Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Greves para que vos quero!...

Prémio Nobel da Medicina

Ideias

2017-11-19 às 06h00

Artur Coimbra

1. Não deixa de ser curioso atentar no surto de greves que nos últimos meses têm pautado a paisagem política e social portuguesa. Independentemente das razões que assistem aos grevistas, e que obviamente não se discutem, não deixa de ser motivo de interrogação a quantidade de manifestações, greves e paralisações em diversos sectores da economia nacional, do sector público, obviamente. Porque o privado fia fino…
Os juízes ainda ameaçaram, antes das eleições autárquicas, recorrer à greve, mas algum sobressalto de última hora levou à suspensão da luta. Não deixaria de ser curioso um órgão de soberania decretar greve. Hoje não estamos disponíveis para prender ninguém. Hoje recusamos mandar para a prisão o fulano que matou a sogra. Não posso deixar de estar de acordo com quem proclamou na altura ser absurdo o país em que os titulares de um órgão de soberania, o poder judicial, ameaçam paralisar a sua actividade, seja qual for o pretexto.
Depois, pararam os enfermeiros, pelas suas razões. E os polícias, pelas suas. Depois, por mais de uma vez, os médicos, porque também têm razões de queixa. Agora, os professores, lutando contra o descongelamento das carreiras, mal que afecta toda a função pública, como é meridianamente conhecido.
Todos os sectores dizem ter razões de queixa e todos os protestos se resumem, directa ou indirectamente, a dinheiro, o que é absolutamente legítimo. A mais dinheiro. A aumentos salariais. A reposicionamentos de carreiras. A descongelamentos e progressões nas carreiras profissionais.
Obviamente, todos têm razão, mas um pouco de reflexão não faria mal a ninguém. Todos queremos tudo de imediato. Mais dinheiro no bolso, reformas mais cedo, maiores garantias no emprego e nos sistemas de saúde e segurança social. Maior subsídio no desemprego.
Afinal de contas, concluímos, o país está melhor. Pelo menos, é a mensagem que os governantes vão vendendo. Está como há muito não estava, ultrapassada a malfadada tróica e os seus fiéis serventuários, que Deus haja. O desemprego está na taxa mais baixa da última década. O défice está controlado, nos seus níveis mais rasos dos últimos anos. O nível de vida sobe, o poder de compra cresce. O país está na moda, o turismo não pára de crescer, deixando divisas como nunca. A credibilidade internacional de Portugal está em alta e as taxas de juro pagas pelas emissões da dívida são disso claro testemunho.
Por isso, toca a reivindicar a todo o custo, como se não houvesse amanhã. Os sindicatos aproveitam a oportunidade para fazerem prova de vida. Que o diga Mário Nogueira, dirigente da FENPROF, que há muito não se via em lado algum e que se manteve em silêncio quando, nos anos de Passos e Portas, os professores eram despedidos e os seus ordenados cortados. Ressuscitou para reivindicar, quando as coisas melhoraram.
Também os partidos de esquerda, e sobretudo o PCP, derrotadíssimo nas autárquicas, voltou a apoiar a rua, porque as urnas demonstraram não ser o seu habitat nos dias que correm. Assim, não há como cavalgar o descontentamento profissional de algumas classes, no claro intuito de uma capitalização política. É a comodidade de estar com um pé no apoio ao governo e outro pé no apoio a quem contesta o governo…
Só que tudo tem o seu custo, como é bem evidente. E qualquer reivindicação contabiliza-se em milhões de euros, que haverá nos cofres públicos… ou não.
Apesar de todas as perspectivas optimistas e dos esforços hercúleos do melhor ministro das Finanças das últimas décadas, Mário Centeno, iniludivelmente, a dívida pública não cessa de aumentar, sinal de que muito há a fazer para equilibrar este barco colectivo em que nos encontramos.
Muito do que se passa e se ouve não passa de rútilo folclore, de argênteo aparato, para créditos e prebendas de sindicatos e de organizações políticas. O coração financeiro do país não estará tão farto como o governo apregoa, nem tão esquelético como a oposição faz crer. Contudo, claramente, não é possível acorrer a todas as reivindicações nem a todas as manifestações que desabaram nos últimos tempos… depois de um tenebroso silêncio sindical e político nos quatro anos de ditadura troiquiana, que tolheu o país e paralisou emocionalmente os portugueses.
Estaremos disponíveis para a vontade de regressar alegremente ao inferno de 2011?
Esperamos sinceramente que não!


2. Ninguém estaria à espera da revolução que está a acontecer em Angola, após a tomada de posse do presidente João Lourenço. Angola que foi nossa durante séculos e que ainda é nossa, de algum modo, pelos muitos milhares de portugueses que trabalham e dependem financeiramente do que por lá se passa.
As últimas notícias dão conta da queda política da família do anterior titular, José Eduardo dos Santos, que viveu durante décadas num conluio entre o Estado e a economia, ambos dominados pela mesma elite corrupta.
A exoneração de Isabel dos Santos da Sonangol, considerada a “galinha dos ovos de ouro” pelo novo homem forte do país, não parecia estar nas cogitações dos comentadores, apesar do esforço de recuperação que a filha do ex-Presidente terá empregado na empresa.
Também dois filhos de Eduardo dos Santos foram demitidos da televisão pública.
É claro que estamos em presença de uma luta pelo poder, com a substituição de dirigentes de empresas e instituições públicas conotados com o anterior titular por pessoas da confiança do novo Presidente da República.
O que significa que o poder não dura sempre, tal como qualquer mal. Quer o de Eduardo dos Santos, quer o de João Lourenço.
Que Angola consiga cumprir a sua missão de imenso país, em favor do seu povo, e dos que nela laboram, é o que se deseja profundamente, após um período em que, ao que se diz, poucos se apropriaram do que deveria ser de muitos, o que é sempre de condenar!
Em Angola, como em qualquer outro país!

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