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Fossos e Muralhas

A Biblioteca Escolar – Um contributo fundamental para ler o mundo

Ideias

2015-09-06 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Tenho do muro de Berlim uma imagem pessoal. Evito o plural e uma alusão exaustiva às minhas vivências por simples razão: subjacente a cada impressão distinta que pudesse invocar estaria sempre a mesma entidade factual e simbólica.

Não tenho do muro de Berlim, por outro lado, uma opinião pessoal. Seria hoje, aliás, uma perda de tempo que nos encarniçássemos na semântica das coisas. A ninguém interessa já se o muro era o resguardo da desejada tranquilidade e pureza socialista, ou se era a imagem visível de um gulag inabarcável, de um constritor hediondo de vontades. Aprisionaria? Defenderia, tal como numa reserva se protegem os espécimes sensíveis das incursões funestas dos amantes da caça grossa, coleccionadores insaciáveis de troféus? Quão mais fácil não é lamentar a morte gratuita de um garboso leão, às mãos delirantes de um dentista, do que fazer a contabilidade dos méritos e vícios de sistemas sociais!

O muro de Berlim seria uma curiosidade arrumada no passado não fosse o caso das suas sementes brotarem ao Deus dará. Nos dias que correm, não é a Hungria que deste modo procura eximir-se aos incómodos que lhe sobrevenham da Sérvia? Não se apresta a idêntica operação a Ucrânia, contando anular a porosidade entre o seu território e uma Rússia ameaçante? Que grelha de valores aplicaremos às novas cortinas de ferro? De que lado estarão os bons? Talvez nos fiquemos tranquilamente pela associação imediata: os bons são os nossos amigos! Poderia lá ser doutro modo!

Na etapa actual de edificação de paredes de concreto e arame farpado tomam a Ucrânia e a Hungria o testemunho de construções análogas levantadas do chão entre a Grécia e a Turquia, os EUA e o México, na Cisjordania, em Ceuta e Mellila. E talvez nada nos choque. Pois não deverá a Espanha acautelar-se dos aventureiros que a demandam do outro lado do Mediterrâneo? Ou Israel defender-se de terroristas execráveis? Ou a mirífica América proteger-se de traficantes e violadores, como avisadamente Donald Trump se reporta aos Xicanos?

Reconfortados com a convicção de que os muros de hoje são bons e abençoados, pelo quanto acautelam o mundo civilizado de turbas anárquicas ou de conquistadores fora de época, resta-nos deplorar que se edifiquem novas barreiras sobre os escombros ainda fumegantes do muro que durante dezenas de anos ensombrou a Europa Central. Era voz corrente, recordo, que não vivíamos em paz - porque existia o Muro! Que jamais atingiríamos um estado de venturosa felicidade - enquanto existisse o Muro! O Muro rasgava Berlim, e o resto do planeta com a capital do Reich. O demónio obreiro de tamanha maldade era bem conhecido. Eva sucumbira à ladainha hipnotizante da Serpe, e quanto a isso nada havia que pudéssemos fazer. O paraiso inicial já não o recuperaríamos, mas o paraíso dos homens, esse, sem dúvida, estaria bem ao nosso alcance, a tanto bastando que não fraquejássemos diante do disforme monstro vermelho.

Contudo, no mundo desarticulado em que não podemos tomar tranquilamente um avião ou comboio expresso, em que não nos é dado corar indolentemente à borda de água ou desfrutar de um museu, perguntamo-nos, então, de que cor é o demónio que nos furta as delícias do sossego. Levando mais longe a coragem, talvez devêssemos perguntar-nos por que malefícios se arruínam cidades e se condenam a errâncias bíblicas nações inteiras, aspirações mínimas de vida tornadas calvários inenarráveis, com mortes ignóbeis por afogamento ou asfixia como baliza. Não há de o ciclope ser o de outrora, ou, a ser, talvez por esses tempos tivéssemos falhado redondamente o seu reconhecimento. Dê por onde der, fica a sensação de que as instâncias internacionais têm laborado mal e em vão. Ou, no limite, são tão redondas, tão infladas, tão enfatuadas de auto-suficiência, que no fundo não servem para nada, salvo coquetéis e conferências inconsequentes.

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