Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Gaivotas e gabirus

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2017-09-29 às 06h00

José Manuel Cruz

É oficial: Braga está no eixo do paraíso. Servido de delícias, definha o bracarense pelo excesso de mordomias e prazeres cívicos - tudo bate certo com o seu peniquinho do céu! Braga é uma Jerusalém da felicidade terrena. Peregrinos nos visitam por segundos de beatitude, e rápido somem, que em dor insuportável se volve estranhíssima, mística alegria.

Em Braga, a bem dizer, não há sarilhos por resolver. Uma coisita aqui, outra ali, mas, no fundo, nem chegamos a experimentar agruras, já que sinal de si não dão, os problemas, senão depois de iniciada sua mágica e previdente correcção. - Sobressaltos? Apenas os que assolam os régulos, que sob a pendência vivem de dispensa horrorosa, por préstimos seus mais não serem requeridos. Pela conta de trabalho prestado se lhes creditam as horas nocturnas. Sono inquieto têm, os maestros da causa pública. Pesadelo sobre pesadelo: como resgatar o vilarejo aos pântanos da perfeição?
Por um terramoto anseiam, os afadigados conselheiros do burgomestre, enquanto salmodiam, com dolência gregoriana, um “Braga über alles”. Por uma calamidade tectónica rezam, que em dia de praia reduza a escombros um quarteirão inteiro, ou dois, sem vítimas mortais a lamentar.

Estabilidade geológica que bondoso anseio frusta.
O cataclismo de diferendo entre o Kim Jong-un, das freguesias unidas de baixo, e o Donald Trump da união das freguesias de cima? Engenhos pirotécnicos trocados entre trincheiras, morteiros de pólvora seca, canhonadas de confettis e estrelinhas. Batalha naval esponjosa em enseada de rio rasteiro. O armistício seria assinado, naturalmente sob os auspícios da mitra, assim que um punhado de praças e edifícios de risco obsoleto requeressem uma vintena de anos de trabalhos de aggiornamento, obras para um barroco vigoroso, à moda de um Raul Lino vagamente minhoto, com tiques doutorais.

Nada a corrigir, nem os lixos proliferam em tortuosa viela, em desfocado arrabalde, notório sendo, no entanto, que varredeiras e varredores, com telhudo sentido de classe, se afadigam em estratagemas para iludir a higiene urbana, conspurcando, com acto ignóbil, a reputação dos ungidos pelo sufrágio. Um efe-erre-a tímido, compungido, à oposição de canheiro e apanhadeira.
Oh! Mas como pela culatra lhes sai a bala sabotadora, como a maquinação na cara lhes arrebenta. Vindas dos lados do mar, demandando os venturosos remansos de rio lodoso, uma esquadrilha de gaivotas lixeiras assenta arraiais em perímetro augusto. Valetas passadas a pente fino, beatas, papéis e embalagens, recolhidas em voo picado, trocadas por pitéu podre aos balcões das juntas de freguesia, campanha herdeira da iniciativa honrosa das tampinhas: fishing for a snack - lema em planetário inglês, que o departamento central de propaganda não perde ensejo de golpe promocional.

Custa, na realidade, ver orgulhosa avezita, que voava-voava por alturas de 74, e todas as liberdades trazia, relegada a assalariada de varredura. Mas, lá está, tudo tem sua época e, por empenhada que seja gaivota guevarista, belo dia se apercebe de que vidinha há pela qual urge fazer.
Grevistas aparte, a todos a solução aproveita. Consta, inclusive, que experiências genéticas se desenvolvem, em laboratório secretíssimo, com uma super-gaivota no horizonte, bicharoco multifunções, com saídas dos transportes à educação, do planeamento aos serviços de assessoria. Pago a cabeças de chicharro, bem entendido. Entre o acredita e o não acredita, facto é que, mostrengo a mar avesso, proliferando vem nos céus da cidade.

A par da conspícua gaivota, de outro ser se fala, mais arredio, que obra vai desenvolvendo, também, em prol dos superiores interesses da edilidade: é o gabiru. Espécie aparentada ao gambozino. Nunca um vi, mas afiançam-me que existe, e que por espaços recatados se desloca, tomando de empréstimo incauto corpo aberto, tanto que criatura proba ainda ontem, numa espécie de lacrau se volve em dia imediato. Descrevem-mo em registo de quimera, como besta a modos que sanguessuga, mas da envergadura de um bufo real, capaz de assumir todas as formas, por desdobra simbiótica parasitária. De elevadíssima funcionalidade é a dita criatura, autómato financeiro, já que por distracções não se perde, por muitas que crie, e emoções, sentimentos maiores, não experimenta. Não tem estados de alma: sensível e empático se mostre, frio é, no fundo, cortante e de demoníaca eficácia, o estafermo. Eu, com as qualidades que lhe descrevem, para gabiru me ofereceria, em nome do bem comum: eu me sacrificasse, mas que a outrem arranjassem os meus padecimentos. Só não sei onde tomar a vez. Talvez numa empresa de trabalho temporário melhor me informe. Pela jorna de gaivota me presto: do raiar ao pôr-do-sol, por sardinha moída. Já afio o bico.

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