Correio do Minho

Braga, terça-feira

Futebol - e não só

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2014-06-20 às 06h00

Margarida Proença

Confesso, logo de partida, o pouco, quase mesmo nada, que sei de futebol. Mais ainda que gosto bem mais de assistir a outros desportos, como o automóvel, a ginástica, a natação ou o atletismo. Mas claro nestas alturas de campeonato mundial acho que toda a gente fica envolvida, queira ou não, e acaba por par- ticipar no desporto nacional de dar explicações e palpites sobre a derrota da seleção portuguesa.
Nesse contexto, alguém me dizia que qualquer médico fisiologista poderia antever as lesões dos atletas portugueses durante o jogo Portugal-Alemanha. Explicavam-me então que adviriam de se estar a jogar num clima muito quente e com humidade elevada quando a preparação física não tinha sido feita nessas circunstâncias (a explicação que me foi dada foi muito mais rigorosa, está bem de ver…). E que por isso mesmo, a Alemanha tinha ido treinar para a Baía, que os ingleses chegaram a treinar com duas camisolas, etc. Parece que parte das culpas caberá á organização, que é como quem diz á gestão da coisa.
De acordo com dados da Cotec muito recentes, Portugal não está mal colocado em termos de inovação. De entre um conjunto de 52 países, incluindo a zona euro, os Peco como a Letónia, Estónia, Bulgária ou Malta por exemplo, e outros fora da Europa como a Austrália, o Canadá, os EUA, o Japão, Brasil, China, Rússia, Chile, Venezuela ou Colômbia, Portugal aparece classificado como um “inovador moderado”, na 29.ª posição, à frente da Espanha. O grupo é liderado pela Suíça, seguido pela Finlândia, Dinamarca, Suécia e Alemanha.
A cultura da inovação existe no nosso país, e é transversal aos diversos setores de atividade; o número de jovens que se vêm desdobrando em iniciativas, algumas de efetiva criatividade e qualidade é significativo. Por outro lado, o discurso das vantagens decorrentes do empreendedorismo e da inovação é hoje já indiscutível, desde políticos, a universidades e outros atores económicos. No entanto, Portugal continua a subutilizar as patentes para proteger as inovações, as empresas nacionais tendem a utilizar menos internet de banda larga do que as suas concorrentes europeias, há pouca colaboração entre empresas e um enorme olhar de viés entre os setores público e privado, de acordo com os indicadores da Cotec. Temos infraestruturas que proporcionam condições inovadoras, por exemplo em termos de ensino e novas tecnologias, ideias, isto é, recursos não faltam, mas depois falha-se bastante no impacto económico. O valor acrescentado da inovação é baixo. Diz a Cotec que somos um país de cigarras - desperdiçamos capacidades e potencialidades.
Poder-se-ia argumentar que é por causa da crise económica, porque a emigração crescente leva jovens muito qualificados ou retém-nos fora do mercado de trabalho, porque isto ou aquilo, até o clima, o árbitro até mesmo a hora dos jogos (como se duas equipas que se defrontam não jogassem nas mesmas condições...) e tudo será verdade; mas a verdade o problema não é conjuntural. A falta de adesão a um planeamento rigoroso ou á eficiência na utilização de meios disponíveis é cultural; chegados a um ponto de não retorno, descobrimos a solução, e isso parece-nos suficiente. Organização e gestão, pois é; aquela história de a Alemanha ter ido mais cedo cerca de uma semana para treinar de forma a habituar o organismo às condições em que decorreriam os jogos.
Ultrapassado o ponto de viragem da crise, o jogo agora é de certa forma mais sério - trata-se do futuro. Do ponto de vista estrutural, Portugal não tem grandes diferenças face á União Europeia; os fenómenos de desindustrialização e terciarização da economia são basicamente do mesmo tipo, ainda que pelas nossas bandas o comércio e o turismo sejam mais importantes, enquanto os serviços financeiros têm um maior destaque na chamada “Europa do Norte”.
No entanto, se olharmos para o que se passa na indústria, os setores tradicionais continuam a ser dominantes (ainda que por vezes com muito sucesso, como no caso do calçado), bem como as utilities como a eletricidade, o gás ou a água, que em 2008 representavam cerca de 14,7% do valor acrescentado bruto. O padrão de especialização mantem-se muito semelhante ao que foi - baixa intensidade tecnológica e baixas qualificações, numa linha de divergência com a indústria europeia. Olhando para a escala global, a indústria centrada em tecnologia e inovação representa apenas 2% em Portugal face aos 11% nos países desenvolvidos (dados de L.Reis, para 2012).
O certo, apesar de tudo, é que temos os tais recursos - pode evoluir-se para especializações de maior valor acrescentado, com modelos de negócio diferentes, maior integração nas cadeias de valor internacionais, mais emprego, melhor gestão, mais organização.
Aposto que ainda conseguimos ganhar os jogos que aí vêm.

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