Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Gente que não é gente

Amarelos há muitos...

Conta o Leitor

2014-08-09 às 06h00

Escritor

LYTOS

Odeio - e é um termo que procuro evitar utilizar em meu vocabulário por o achar forte demais - essa gente que não é gente que se aproveita tantas vezes da fraqueza dos outros para encher os bolsos de euros subtraídos a pessoas de bem, ao pai, á mãe aos irmãos e amigos, para lhes aumentar o pecúlio bancário que muitas das vezes não aconteceria se alguém fosse bater á sua porta em busca de mais uma dose para alimentar o sangue necessitado da maldita droga. E nem é preciso muito, por vezes com meia dúzia de euros o corpo deixa de estar amorfo e desfocado para num ápice estar de volta para a vida. Mesmo que seja uma vida vivida em prol dessa dose diária que tal como acontece para a pessoa normal, serve de alimento ao corpo que pede para não padecer para não entrar em colapso físico e mental. Odeio essa gentalha na figura do Estado, do pequeno e grande traficante dos parasitas normalmente na pele de doutores e senhores de clínicas de desintoxicação que esfregam as mãos de contentes por mais um cair nas teias. Roubos e mentiras, chantagens psicológicas para levar avante a sua vontade em conseguir mais uns euros para ir de encontro ao destino que essa gente lhes marcou. E riem-se, chamam-lhes drogaditos porque nem sapiência ou consciência conseguem ter para perceber que sem eles nem na rua podiam viver. Não quero ser de forma alguma o advogado do diabo nem tão pouco desculpabilizar o dependente, pois se alguns não têm escolha por serem limitados na sua... escolha pelo pensamento pobre e despedido de qualquer tipo de desculpa ou mesmo por todo um universo precário e promíscuo em que sempre viveu também os há que assim o quiseram por mais escolhas e conforto que tivessem. Normalmente fala-se que são marginais mas eu conheço-os senhores de canudo, doutores e engenheiros e conseguem camuflar esse vício por vezes uma vida inteira - acreditem que sei que é verdade - pessoas com capacidades mentais acima da média. Alguns dizem que andam entre o oito e o oitenta, ou seja, pode ser um arrumador de carros (sem rancor para aqueles que andam nessa... profissão para se vestirem ou alimentar) ou uma mente brilhante. Mas cada um merece a via da dúvida pois até nos primeiros há casos que tiveram sucesso para mostrar aos segundos que afinal podem não ter mais nada, mas tiveram por uma vez espírito mais forte e dignidade. Fraco aquele que teima em continuar a pisar o chão lamacento a bater á porta - quando fechada -pois muitas vezes encontra-se aberta para tornar mais fácil a entrada naquele mundo. Faz-me recordar há tempos, uma peça num jornal da cidade em que a reportagem era sobre um dos maiores supermercados da droga do sítio e em cuja fotografia que acompanhava o texto se conseguia ver pessoas a empunhar cartazes onde se podia ler “não há droga” (quando queriam escrever: não á droga). Essa mesma gente que depois dos repórteres abandonarem o local voltaram para as suas casas e retomaram o ritual. Chegam a fazer fila para esperar pela sua vez, pela vez da sua sentença que os leva á podridão física e psicológica, às tais clínicas, ou a uma consulta médica para lhe ser diagnosticada um qualquer tipo de hepatite ou pior, sida. Num e noutro caso tenho exemplos de pessoas amigas que um dia deixaram de andar bem vestidos e com carne nos ossos para num ápice os encontrar apenas com a pele e o osso pois a carne essa já desaparecera pelo consumo da droga ou por não alimentar convenientemente o corpo. Nem a alma, pois essa há muito tempo foi vendida ao diabo na imagem dessa gente. E como eles, passam a ostentar cabelo oleoso, roupas feitas em farrapos que não sabem o que é uma lavagem faz tempo.
Dói a alma ver a quantidade de notas amarrotadas atiradas ao acaso e a crescer mais e mais dentro dum saco ou duma gaveta. Conheço gente que andou anos e anos até cairem em si e verem que aquilo nem ao diabo interessava. E hoje é vê-los refeitos daquele farrapo humano que chegaram a ser um dia e conseguiram criar família, encontrar emprego e viver com dignidade. De fazer inveja aos doutores e engenheiros que teimavam em visitar essa gente que não chega a ser gente. Outros que depois de anos a fio sem qualquer tipo de consumo retomam o chão lamacento para voltarem a bater á porta de sempre - é que aquilo passa de geração para geração- e não adianta irem para a prisão pois volta e meia estão de volta para mal dos seus, e nossos pecados a sociedade que teima em fazer deles uma ilha mas não encontram soluções capazes de terminarem com este flagelo que continua a bater á porta de gente de bem. Odeio os governantes falarem em cortar aqui e ali, ou sobre subsídios que são o único sustento de famílias precárias, que tiveram o azar de não conseguir um emprego ou uma casa melhor, quando há muita gente a receber para além do dinheiro que lhes cai em mãos...
Há que ter discernimento necessário para saber separar as águas, separar o trigo do joio. Há aqueles que mesmo vivendo paredes meias com essa gente não tem vida marginal, antes conseguem enfrentar a realidade dignamente e apelidar de parasitas. Podem-se contar pelos dedos mas há esses casos, sim senhor. Por isso enquanto houver esta politica do deixa andar, as coisas vão permanecer assim. Enquanto não houver mão pesada das forças políticas eles vão continuar a rir da desgraça alheia e vai continuar a haver mais gente que não chega a ser gente. Basta pensar na Holanda que há muito liberalizou as drogas leves, colocando-as no mesmo patamar do álcool ou tabaco, e estão prestes a fazer algo sobre as duras para que deixe de existir a tal gente... E fico por aqui para não escrever coisas que até Hitler, Estaline ou outro ditador qualquer ficava corado, tal é a raiva que me vai na alma...
Em homenagem a um amigo que perdi nos braços de uma overdose.

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