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Fronteiras

Os liberais na Europa

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Ideias

2023-06-07 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

A violência não se embaraça, floresce ao invés, e a França parece prestar-se como um bom meio de cultura. Inquieto, saiu-se Macron com o vocábulo de «descivilização» e foi uma comoção. Cai-lhe a esquerda folclórica em cima, múltiplos são os “ós-da-guarda” por o conceito rescender a extrema-direita, aludindo-se sombrio Renaud Camus, e perdoe o leitor que a figura não me suscite detalhe.
Exemplo acabado de violência é por si só a reacção de uma esquerda que pouco mais visa que ocupar o espaço mediático, e nada me estranha a conclusão de que 65% das trocas comunicacionais sejam despertadas por ditos e acções de massa de contestatários que não representa além de 1,5% a população efectiva.
Pisa-se a próprios pés a esquerda que se derrama em indignação, que a Norbert Elias pode remontar uma genealogia do termo, empregando-o ele, corriam os anos 30, para caracterizar a ascensão do nazismo. Por contraste, diga-se que Elias merece ser lido, e comentado, e citado. Outro, porém, é o fito quem por este pretexto escolhe enterrar-se em Renaud Camus, a saber, o da diabolização ao direito e do avesso de Marine Le Pen e seu partido. Mas já lá irei.

Convoca Macron o conceito para pontuar um quotidiano afrontoso e podemos interrogar-nos se não o terá feito em resposta a um fait-divers de assalto e agressão de um sobrinho-neto da esposa, proprietário de chocolataria caída nos radares de delinquentes-casseurs durante uma manifestação em meados de Maio. E por norma assim fosse a Justiça francesa: não é que os energúmenos já foram julgados, e dois do trio condenados a prisão efectiva de doze e dezoito meses! Azar que ninguém os tenha avisado para não se meterem com o lojista errado!
Já contra Marine Le Pen não há quem não esteja avisado, mas não no sentido de ser deixada em paz, antes para lhe caírem em cima com quanto não se invente, à falha de falta real. Ora, segundo os puristas da cena política francesa, Le Pen será putinista, pior, estará desavergonhadamente ao serviço do demónio do kremlin.

Tese repetida vai para anos. Fartando-se, pede o RN um inquérito parlamentar. Estranhará o leitor que a comissão parlamentar tenha concluído o que corre entre intriguistas? Dizem que Le Pen faz eco das posições ignominiosas de um ditador, que é uma correia de transmissão do poder russo. E contradição vergonhosa não encontram, os grandiosos intelectuais do todos-contra-um, que Marine Le Pen, para financiar a penúltima eleição presidencial, tenha sido obrigada a contrair um empréstimo em banco russo. Empréstimo que nenhum banco francês ou europeu lhe acordou, mesmo sendo evidente que o saldaria, em virtude de ultrapassar claramente a fasquia dos 5%, sendo-lhe retornados, portanto, os encargos da campanha.

Com uns tabefes a um sobrinho por afinidade se comove o Presidente que atenção fugaz prestou ao assassinato do professor Paty, ao suicídio recentíssimo de Lindsay, mocita de 13 anos que pôs fim aos seus dias por não aguentar o bullying de colegas de escola. E todos o sabiam. E nenhum dos que sabiam se enfrentou com culpas próprias em hediondo funeral.
Diz, Carlos César, que o povo português não quer saber quem telefonou a quem e a que horas e o que disse ou deixou de dizer. Eu acho que o povo português quer saber essas coisas todas. Ele, e os da comissão parlamentar dele, é que prefere que nós não queiramos saber. Francês, ou português, o cidadão comum quer inequivocamente saber o que se passa, para puxar orelhas a um, para sacudir de vez outro, isto porque a vida está muito para lá da fronteira de sobrinhos que vendam chocolates.?

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