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Futilidade Aberrativa Pomposa

Para um futuro melhor

Futilidade Aberrativa Pomposa

Escreve quem sabe

2020-09-20 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Se de doenças se fala, aqui vai outra, que a variação sempre distrai.
A Futilidade Aberrativa Pomposa – FAP – é uma síndrome que a seu tempo encontrará devido destaque nas selectas médicas. É couto de curiosos, por enquanto, que pelos dedos de mão amputada se contam os que a estudam, procurando estabelecer-lhe as fronteiras, os parâmetros de diagnóstico diferencial, os fármacos e os tratamentos que a previnam, os poses e os precipitados de curan- deiro que por ilusão recuperem quem dela se viu tomado.
Algo se sabe já, e exemplifico: a) que não sendo mortal, é letal, por quanto arruína, estraga, compromete, desespera; b) que o grosso dos efeitos perniciosos afecta mais os conviventes do que o portador; c) que é transmissível, ocorrendo a maioria das infecções de cariz insidioso em clubes partidários e sociedades secretas.

Acredito que o leitor comum fique esclarecido e/ou avisado com os aspectos que venho de referir. Entenda que não ameaço ou azaro, que não pretendo que abdique de nenhuma parte importante da sua vida, nem que miraculado se sinta por ileso ter vindo a escapar aos botes deste ente nocivo. Aproveito para aduzir que talvez tenha sido apanhado pelo verme, mas que esteja assintomático. É um calhar, como outro qualquer. De todo o modo, não é de esperar que acabe ligado a máquinas numa UCI, antes maltrapilho e rescendente a sabão rosa, na melhor das hipóteses, e esganado de cintura, de calças quase na mão, em furo picado de correia.

Se é evidente que uma parcela significativa das populações jamais será exposta ao agente patogénico – ou a ele se exponha voluntariamente –, por verdade não inferior resulta o facto de se ver guiada – a trupe poupada – por quem o tenha entranhado até ao tutano. É óbvio que a afecção possa variar do suave ao severo, que quanto maior seja o marcador da FAP, mais destrambelhadas e erráticas se revelem as posições assumidas e as directivas de Sua Excelência, para prejuízos que a prazo se descubram. Nenhum de tais homens ou mulheres queremos à cabeça, mas acontece de com eles alombarmos.
Descobrem-se os prejuízos, que é como quem diz, teoricamente, porque as contas de facto nunca são feitas. Na prática, a FAP dos senhores que se seguem enrola na FAP dos senhores substituídos, sem que alguma vez o cidadão ordinário veja encerrada a banca dos rebuçados.

Apuros que não se esmiúçam por força do quarto parâmetro da moléstia, que é o da tolerância generalizada ao distúrbio. Não há portador da FAP que a não negue em si, à lágrima, ao soluço, à revolta visceral contra a má língua. Pior, não há próximo nem acólito do visado que não se erice e não serre fileiras na protecção do seu enfapado, contra a mais que evidente presença do bacilo envenenante na mioleira dos detractores.
Gozando no geral de boa saúde, comendo bem, bebendo melhor, o enfapado típico tem-se na conta do oposto: dir-se-á profundo e sério, contra uma futilidade que lhe seja imputada, por genuíno e estreme, contra o desvio aberrante de que o acoimem, por sóbrio e discreto, quanto nos antípodas da pomposidade se veja. No fundo, sente-se um herói, um exemplo digno de cópia e louvor.

Não sei se os temos por cá, que ainda não opero com a grelha completa. Por agora, exploro a futilidade aberrativa pomposa de mexer nos horários de quem trabalha em Portos e Lisboas, isto depois de muito se ter falado que os transportes são seguros, mais a máscara, mais a distância…
Duas conclusões:
a) que trabalheira dá, não fazer nada;
b) por Braga, sabemos que o bicho não ataca à porta da Bosch e colocatárias.

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