Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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Foi por isto

Marcelo e André Ventura

Foi por isto

Escreve quem sabe

2020-04-21 às 06h00

Ricardo Moura Ricardo Moura

Há um instinto animal neste regresso a casa. A porta abriu-se em 1997 e com ela o rasgo da pena. Um miúdo com borbulha na palavra que cedo colocou estrada no papel. Foram nove meses onde o texto foi parindo. Dores, algumas, à custa do sorriso que tardou em surgir. Um parto que não viu o embrião crescer porque a vida é feita de escolhas. E disto, haveria muito para contar. Um dia, talvez por entre o nevoeiro da manhã, possa destapar a brandura da falta do cheiro da redação do Parque de Exposições. Havia ali um grito mudo. Um entrar sem palavra que tinha, a espaços, o génio do artigo que desaparecia no título, o verbo colocado no presente, o vocábulo certo para um contar sem contexto que arrebitasse o leitor. Foram noites de espanto. Duras. Estendidas como se estende o orvalho.

O homem que geria a redação é o mesmo que hoje assina o editorial. Pelo meio, estão mais de 20 anos. O branco do cabelo – hoje misturado como se afaga o que se perdeu – une-nos. Mas há mais. Houve mais. Foi a palavra. Nada menos do que ela. Porque a palavra, colocada na estante certa, faz acontecer. Não obriga à ilusão. Não empurra o interesse. Basta colocá-la e este basta não é fácil, acreditem. Há aqui tempo. Muito. Uma solidão que morde. Depois aparece a inocência do novo desafio. A arte de fazer. O querer dizer. O acreditar que nos oiçam. Nos sussurrem que fazemos, pelo menos, o esperado. Pelo meio, continua o tempo. Tantas vezes agridoce. Outras tantas de deslumbre. É neste meio que cosemos os dias. Uns que puxam pelo melhor de nós. Outros que veem o pior do humano. Filtrar envolve erro. Um doer não sara com o nosso querer. Oxalá fosse assim. Haveria, por certo, mais pôr do sol. Um bater com a porta nos momentos que sabemos que não contam, mas que, cobardemente, silenciamos.

Quando voltei a pisar, ao de leve, o novo ninho deste jornal, olhei para os rostos da arte de construir frases e sorri. Vi uma geometria que me fez sentido. O espaço foi tão largo aos meus olhos. Houve um rio de leitura que me comoveu. Nesse instante, invoquei o saudoso Pinto Soares e o irrequieto Rui Feio. Bebi neles o calo do fim de tarde. Aquele que faz a ponte para a noite. Aquele que nos faz desassossegar para fechar o jornal. Observei o silêncio do Rui Serapicos. O mesmo, caricaturado, dos lanches onde foi erguido o agora Altice Forum Braga. Lembrei-me da rebeldia do Pedro Rocha. Um colega de letras que lamento, mas lamento tanto, não ter sido, por mais tempo, um parceiro de viagens. A rabiscos, os olhos foram parar, a meio da noite, no caminhar gráfico do Rui Palmeira. O homem, em esfinge, no qual sentia os passos do nervo da noite. À vista desarmada, vi o José Paulo Silva.

O companheiro com quem troquei, se tanto, meia dúzia de palavras. O mesmo com quem, em agosto do ano passado, caminhei sob o abraço do castelo de Montalegre, a pretexto de uma reportagem da terra que viu nascer Bento da Cruz, nome que irei, a seu tempo, referenciar e que será bengala para muito que aqui partilhar. Digam-me se estou certo ou não. Há nisto ou não, um verter de sangue que nos sobressalta? Poderia aqui chamar o querer amar uma terra que me deu mais do que recebi. Senti-o quando Maradona, no relvado mexicano de Azteca, tocou no olimpo. Foi em 29 de junho de 1986. O dia em que Braga me recebeu. O bafo desse fim de tarde levou-me, dias sem conta, a ver os treinos de Humberto Coelho. Ia de Maximinos até ao 1.o de Maio como se vai em procissão. Subia o granito e imaginava o meu pé esquerdo a levantar a Juventude Bracarense. Ela recebia o sol. O lastro que viu, entre tantos, o israelita Eli Ohana salvar o “braguinha”.

Vergo-me a nomes que me fizeram levitar: Barradas, Jorge Gomes, Spencer, Abreu, Toni, Moroni, Santos, Saucedo, Vinícius, Zinho e aquele que me fazia levantar, com outro espevitar, todas as manhãs: Laureta. Por ele, era filho de tantos para entrar no meu estádio. Fosse pela bancada do Sol, fosse pela bancada oposta. Tudo nele era força. Um pé esquerdo que corria a asa esquerda do campo. Toda. Sem pedir apoio. Gritava. Um gritar com autoridade. Pegava na bola e comia-a no sentido da baliza. Um defesa esquerdo que nunca mais vi no Braga. Tudo nele era vitória em tempos de fome. O meu Braga sempre se safou. E com ele, o meu sorriso que abria o Verão. Foi por isto, e por tanto que aqui hoje não cabe, que voltei.

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