Correio do Minho

Braga, terça-feira

Guatíri e a menina das pétalas

O conceito de Natal

Conta o Leitor

2016-07-22 às 06h00

Escritor

Cátia Lima

Chegou a casa e só ouviu silêncio, daqueles de solidão, estava um copo partido no Wall de entrada, quebrado pelo vento que entrava pela janela, e um cheiro a rosas que vinha lá de fora. Então, Guatíri espreitou seguindo o aroma e viu uma chuva de pétalas que vinha do andar de cima olhou para cima e viu uma linda criança vestida de anjo, e sorriu-lhe. A criança devolveu-lhe um sorriso enternecedor.

Guatíri perguntou-lhe porque estava a atirar pétalas, e ela respondeu muito rápido:
- Porque gostava que me chovessem pétalas em cima… Mas ninguém me faz a vontade! Então faço eu aos outros porque os meus pais me ensinaram que aquilo que se dá, se recebe em dobro, então eu vou receber o dobro das pétalas…
Guatíri riu-se e isto lhe alegrou o seu dia… Voltou para dentro da sua triste casa e pensou como gostava de um dia ter uma filha assim.

Tanto ficou a pensar nisto que, no dia seguinte subiu para o terraço do prédio, e começou a atirar imensas pétalas, olhou para baixo e lá estava ela a rir-se, Guatíri gritou:
- Desejo realizado! E foi-se embora. Isto lhe deu uma ideia, que quando tivesse uma filha lhe chamaria Rosa, em memória deste cheiro a rosas que a criança lhe levou pela casa a dentro, e sem pensar mais nisto pegou na sua estima bicicleta e foi para o parque ter com o seu melhor amigo.

Voltou para casa e o seu avô estava na lareira, a olhar para uma fotografia dele quando era um jovem como Guatíri e ele perguntou-lhe porque estava a olhar para a foto… Ele respondeu-lhe:
- Meu filho, já não caminho para novo sabes, mas um dia já fui um jovem como tu com sonhos por cumprir, desejos por realizar e tormentos da inexperiência…

Olha para mim hoje, um velho, um monte de rugas numa pele velha, um simples trapo a quem ninguém liga nenhuma nem áquilo que eu digo… Mas o que as pessoas não sabem é que cada ruga que tenho significa sabedoria e adorava partilhá-la com um jovem como tu. Um dia destes parto desta vida e não gostava de ir embora sem ensinar tudo aquilo que aprendi. Não falta muito para eu partir mas sinto-me um guerreiro por chegar ao fim da vida o que chamam de reta final.

Ninguém liga aos idosos são só mobília velha que querem ir deitar á sucata mas se parassem um minuto para pensar, queriam um dia chegar á minha idade e gostavam de ser gratificados por isso.
Guatíri foi para o seu quarto, emocionado a pensar no que o seu avô lhe tinha dito, e pôs-se a pensar que aquela menina era tão inocente e ingénua, pura e bela e ele embora um jovem de 24 anos já se sentia “tão velho” comparado com ela e como gostava de ser criança outra vez, e pensou então como se sentiria o avô com saudades de tudo, que viveu tanto e tanta coisa para hoje estar ali num sofá sem ver mais futuro… Então voltou á sala e sentou-se noutra cadeira ao lado e mostrou ao avô uma fotografia dele em criança e disse-lhe:

- Sabes avô, eu também gostava que me gratificassem pelo adulto em que me tornei e que as crianças me vissem como um exemplo e me pedissem conselhos. E então contou-lhe a história da menina das pétalas e como isso lhe mudou o dia triste e solitário, que se sentia muito só e gostava de ter atenção, ouvir as suas histórias e experiências mas como ele estava sempre tão carrancudo nem se aproximava… O avô percebeu a história e disse-lhe:

- Está bem, tens razão, a partir de hoje te irei demonstrar mais o meu carinho por ti, te irei chamar para me ouvires, e olha que tenho muitos anos e capítulos para contar, tenho muita sabedoria, mas só hoje percebi, que tenho que dar também para puder receber. Cada dia é um novo dia para aprendermos algo novo, pensamos que sabemos tudo mas nunca viveríamos tempo suficiente para isso. Apenas podemos melhorar a nossa sabedoria, paciência e partilha… Portanto, só quero que te tornes em alguém de mente aberta que acredite que tanto pode aprender com uma criança ou com uma pessoa como eu., na vez de pensares que não servimos de nada. Um dia que tenhas um filho irás perceber que lhe ensinarás muito mas também vais aprender coisas com ele.

Guatíri pegou numa pétala e deu ao avô, pegando-lhe na mão e dizendo:
- Guarda-a bem, pois sempre que olhares para ela pensa que por vezes aprendes coisas insignificantes, mas que significam muito e que uma pétala só não é nada, é aquilo que nós somos se não nos unirmos a mais pétalas, pois até poderemos voar com mais facilidade mas quando poisarmos, nos sentiremos sós, mesmo com o melhor cheiro do mundo.

Uns dias mais tarde, Guatíri voltou a ver a menina, no parque a brincar, que mal o viu acenou-lhe com um grande sorriso, Guatíri aproximou-se e perguntou-lhe:
- Qual é o teu nome? Ainda não me disseste, mas deve ser lindo como tu…
- É Rosa! Por isso que sempre quis uma chuva de pétalas!
Guatíri ficou de coração cheio e disse á menina, que desde que a conheceu e lhe atirou as pétalas pensou que um dia que tenha uma filha irá chamar-se Rosa.

A menina riu-se contente e foi a correr para casa. Passado pouco tempo voltou e trouxe uma rosa na mão:
- Toma, é uma rosa que eu colei com as pétalas que atiraste, reconstruí uma rosa e envernizei-a para não apodrecer e agora estou a dar-ta para guardares e um dia que tenhas a tua filha lhe mostrares e contares esta história e podes-lhe dizer que foi feita de uma Rosa para outra Rosa e que foi o melhor presente que deram a essa menina….
E foi embora correndo aos saltitões para casa.

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