Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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Glória e horror

Comunidades de aprendizagem

Ideias

2018-02-03 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Trigueira, o guarda-redes do Setúbal: não teria ele ficado para a história, se o colega não se houvesse metido no caminho da bola? Tivesse Trigueira encadeado um terno de defesas, negando o golo ao Sporting, tivessem, eventualmente, os de Alvalade perdido o sentido da baliza, acabando derrotados: não viveria, este zé-gato, toda uma vida em função de três instantes flagrantes? Homem a milímetros da glória, herói a quem o destino armou maldosa desfeita.

Afrontosamente, determina o acaso por alguns. Por si mesmos, outros escolhem os pântanos em que se atolam. Saltitamos de absurdo em absurdo um programa que transforma o desafio educacional de família impotente em atractiva aberração de feira; uma investigação que coloca juízes no lado feio da sala de audiências; outro inquérito que desvenda adopções delineadas com relatórios assentes em inverdades, para dizer o mínimo... adorava ter veia cínica, para poder escarnecer sem freio, mas sou demasiado terra-a-terra, e só com impropérios de taverna me alivio deste mal-estar.

Não retiro consolo de pensar que não é nada comigo, e tampouco me tranquiliza a piedosa reflexão de que se é inocente até sentença transitada em julgado. Recupero, sem ampliar, ocasionais referências a coexistência contra-natura do luminoso com o sombrio, em serviçais do culto que em parafilias se consomem. Ajusto-lhe maquinações cintilantes de procuradores, de juízes e advogados, de assistentes sociais, predispostos a calcar animosamente a Lei.
Controlamos ou não as nossas pulsões, sendo certo que falhamos, frequentemente. Optamos por circular em contramão, quando nos julgamos aconchegados por carroçaria blindada, e pobre daquele que não se desvie. As faltas individuais não são fáceis de prevenir ou conter, e arredias são aquelas que resultam de conspiração assente em vantagem mútua e pacto de silêncios. Umas e outras se descobrem, episodicamente. E, tão tortas são, em certos casos, que quase caímos na tentação de desejar que nada, nunca, se tivesse sabido.

Pior me desfaço, no entanto, de um ridículo televisivo. Por que padrão cultural se guia um director de conteúdos para validar semelhante devassa da vida familiar? Com que atrevimento se colocam angústias educativas no papel de fútil entretenimento? Aceitaria ele ela? ver-se no lugar de recolector de conselhos de almanaque? Reparo que me encontro a um passo de preconizar um gabinete de censura prévia, uma comissão de bom gosto ou de bom senso, mas a auto-regulação moral prova ser tão fictícia, quanto a primita que pisca olhinho de marota à banca, à finança e negócios que tais. Entregue a si, tem o Homem o mau hábito de asneirar de cabeça levantada e mão na anca.

Quão amargo não é o contra-senso! Mais instruídos do que nunca, e cada vez mais boçais na esfera pública e na privada. A um pequeno clique da Cultura, e incomensuravelmente mais pornográficos nos entretenimentos. Não caberia, na grelha televisiva, um programa instrutivo sobre educação, sobre os ziguezagues das relações familiares? Sabemos tudo, e optamos por agir ao contrário. Não temos desculpa.

Enquanto partes de um colectivo, não há nada que não nos diga respeito. Pelo curso das coisas, louvamos uns, ostracizamos outros, favorecemos este, barramos a estrada àquele. Aplaudimos, quando uma cabeça rola, mas não mudamos de paradigma. E, atrás de uns, outros vêm. Como virgem púdica, agita-se cada corporação em favor dos seus, não vá o castelo de cartas cair.
E2: tiro no submarino. A propósito: e como andará esse enigma do Arpão e do Tridente? Virá à superfície, ou nem por isso?

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