Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Governar para a Europa

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2012-02-07 às 06h00

Jorge Cruz

“Os nossos governantes também têm de ter a noção que, depois de cortarem quatro feriados, impedirem que as pessoas tenham um dia por ano para manifestarem a sua alegria, a sua descontracção, é disparatado. Sinceramente, acho disparatado”.

A opinião, desassombrada e peremptória, não pertence a nenhum dirigente sindical nem sequer a qualquer político da oposição. Não, quem considera “um erro crasso” o Governo não conceder tolerância de ponto na terça-feira de Carnaval é o social-democrata e antigo conselheiro de Estado, António Capucho.

O também anterior presidente da Câmara Municipal de Cascais considera que esta decisão do Executivo acarretará “graves prejuízos para as economias locais” pois, conforme relevou, “quer o comércio, quer a restauração, quer outro tipo de actividade económica beneficiam destes eventos”.

Pelos vistos, este género de prejuízos parece não preocupar sobremaneira o Primeiro-ministro que aparentemente se mostra mais apoquentado com a imagem de bem comportado que o seu Governo pretende transmitir para o exterior do que propriamente com a realidade no interior do seu próprio país. “Ninguém perceberia” a tolerância no Carnaval quando, por outro lado, se pretende acabar com feriados, explicou na ocasião Passos Coelho.

Não contesto o raciocínio do Primeiro-ministro. Estritamente sob esse ponto de vista, parece-me inatacável. O problema é que a questão não será assim tão simples e linear.
De facto, o Governo não pode ignorar o que os festejos de Carnaval representam para as economias de inúmeros concelhos, em particular para aqueles que ano após ano fazem elevados investimentos para poderem apresentar programas atractivos e, em consequência, geradores de importantes receitas.

Mesmo sendo completamente insensível aos rombos que a sua deliberação provoca na actividade económica em diversos municípios, Passos Coelho e o seu Executivo não podem desconhecer que o tempo e o modo escolhidos não foram os mais acertados.

Sobra muito de irresponsabilidade quando se toma uma decisão deste alcance em vésperas do início dos festejos, numa altura em que para os diversos organizadores já não é viável qualquer recuo. Num momento em que os compromissos estão assumidos, quando os investimentos já foram feitos e os programas lançados.

A tão curta distância não é humanamente possível fazer parar uma máquina perfeitamente oleada, acostumada a funcionar em pleno, tantas vezes com a colaboração graciosa de voluntários que apenas querem ajudar à afirmação bairrista das suas terras. Faltou, portanto, o bom senso. Sobejou sobranceria e total desprezo pelo trabalho esforçado de muitas populações.

Mesmo persistindo nas manifestações de insensibilidade de vária ordem, como está a acontecer com a eliminação dos feriados, o Governo poderia - e deveria -, no caso da tolerância de Carnaval, ter anunciado o seu fim para o próximo ano. Seria a forma francamente mais decente de tratar uma questão controversa que, aliás, já tinha levado tratamento de polé em 1993, quando outro Primeiro-ministro do PSD, precisamente o actual Presidente da República, Cavaco Silva, teve um arrufo e decidiu ficar na história como o primeiro a acabar com a tolerância de ponto no Carnaval.

Ou seja, não aprenderam nada, nem mesmo com as asneiras dos outros.
E a verdade é que actuando desta forma Passos Coelho compra uma guerra perfeitamente desnecessária, sem quaisquer vantagens visíveis para a economia, e que em nada contribui para resolver os problemas do país.

Acredito que os ultraliberais exultem com medidas deste tipo, com o fim dos feriados, com a redução dos direitos dos trabalhadores e a diminuição dos seus salários, enfim, com o primado do privado sobre o público. Mas esse caminho não teve sucesso noutros pontos da geografia mundial e não creio que em Portugal, em pleno século XXI, venha a ser substantivamente diferente.

Como alertou recentemente Dilma Rousseff, no Fórum Social Temático de Porto Alegre, que se inseriu no processo do Fórum Social Mundial, “o modelo conservador que levou o nosso país à estagnação, à perda de espaço democrático e soberano, aprofundando a pobreza, o desemprego e a exclusão está hoje sendo proposto novamente para a Europa”.

Numa análise de grande lucidez, a presidente do Brasil considera que “grande parte do mundo desenvolvido” está a enfrentar a crise com “medidas fiscais regressivas”, que provocam consequências sociais e ambientais “nefastas”. É por essa razão que, segundo Dilma Rousseff, na maioria das nações latino-americanas está em curso um novo modelo de desenvolvimento que oferece respostas mais efectivas aos desequilíbrios internacionais.

“Nossos países hoje não sacrificam mais sua soberania frente às pressões de potências, grupos financeiros ou agências de classificação de riscos”, enfatizou a Presidente brasileira.
Este é um recado corajoso, claro e conciso da responsável máxima de um país que nos últimos anos tem demonstrado que o crescimento e a geração de emprego são perfeitamente conciliáveis. Pena é que a Europa se mostre completamente surda quando se trata de propostas alternativas ao modelo de desenvolvimento.

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