Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Futuro próximo da economia portuguesa depende (e muito) da política do BCE

Diplomas em tempo de 130.º aniversário

Ideias

2018-05-12 às 06h00

António Ferraz

Com a crise económica e financeira desde 2008, o Banco Central dos Estados Unidos (FED) e o Banco Central da Zona Euro (BCE) adoptaram políticas monetárias expansionistas mais ou menos intensas visando o relançamento económico e a criação de emprego. Para tal fim e quanto ao BCE, foram utilizados dois instrumentos monetários principais: (a) adopção de uma taxa de juro directora ou de referência do BCE (ou seja, da taxa de juro exigida pelo BCE nos seus empréstimos ao sistema bancário) muito baixa e mesmo próxima de 0%; (b) implantação de um programa de compra de dívida pública e de outros activos dos bancos, fenómeno conhecido pelos economistas como alívios monetários (“quantitative easing - QE”), presentemente a um ritmo de 30 mil milhões de euros em compras mensais e pelo menos até Setembro deste ano (mas podendo vir a ser prolongado no tempo em caso de necessidade). Em suma, o BCE ao injectar dinheiro a custo praticamente zero, tem tentado criar estímulos monetários favoráveis ao crescimento económico e a criação de emprego na Europa.
Ora, passados vários anos de aplicação dos alívios monetários, que, em grande medida, permitiram alavancar a economia europeia, fazendo regressar as taxas de crescimento anteriores mais elevadas e reduzindo significativamente o desemprego, podemos questionar sobre o porque do BCE ainda não ter tomado medidas monetárias (e nem se espera que venha a tomar no futuro próximo) de subida da sua taxa de juro directora ou de referência e de retirada (embora, faseada) do seu programa de compra de activos? Pensamos que fundamentalmente por três ordens de razão: (a) abrandamento do crescimento económico da Zona Euro no 1º trimestre de 2018, ficando em 2,5% face aos 2,8% homólogos (em comparação com o mesmo trimestre do ano anterior) e de uma variação em cadeia do PIB de 0,4%, menos do que os 0,7% face ao 4º trimestre do ano anterior. E, isso, acontece após vários trimestres de crescimento económico acima do previsto na Zona Euro; (b) não se ter verificado o retorno esperado de pressões inflacionistas dada a forte recuperação económica da Zona Euro (note-se que a inflação da Zona Euro se mantém bem abaixo da meta de inflação estabelecida de abaixo mas próximo de 2% a médio prazo); (c) não se ter registado aumentos salariais relevantes na Zona Euro. Sendo assim, não se concretizando tais condições, o BCE reluta quanto ao momento de subida da sua taxa de juro directora ou de referência, assim como, quanto a retirada dos seus estímulos monetários, no fundamental, por temer que uma eventual precocidade dessas medidas possa fazer regressar a instabilidade económica e financeira na Zona Euro. E quanto as possíveis justificativas para a contenção salarial na Europa? Uma delas terá a ver com a baixa produtividade da média da Zona Euro, consequência da grave crise económica e financeira desde 2008, a outra delas prender-se-á com o facto de apesar da descida do desemprego tradicional e ao mesmo tempo terem surgido cenários “inaceitáveis” numa democracia civilizada de subutilização do trabalho, em particular, os trabalhadores desencorajados (de longa duração), o trabalho a tempo parcial e a precariedade laboral involuntária. Aliás, recentemente o FMI afirmou que para os países com essas características, caso de Portugal, “é pouco provável que o crescimento dos salários acelere”, transformando-se num ciclo económico vicioso.
Concluímos então que não será de esperar grandes alterações da política monetária do BCE nos tempos mais próximos, mantendo-se a muito baixa taxa de juro do BCE e mantendo-se os alívios monetários, tudo isso, objectivando a consolidação da recuperação económica europeia. Esse cenário, será claramente benéfico para a economia portuguesa, nomeadamente quanto a sustentabilidade do seu crescimento económico e na sua adequada (não excessiva) redução do défice orçamental e da dívida pública. Quanto a redução da dívida pública, a governação portuguesa tem beneficiado, para além do crescimento económico vigente, do facto de ter vindo a utilizar estratégias baseadas, por um lado, na obtenção de recursos financeiros no quadro do programa de compra de activos do BCE à taxa de juro muito baixa (muitas vezes, via novas emissões de títulos da dívida pública) e, por outro, na utilização de muito desses recursos financeiros na amortização da dívida pública portuguesa face ao FMI, que normalmente exige taxas de juro bem mais elevadas do que as exigidas pelo BCE.

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