Correio do Minho

Braga,

Guerra e Paz

Consumidores mais habilitados a comparar comissões bancárias a partir de 1 de outubro

Ideias

2012-12-11 às 06h00

Jorge Cruz

Reverencialmente, tomo de empréstimo o título do famoso romance de Tolstói para esta crónica de hoje, não porque nela pretenda narrar ou fazer história como brilhantemente o fez o célebre escritor russo, mas porque creio que os factos que pretendo abordar configuram situações de uma certa guerra…em tempos de paz.

Ontem mesmo foi entregue à União Europeia (UE) o Prémio Nobel da Paz de 2012. A escolha do Comité Nobel norueguês suscitou imensa polémica, que está longe de ter terminado como se pôde comprovar uma vez mais pelas ausências de vulto na cerimónia. Aliás, vários laureados com o Nobel, como o antigo arcebispo sul-africano Desmond Tutu ou o líder histórico do Solidariedade, Lech Walesa, criticaram com dureza a escolha do Comité Nobel.

De facto, a escolha da UE nesta altura é uma opção difícil de compreender no plano da racionalidade, porquanto ninguém desconhece que a falta de entendimento dos países do Euro tem criado um clima de desconfiança que, por sua vez, gera uma crescente intolerância que muitos receiam mesmo possa ser a antecâmara de algo mais violento.

No momento em que a Europa se mostra incapaz de um entendimento sobre o orçamento, quando fracassou o teste ao espírito de solidariedade dos países ricos do norte para com os seus parceiros do sul, fortemente endividados e sujeitos a rigorosos programas de austeridade, esta escolha é deveras incompreensível.

Claro que no espaço europeu não existe qualquer guerra no sentido bélico do vocábulo. Mas tal não significa que, mesmo sem a detonação de bombas, mesmo sem os combates mais ou menos violentos que nos habituamos a associar à brutalidade das batalhas, não existam milhares de vítimas.
“Não podemos viver numa união na qual, num país, as pessoas sejam muito ricas, e em outros, as pessoas, incluindo as pessoas educadas e instruídas, sejam obrigadas a remexer no lixo para encontrar algo para comer”, lamentou há tempos o próprio presidente do Parlamento Europeu. Foi, aliás, por essa razão que o alemão Martin Schulz considerou que algumas situações de pobreza na União Europeia não eram dignas do prémio Nobel da Paz.

Esta situação “não é digna de uma União que ganhou o prémio Nobel da Paz, é por isso que acredito que temos que progredir, e dar à Europa a força necessária para obter um pouco mais de justiça, necessária nestes momentos”, sublinhou o responsável político.
Sabe-se, por outro lado, que o desemprego na União Europeia afecta quase 26 milhões de pessoas, 19 das quais na zona euro, o que contribui para o clima de calamidade pouco ou nada compatível com o galardão recebido.

“O nível de desemprego na Europa permanece inaceitavelmente alto”, afirmou há tempos o porta-voz do comissário europeu do Emprego e Assuntos Sociais, Jonathan Todd, reconhecendo que as divergências entre os Estados-membros ao nível do emprego e da situação social são “maiores do que nunca”.

É este clima de paz podre, de desentendimentos, de divisões, até no plano diplomático e em relação a casos concretos de guerra tradicional, que se vive hoje em dia na União Europeia. Como este status quo desaconselha vivamente a atribuição do prémio sem polémicas, só restarão as razões políticas para a sua entrega. Alfred Nobel deve dar voltas no caixão.
Mudando de assunto, entramos numa outra “guerra” - o denominado novo Acordo Ortográfico (AO) que, pelos vistos, e ao contrário do que o próprio nome sugere, parece suscitar maior discordância do que concórdia.

Subscrito em 16 de Dezembro de 1990 pela Academia de Ciências de Lisboa e pela Academia Brasileira de Letras, o novo AO viria a ser ratificado seis anos mais tarde por Portugal, Brasil e Cabo Verde. Porém, dois anos depois foi celebrado o primeiro protocolo modificativo, documento que eliminava as datas para a elaboração do vocabulário comum da língua portuguesa e para a entrada em vigor do Acordo. Mas não se ficou por aqui.

Em 2004, portanto seis anos volvidos, foi celebrado o segundo protocolo modificativo, desta vez para permitir a adesão de Timor-Leste e determinar, à cautela, que bastaria a ratificação apenas de três países para o Acordo entrar em vigor. E é assim que, dois anos depois, o documento é ratificado por Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Dois anos mais tarde, em 2008, o Parlamento português ratificou o segundo protocolo modificativo e o Presidente da República procedeu de igual modo em relação ao Acordo da Língua Portuguesa, que passou a vigorar em 13 de Maio do ano seguinte.

Contudo, só no ano lectivo de 2011-2012 se verifica a sua introdução no sistema educativo português e no primeiro dia deste ano foi a vez dos órgãos, serviços, organismos e entidades governamentais, assim como as publicações oficiais adoptarem a nova grafia.
Resumidamente, esta é a triste história de um tratado que pretendia criar uma ortografia uni-ficada a ser usada por todos os países de língua oficial portuguesa. Visava, portanto, acabar com duas normas ortográficas distintas, uma no Brasil e outra nos restantes países de língua portuguesa.

Agora, porém, o Brasil prepara-se para adiar para Janeiro de 2016 a aplicação do Acordo, admitindo alguns responsáveis brasileiros que o mesmo terá que ser revisto. “O acordo está muito confuso. Acredito que tanto Portugal como o Brasil vão pedir para que ele seja revisto”, afirmou o senador Cyro Miranda.
E agora, como vão descalçar a bota os que tomaram a dianteira e que com a sua pressa induziram ou obrigaram a grandes investimentos que podem revelar--se desastrosos?

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.