Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Frente Nacional

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2014-12-16 às 06h00

José Manuel Cruz

A generalidade dos portugueses não conhecerá Jacques Julliard, Marcel Gauchet ou Alain Minc, e menos ainda Geraldine Muhlmann, Eliette Abecassis ou Mazarine Pingeot, mas é tudo gente reputada em França. Por referência ao panorama sociopolítico português, para dar uma ideia da envergadura das três figuras masculinas, recorreria às personalidades de Eduardo Lourenço ou José Gil, a António Barreto ou a Adriano Moreira.

As individualidades francesas referidas, sobretudo as masculinas, são pensadores e ensaístas de esquerda, mais Gauchet e Julliard que Minc, e todos com títulos saídos no último mês. De Gauchet, em co-autoria, veio a público uma obra que ressoa a Lenin, um “Que Faire” - homonímia perfeita dum emblemático “Chto Delat” de 1901, e com ecos ainda mais longínquos, remetendo para Nicolai Tchernichevski e para o século XIX. De Julliard recebemos um “La gauche et le peuple”. Também Minc reflecte sobe o mal-estar francês, numa obra de título mais extenso e que me dispenso de reproduzir.

Participam estes três pensadores, mais as três professoras agregadas de filosofia, num debate em torno das seguintes questões: será a esquerda francesa a mais estúpida do Mundo; ter-se-á a esquerda dissolvido no capitalismo; ter-se-á o povo de esquerda passado definitivamente para a Frente Nacional? Do debate mais não quero reportar que a tranquilidade com que se falou do partido de extrema-direita.

Há 10 anos, a menor alusão ao partido dos Le Pen seria acompanhada de interjeições depreciativas, e quem dele adepto se confessasse olhado de soslaio. Os sectores mais benevolentes da opinião pública veriam a Frente Nacional como uma provocação de mau gosto, algo que melhor seria que se ignorasse, na esperança de que mais facilmente tomasse fim. Os sectores mais reactivos da sociedade política, ao invés, viam a FN como uma aberração fascista, digna da máxima reprovação, senão mesmo de interdição legal.

Contra todas as expectativas a FN não sucumbiu nem definhou. Bem pelo contrário, conquistou simpatizantes, moderou o discurso sem abandonar a acutilância das questões levantadas. A tal ponto progrediu que não há quem não se interrogue se não solidificará a sua expressão nas duas rondas eleitorais de 2015, isto porque das últimas para cá não passa um dia em que o PS francês não se diminua aos olhos da opinião pública, descrédito que a UMP falha em contabilizar para si.

Um quarto do eleitorado e em crescimento: como, senão por força da adesão das massas populares, de camadas historicamente associadas ao voto de esquerda?! Mantém a FN uma matriz neofascista? Poderá ocorrer em França, com a FN, algo de similar ao que sucedeu na Alemanha dos anos 30, com a promoção no partido nacional-socialista? Não há cabeça bem pensante que não ache a especulação abusiva, mas, em todo o caso...

Multiplicam-se no mundo ocidental as denúncias do expansionismo russo. Reflectem os mesmos cultores de opinião sobre a estranhíssima proximidade entre soviéticos saudosistas e extremistas de direita, fantasia-se uma abominação totalitária de tão grotesco consórcio. Minc, em tom sussurrante de salão, sustenta que a adesão às teses da FN é inversamente proporcional à extensão da formação académica.

Como o saberá Minc? Expressão duma transparência inaudita, terá a FN ficheiros disponíveis numa plataforma electrónica? Será só um dizer de Minc, uma mentirinha depreciadora do adversário? Será para transmitir uma ideia a potenciais aderentes da FN? - Olhem, não vão por aí, que isso é só para tacanhos e iletrados?
E quando as pessoas menos letradas votam nos partidos de esquerda? E quando as pessoas menos letradas insistem em não compreender como são manipuladas pelos partidos ditos de esquerda comodamente instalados no poder?

Tanto como em França uma parcela significativa do eleitorado possa transitar para a extrema-direita, e em Espanha possa rodar para uma nova esquerda em torno da figura carismática do “Podemos”, daí só extraímos o cansaço e o profundo desejo de mudança dos cidadãos. Tirando a alfinetada deselegante de Minc, as críticas foram mesmo todas assacadas à estupidez e à ineficácia de quem tem assegurado o exercício do poder nas últimas dezenas de anos.

Ainda se ensaiou a tese de que seria o socialismo ou social-democracia ocidentais que estariam doentes, ao que aí, certeiramente, Minc contrapôs que esse não seria mal que estivesse a afectar a Alemanha ou os países do norte, sendo que os referentes políticos e económicos são os mesmos em todo o continente europeu. Em suma, e tanto quanto eu posso julgar, embora não tivesse representante ou defensor, a Frente Nacional foi o sujeito paralelo do debate. Nenhuma crítica substancial ou repúdio lhe foi endereçado. No fundo, foi tratada como um partido legítimo do Poder. Premonição colectiva?

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