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Frossos: o padre contra o governo

Como vai ser a proteção do consumidor europeu nos próximos anos

Ideias

2011-04-11 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

A situação política que se vive em Portugal, fruto da rejeição do IV Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC IV), tem originado um crescente confronto entre o partido que sustenta o Governo e os vários partidos da Oposição.
A situação de confronto político tem aumentado de tal forma, que a campanha eleitoral que se iniciará brevemente, ficará, creio, marcada por episódios de fanatismo político e partidário. E, nestas situações, há sempre aqueles que exageram nas suas atitudes e nos seus comentários, o que afecta sempre a saudável democracia portuguesa.

Ao longo das várias eleições que se realizaram em Portugal, existiram sempre episódios que ficaram marcados na memória das pessoas e que foram lembrados durante muitos anos. Por isso, vou recordar aqui um caso político que ocorreu na freguesia de Frossos (concelho de Braga), e esteve relacionado precisamente com eleições.
O caso passou-se em 1890, num dos anos mais célebres da nossa história.

Decorria o dia 19 de Janeiro de 1890, exactamente oito dias após o célebre “Ultimato Inglês” (lançado pela Inglaterra a Portugal no dia 11 de Janeiro de 1890), quando se realizaram eleições para a Junta da Paróquia de Frossos. No decorrer da votação, José Veloso, um habitante dessa freguesia, resolveu dar ordem de prisão ao pároco de Frossos. A razão apresentada por José Veloso é que o padre tinha apresentado na mesa eleitoral umas listas de candidatos para as eleições que aí decorriam, quando não o podia fazer.

Este acontecimento, que indignou muitos habitantes do concelho de Braga, foi narrado no jornal “Commercio do Minho”, de 25 de Janeiro de 1890, que se referia a esta situação, afirmando que “Esta captura foi arbitraria e ilegal, pois que alem de ser improvável o facto de haver o revd. abbade lançado as listas, o indivíduo que o prendeu nenhuma auctoridade tinha para isso”.

A questão que todos colocavam é que José Veloso nunca poderia dar ordem de prisão a ninguém, simplesmente porque não era nenhuma autoridade judicial. Aliás, a própria lei dizia que nenhum agente da autoridade poderia interferir num processo eleitoral, sem ser previamente convocado pelo presidente da respectiva mesa eleitoral. Ora, José Veloso, o homem que deu ordem de prisão ao pá-roco de Frossos, não era nem agente de autoridade, nem sequer estava mandatado pelo presidente da mesa eleitoral!

Os únicos agentes que poderiam dar ordem de prisão eram os elementos da polícia civil, ou então o regedor da freguesia. Mas, mesmo assim, teriam que ser requisitados pelo presidente da mesa eleitoral, que neste caso era Alberto de Magalhães.
Esta prisão teve contornos claramente políticos uma vez que, na véspera das eleições, várias pessoas tinham avisado o pároco de Frossos que seria preso, apesar de não existir motivos para tal! E estes receios generalizados vinham do facto do pároco de Frossos ser frontalmente contra o Governo e de não se coibir de criticá-lo publicamente sempre que assim considerava conveniente.

Claro que os agentes políticos de então andavam ansiosos para arranjarem pretextos e se vingarem do padre de Frossos. Basta vermos que no dia anterior às eleições, o Governador Civil de Braga, Jerónimo da Cunha Pimentel, que assumiu nesse mesmo dia 18 de Janeiro de 1890 estas funções decidiu, imediatamente, nomear António Veloso para regedor da freguesia de Frossos.

Esta nomeação causou muito espanto, uma vez que foi a única nomeação, em todo o distrito, que o Governador Civil de Braga efectuou para o cargo de regedor. Segundo o jornal acima mencionado, esta nomeação foi “puramente de occasião, porque este individuo tem de mudar a sua residência para essa cidade de Braga, e como tal não deveria ser nomeado regedor de Frossos por não poder habitar n’esta freguezia”.

Há ainda a acrescentar que António Veloso era, na altura, o principal inimigo do pároco de Frossos!
O padre de Frossos era uma pessoa determinada, que não hesitava em criticar ou denunciar situações que considerava serem injustas. Neste contexto, o referido padre tinha apresentado uma queixa na polícia, contra uns amigos do regedor, que dias antes tinham apedrejado e disparado tiros contra José Maria Ferreira da Silva, morador na freguesia de Real.

Por essa razão, logo que o padre chegou à prisão, surgiram um grupo de amigos do regedor António Veloso, a dizerem que se o pároco retirasse a queixa que tinha apresentado contra os amigos do regedor, este seria colocado imediatamente em liberdade. Segundo o jornal mencionado, “Por aqui se vê a justiça com que foi effectuada a prisão!”.

O sentido de justiça e de verdade defendido pelo padre de Frossos colidiu com aqueles que defendiam cegamente o Governo. E, nessa linha, encontrava-se o Governador Civil de Braga e o regedor de Frossos.
Agora, se associarmos a tudo isto, a situação política que se vivia em Portugal, como consequência do Ultimato Inglês, então imaginemos como seria tenso o ambiente político e social no nosso país!

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