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Ideias

2015-12-24 às 06h00

José Manuel Cruz

Marine Le Pen não abarbatou nenhuma tranche de poder real nas últimas eleições regionais francesas. Não ganhou agora: ganhará um destes dias? Tia e sobrinha ficaram à bica, ali no cai-não-cai no gamelão do poder, elas mais do que os outros candidatos do estado-maior do partido da extrema-direita, mas outros, também, como Sophie Montel, que na Borgonha - Franche Comté perdeu por escassos dois pontos para a candidata socialista.
A Frente Nacional não ganhou a presidência de nenhuma região francesa, mas triplicou o número de eleitos, mas atingiu um escore recorde de seis milhões e oitocentos mil votos, a passar. E da primeira para a segunda volta ainda cresceu mais de dez por cento.

Ainda se lembram, em França, dos tempos em que a Frente Nacional era uma mera força de protesto, um partido a modos que caricatural. Não há quem não se interrogue, hoje, se a FN não será já um partido na antecâmara do Poder. Da direita à extrema-esquerda, mais as associações patronais ao barulho, todos combatem a FN. Lá se diz da FN - ou se sugere - tanto e tão mal como cá é (era?) costume dizer-se do PCP - do Bloco de Esquerda, hoje, por extensão. E muito mais, ainda! Xenófobo e racista, antijudaico e islamófobo, soberanista, contrário a Bruxelas e ao desenvolvimento do projecto europeu... Não haverá, em suma, praga que não possa sair do quartel-general dos frontistas, coisa para empestar a vida da França e da grande Europa para todo o sempre.

Defendamo-nos deles, que daquelas mãos só sairá a ruína económica e a instauração de um estado de situação próximo do que a Europa conheceu no advento do nacional-socialismo! Escumando dos lábios e faiscando dos olhos, Valls o avançou, na primeira linha de uma heróica resistência. E como se não bastasse a abjecção nazi, ei-la, bem a jeito, a assimilação ao terrorismo: a 13 de Novembro, a nação francesa tivera que se recompor dos horrores da DAESH; a 13 de Dezembro, soubera a nação francesa mostrar de novo o seu vigor, comparecendo nas urnas e barrando à FN o acesso ao Poder. Valls poderá ter as suas convicções como cidadão, como quadro do PS, mas a questão é que ele se implicou como primeiro-ministro. E não se compreende: se a FN é de tal forma lesiva da democracia, do estado de direito - por que não se interdita, por que não a isolam com um cordão sanitário, por que não a votam a uma quarentena eterna de lazareto?

E ó da guarda, que os eleitores da FN estão hipnotizados! Que as pobres almas foram vigarizadas! Que aos tristes não lhes puxa para a inteligência, que são tacanhos e incultos! Entendamo-nos: eu não tenho procuração da FN, nem ganho a metro por prosa que escreva. Reparo na FN, porque de pronto capto o absurdo dos argumentos socialistas. Cresce a FN em França, porque outra coisa não têm feito os dois grandes partidos da governação que dar com os burros na água.

Que a FN não têm política económica, diz-se, que a FN está eivada de irresponsabilidade voluntarista, que seria o caos no dia seguinte à sua chegada ao Poder! Esquece-se, Valls, de dizer que a Economia não brilha sob o radiante sol socialista, que o desemprego cresce vigoroso de há anos, que a autoridade do Estado roça o risível, que a Educação e a Formação Profissional estão a soro e agonizam na mesma enfermaria.

Palavras duras, talvez, mas não creiam que desconto uma bílis tortuosa sobre os políticos - sobre os de lá, porventura como sobre os de cá. Não se pense, também, que reproduzo chavões atirados à cara do Governo, de lá, por uma oposição invejosa e maledicente. Não, mais coisa menos coisa, limito-me a reproduzir palavras e sentimentos dos próprios vencedores. Que teriam registado a advertência, disseram, que teriam percebido a lição, que teriam compreendido que não poderiam continuar a defraudar os franceses. Em suma, que a França iria entrar em estaleiro e que a breve trecho tudo seria diferente. Só que os eleitores já conhecem a estorinha do cartão amarelo e, a cada vez que os governos dizem que vão emendar a mão, lá vem a cartolina mais e mais alaranjada na eleição seguinte.

Futurando, pois. A FN continuará a crescer, porque não está nas mãos de Valls ou Hollande, de Sarkozy ou de seus lugares-tenentes, uma inversão radical de políticas. A FN quer reinstaurar a soberania económica, quer escapar às constrições das directivas comuns, quer poder colocar em primeiro lugar os entes franceses - indivíduos e empresas. Porquê? Por que de outra forma está visto que não vai lá das pernas. Por virtuosa razão a Alemanha ter-se-á adaptado bem à economia global, o que não terá sido o caso da França. A culpa até pode não ser de Bruxelas, mas é das levas de políticos que por lá têm andado, certamente. Face a eles, a FN desliza sob manto virginal. Por agora tem uma cota de 30% do eleitorado. Mais 5% ou 7% que ganhe e caiem-lhe de bandeja os aliados de longa data dos “Les Republicans”, mais os 5% do partido de Nicolas Aignan de lambuja. E fica o caso arrumado.

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