Correio do Minho

Braga, quarta-feira

França: E agora

Cancro do Pulmão – de que morrem os portugueses

Ideias

2015-11-26 às 06h00

José Manuel Cruz

Corre o França - Alemanha de forma pastosa, bola na lateral à entrada do meio terreno alemão, Evra atrasa para o seu meio-terreno... Em fundo, claramente, uma primeira explosão. Registo-a com surpresa, uma vez que em lado algum se dá conta do menor indício de coreografia de claques, de hooligans apetrechados de tochas ou petardos zelosamente dissimulados até ao momento da deflagração.

O pior vem depois, menos nas imediações do Stade de France do que no segundo cordão do coração urbano de Paris, nos distritos décimo e décimo primeiro. Um rasto de sangue entre a Rua Bichat e a Rua de Charonne, para apóteose macabra no Bataclan, nome que conhecemos por peripécias risíveis saídas da pena de Jorge Amado, com coronéis, dândis e coquetes, na vila costeira de Ilhéus.

Um morticínio que ultrapassa as cento e vinte pessoas, e umas boas dezenas com prognóstico reservado. Homens que se apeiam de automóveis e descarregam carregadores de pistola-metralhadora sobre explandas pejadas de clientes numa sexta à noite - friday bloody friday - e avançam de estação em estação, de calvário em calvário, até irromperem ébrios de fúria assassina por uma sala de espectáculos onde decorre um concerto de hard rock.

Oferenda de sangue a um deus menor, que só um primitivo deus de pacotilha se permite servidores saídos directamente duma obscura idade da pedra. Allahu akbar, senha equivalente ao abre-te sésamo de um distante Aladino. E para que ninguém ficasse com a triste sensação de morrer em vão, lá se explicavam os defensores da boa fé, que não estavam ali para outra coisa senão para vingar os irmãos abatidos na Síria.

O avião russo saído de Charm el Cheik directamente para o inferno, o ataque ao reduto do Hezbollah em Beirute, a mortandade de Paris. Face à dimensão da actual, quase que caímos na asneira de esquecer as perpetradas no mês de Janeiro: de um para dez, a escala! De um para quantos - amanhã, no mês que vem, num destes dias... E não adianta bater três vezes na madeira, cruzar dedos, ou repetir clássico esconjuro: “para longe vá o agouro!” Desenganemo-nos, todos - o mau-olhado não irá para longe, está bem instalado, tem carta de residência. Os atentados de ontem, parte deles aconteceram a escassos trezentos metros da antiga sede do Charlie Hebdo. Por graça macabra, pensaríamos que terão clube nas vizinhanças, porta aberta em grande segredo a quem diga as palavras mágicas.

De Janeiro para cá já tinha havido mais umas coisinhas - um tal de Ghlam, mocito de pouco mais que vinte anos, estudante, que rondava uma igreja de Villejuive, e outros planos que se lhe descobriram no computador, tendo como objectivo um comboio; o comboio, pois, um Thalys de alta-velocidade no trajecto Amesterdão-Paris, em que embarcara um certo El Khazzani, rapaz também na sua vintena de anos, de Kalashnikov e carregadores em abundância; um trio de indivíduos animados de planos para atacar uma unidade de segundo plano da marinha no Roussillon...

Permitam-me que não continue com a enumeração. Não obstante tratar-se de operações goradas, uma náusea revolve-me o espírito, pois cada uma delas bem poderia ter desembocado em desfecho próximo do que hoje temos em memória presente. A internacional terrorista está aí e de boa saúde. Apanha-se um ou outro, mas é como a história do tráfico de drogas, isto é, não são os cem que se capturam que impedem o centésimo primeiro de fazer misérias. Haverá droga nas ruas, por muito que se aperte o controlo, tal como haverá armas de assalto e explosivos à disposição do primeiro idealista de mente distorcida.

Que poderá fazer a França: fechar mesquitas? Tornar a vida insuportável aos muçulmanos, na esperança de que iniciem um êxodo depurador? Ascenderão a um décimo da população, os franceses de origem magrebina, ou muçulmana, grosso modo. Não são precisos mais do que quatro ou cinco, dez ou vinte, para desencadearem operações que mantenham todo um país nas fronteiras da paranóia. E quando do lado dos cruzados, dos cães infiéis, acontecer o inverso, que um par de parceiros descarrile de todo, desatando a disparar sobre quem traje à muçulmana ou se faça passear de barbas à salafita? Por que razão é que um cenário destes haveria de ser improvável?

Tão longe como quinta-feira, acompanhava eu pessoa idosa nas ruas pedonais de Puteaux, vindo em sentido contrário mulher à muçulmana, empurrando cadeira de rodas ocupada por pessoa igualmente idosa. No passas-tu, passo-eu, ouvi-a dizer à pessoa a quem ela prestava assistência, que a cultura dela não era a francesa, que ela tinha a nacionalidade (cidadania?), mas a cultura dela era muçulmana, argelina. Enfim, também haverá franco-portugueses que se reverão mais como lusos do que como francos, mas a esse nível não se percepciona uma oposição excludente.

Sei, por outra, que há originários do Magreb que se revêem inteiramente nos padrões de vida europeus, franceses. Ah! Mas há uma infinidade de indivíduos que pensam e agem como a senhora com a qual me cruzei, pessoas que, no fundo, não estão confortáveis de nenhum dos lados da barricada, pessoas de identidade mitigada, no seio das quais prospera viçosamente a simpatia jihadista.

A França sabe que esta tragédia tem tendência para se repetir. Entrevistado como alguém próximo drama, Patrick Pelloux, médico das urgências e antigo colaborador do Charlie Hebdo, comentava que na própria manhã de sexta-feira a Pitié Salpêtrière tinha desencadeado um exercício de prontidão hospitalar para situação de multiatentado terrorista. Há um ódio larvar que grassa dos dois lados, e não são as palavras tímidas, bem-intencionadas, politicamente correctas, de ministros e de líderes da comunidade muçulmana que sanearão o mal-estar.

Nos títulos que passam em loop referem-se as condolências apresentadas por Hassan Rohani, presidente do Irão. Poderia dizer-se que procurariam solidariedade, eles próprios, feridos na véspera pelo atentado em Beirute, feridos de há muito pelas operações sangrentas perpetradas contra os crentes e movimentos xiitas. Havendo velhas contas sangrentas entre o Irão e a Arábia, há do lado do Irão, também, uma especial predilecção pela França.

Poderá ter-me escapado, mas não dei fé de que alguém do lado da Arábia ou das monarquias afins do Golfo se tivessem demarcado do massacre. Por muito menos deram-se em tempos os EUA ao incómodo de colocar Chavez e a Venezuela na lista odiosa dos apoiantes do terrorismo.
O que se passa em França não conhecerá fim enquanto não rolarem cabeças em Riade ou arredores.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

12 Dezembro 2018

Reciclar com civismo

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.