionais que constituiu para a geração que a vivenciou e sofreu, um pouco como sucedeu com a emigração clandestina para França, já há alguns anos começaram a desatar-se as línguas dos ex-combatentes e a lançarem-se em testemunhos e depoimentos, muitos deles em livro, num exercício de catarse que é de todo admirável e colectivamente sadio. Hoje em dia, as prateleiras das livrarias estão pejadas de obras que têm como centro as experiências de guerra de portugueses que foram apanhados, na sua juventude, nessa contingência dita “patriótica” e não puderam ou não quiseram escapar a esse destino.
Será de recordar que a Guerra Colonial foi um período fortemente traumatizante para toda uma geração de portugueses, que viveram, recriaram e sofreram o último meio século da vida colectiva deste país.
Não esqueçamos que mais de um milhão de jovens com idade em redor dos 20 anos, impreparados, mal armados, deficientemente treinados, deslocados abruptamente das suas aldeias, vilas e cidades, passaram, em comissões com uma média de duração de 24 meses, pelas colónias de Angola, Guiné e Moçambique, sobretudo, mas não só (também Timor, S. Tomé e Cabo Verde), onde a espada da guerra foi mais acesa e o troar das metralhadoras mais acentuado. Com aquelas condições, o mínimo que se pode afirmar é que os nossos soldados deslocados para África, durante década e meia, foram autênticos heróis.
Daquele número global, embora as estatísticas não sejam consensuais, mais de 10 mil jovens tombaram, impunemente, na frente de combate ou em acidentes diversos, cerca de 120.000 foram feridos, mais de 20 mil ficaram estropiados ou deficientes para a vida e estima-se que cerca de 140.000 ficaram a sofrer de “Stress Pós Traumático de Guerra”, cujas consequências funestas nunca mais os abandonaram. Do concelho de Fafe, foram coagidos a participar nos três teatros operacionais mais de 1500 jovens, de que resultaram 41 baixas, a última das quais já em Setembro de 1975, mais de um ano depois da Revolução dos Cravos. Ou, como escreve Beja Santos, no prefácio, “houve vidas ceifadas e vidas destroçadas, há mágoas insanáveis, há ainda memórias em carne viva, para muitos há uma guerra ou um tumulto que adormece com intermitências, sucedem-se, inopinadamente, rebentamentos e gritos de feridos que vão e vêm, e que deixam sofridos, stressados, não poucos desses combatentes, repercutindo-se esta dolorosa agitação nas suas famílias”.
Como todas as guerras, este conflito sangrento arrastou o maior sofrimento, individual e colectivo, neste país, não apenas durante a sua vigência, mas nas quatro décadas que já transcorreram. Um ferrete indelével que persegue décadas de vida dos portugueses, os que partiram e os que ficaram (pais, noivas, mulheres, filhos, viúvas) ao longo dos últimos 50 anos.

2) O prefácio a esta obra intitula-o Beja Santos, justamente, “Fafe na luta contra o esquecimento”. E escreve o autor de “Adeus até ao meu regresso”: “O documento agora à disposição do público, e de que fui cumulado com a honra de apresentar, congrega diferentes intervenções. O leitor passa a ter à sua disposição olhares de gente da terra que se irá debruçar sobre o contexto internacional em que fermentou, se preparou e desencadeou a guerra de guerrilhas em Angola, Guiné e Moçambique. O que aqui se escreve é fidedigno, probo, irrefutável. Esse mesmo leitor estremecerá quando vir partir estes jovens mal preparados e até profundamente desconhecedores dos lugares para onde são levados. Tudo fica sumariamente explicado desde os centros de instrução, a formação de batalhão, a existência de uma unidade mobilizadora, as rendições individuais, a chegada a África, o ponto de partida para a viragem de um jovem em adulto, porque todos aqueles teatros mexeram com a gente, mudaram a gente: na abnegação e na solidariedade; a cuidar da solidão e a gerir saudades; a descobrir a liderança e o sentido das responsabilidades com a vida dos outros em jogo; a ver a morte de perto e a engolir as lágrimas; por causa desta guerra se sulcaram dimensões imprevistas, desde a higiene e os cuidados com o corpo, até às novas dimensões do que é essencial e secundário nas nossas escolhas, e para todo o sempre.
O que prontamente me impressionou foi constatar que este minucioso estudo local tem foros de universalidade, há ali dimensões do país todo, aqueles testemunhos, aqueles relatos de operação são genuinamente portugueses (…). Um estudo onde há mortes em combate e por acidente, heróis e desaparecidos, moribundos que não se deixam em terra de ninguém, há gente que se atira ao rio para salvar o camarada; há filhos nascidos de relações espúrias ou paixões assolapadas. Estão ali os fafenses, estão ali todos os portugueses que combateram em todas as paragens africanas. Igualmente interessante é o estudo da imprensa, uma análise cuidada, estão ali as mensagens de exaltação nacionalista, saídas de professos como houve em tanta imprensa nacional e regional daqueles tempos, como se vai ler noticiário de partidas e chegadas, com crónicas de militares e variadas peças literárias”.
E conclui Beja Santos, para orgulho nosso: “Fafe está de parabéns pela memória que conserva. Que todos os outros lugares de Portugal ponham os olhos nesta dedicação, nesta permanente lembrança em nome dos feridos e dos mortos, para que o porvir deles aproveite a lição”.

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