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Frente e verso

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Frente e verso

Ideias

2019-02-17 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Há quem Putin chame à explicação extensiva de entorses e desgraças e há quem o mesmo faça, invocando o profaníssimo nome de Trump em vão. Vale a refiguração pelo descrédito em que vem incorrendo o demónio. Embarca quem quer na velha mecânica do bode expiatório e do passa-culpas. Eu, confesso, deixei de prestar atenção à Venezuela, corria o Natal de 2017, por alturas do pernil de porco, aquele que os portugueses teriam falhado de entregar, segundo o honestíssimo Maduro. Ai de nós, se assacássemos a russos ou noruegueses as mínguas de bacalhau por vésperas da Consoada. Importa, quem paga, e exporta, quem recebeu. Outras percebi serem as regras dos despenseiros de tradição bolivariana. Registei, como bom antropologista, e saí de jogo.
Defeito meu, mas desengraço com quem responsabiliza terceiros por erros próprios. Há quanto tempo anda a democratíssima Venezuela à deriva? E a culpa é os yankees, dos sanguessugas dos hidrocarbonetos? Não é simplismo a mais? Custa-me que a Venezuela seja apresentada como mártir, como virgem esquerdina, ingénua e bamboleante, que se nega aos lúbricos caprichos dos vampiros petrolinos da direita internacional.
Não se fazem omeletes sem ovos, diz-se. Mas, ovos tendo, há quem não se mostre capaz de bater uma gemada. E volto ao mesmo: por culpa exclusiva do tio Sam? Não têm, os venezuelanos, a quem vender o petróleo com vantagem acrescida? Aos chineses, por exemplo? Ou, os capitalistas são maus, e os comunas piores? Nem com tripla totoboleira os caribenhos lá vão? É obra!
Permitam-me uma escapatória. Quem ignora o histórico bloqueio a Cuba? Embargo contra o qual até a ONU se insurgiu, repetidamente. Quem ignora a quarentena imposta ao Irão, decretada por sua sanitária americana excelência? E poderíamos anexar as tropelias anglo-americanas da década de cinquenta, posteriores à nacionalização dos petróleos persas, levada a efeito por Mossadegh. Isto é, eu sei que vós sabeis, que todos nós sabemos, que o imperialismo é o que é, que só não depreda os recursos alheios quem não pode, e que os fracos são sempre espoliados, e que, já agora, a Venezuela é presa apetecível. Vítima, porém, e de mãos atadas?
Mau passo, seguido de mau passo, chegam os estados a vias que nem para trás nem para diante. Quão caricatural nos poderá parecer um País com dois mil generais, um Governo com um general encarregue do abastecimento de papel higiénico, outro do feijão, outro de especialidade terceira de mercearia, estudada exaustivamente na academia militar? A Venezuela não tem ponta por onde se lhe pegue, a Venezuela é uma espécie de ilusão de óptica, de imagem reversível, em que uns vêem a mulher velha, outros a nova. Guaidó usurpa? E imaculada é a legitimidade de Maduro?
Por defeito, alinha a UE com Guaidó. Secunda-o, na reclamação de eleições livres, escrutináveis e validáveis internacionalmente. Podemos perguntar-nos se tal não prefigura certa forma de ingerência, e a resposta é afirmativa, mas não é seguro que os venezuelanos consigam dar conta do recado sozinhos. Podemos perguntar-nos, também, se muitos dos humanistas interesseiros de hoje não estão filados no ouro negro. E não há como controlar os rapaces, sem prejuízo dos interesses na Nação venezuelana? Pois bem, do alto do meu diletantismo, despacho uma comissão ad hoc de gente proba, presidida por um norueguês, por habituado estar a ser rico, secretariada por um palestino, por afeito estar à pobreza, e por um neozelandês, por viver desafogadamente com o que Deus provê. E ficam mais baratos que os generais.

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