Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Firmina da Glória Von-Krauss

O Estado da União

Conta o Leitor

2016-07-24 às 06h00

Escritor

ISA PONTES

Firmina da Glória Von-Krauss abriu uma nesga da janela da sala e espreitou lá para fora.
A fila já era grande, era segunda-feira, pois… estava tudo dito.
Logo pela manhã foram chegando mulheres, apenas mulheres que, esperando a sua vez, iam tagarelando contando casos.

- Severina você já sabe do Leutério? Não! É… largou da mulher e fugiste com uma rameira do Bairro Operário! Áka! A vida tá mejo uma desgraça… a pobre da Maria anda aí a pedir a outras donas, roupa para lavar. O que lhe vale é ela ter água no quintal…
- Mana que me diz dessa moda que anda aí… uma máquina que faz malha, toda só! A gente mete linha e sai malha já pronta! Inté nem dá grande trabalho. Na Baixa, no Quintas e Irmão vendem às prestações. Eh!!..Éh !... Descurpa mas não passa na frente, a gente já tá aqui desde cedinho viu?!
- Filomena você foste ontem na novena da Igreja do Carmo? Áka! Inté que aquele padre está cada vez por outra mais bangoso!

- Diz-me lá, porque vens tu aqui à Dona Firmina? Podes contar… eu guardo segredo. Jura mesmo!...
- Xiiii! Mana! Minha vida tá a andar para trás. Vou-te contar mesmo, não é segredo, desta vez. O meu miúdo, o Severino apareceu com uma cor amarela, não come, só quer estar na esteira ao sol… Tarvez Dona Firmina veja, nas cartas, o sucedido…

E as conversas iam passando de boca em boca e, assim, parecia o tempo encurtar.
Perto a Igreja dos Capuchinhos para onde, àquela hora, entravam fieis para a missa diária.
Quase ao lado, a casa de Firmina da Glória Von-Krauss
Os capuchinhos, envoltos nos seus hábitos castanhos e sandálias gastas, olhavam com piedade para a casa de Dona Firmina... A mulher viera para ali em 49, trazendo uma filha, lindíssima, loira de olhos verdes. Alojara-se naquela casa que, na altura, era um casebre mas com o tempo ela foi melhorando; pusera-lhe janelas e porta de madeira; pintou-as de azul e, até, construiu à frente um pequeno canteiro de flores; atrás, no quintal, crescia uma mangueira e alguns mamoeiros; sob estes, viam-se laranjeiras e pitangueiras. Viera de Portugal, como tantos, da cidade do Porto. Diziam que era uma dama lá. Tinha chofer para a conduzir onde ela necessitasse e a menina loira só ia para a escola acompanhada do dito chofer. Em 1943 a guerra estava no auge e os nazis andavam pela Europa, correndo cidades, na busca de braços especializados para o esforço da guerra. Foi fácil encontrarem Von-Krauss, engenheiro químico.
Quando bateram à porta do prédio na Rua das Flores, - local chique. Em tempos idos chamada Rua de Santa Catarina das Flores por ter sido ali o terreno das hortas e flores de um antigo Bispo -, Dona Firmina da Glória Von- Krauss levou a mão à boca calando o grito que lhe saia de todo o corpo. Minutos depois via o seu marido ser levado para todo o sempre, bem como o seu pequeno filho. É alemão senhora, tem de nos acompanhar também, disseram os oficiais fardados.
Firmina teve de retirar a menina do colégio particular e, passado tempos, lavava escadas para poder comprar comida. Um dia falaram-lhe que, em Angola, procuravam costureiras. Aventurou-se, mesmo sem saber nada de costura.

Foi quando, ao chegar à Colónia, levando a sua filhinha pela mão, lhe indicaram a Igreja de S. Paulo, conhecida por Igreja dos Capuchinhos. Foi lá pedir-lhes ajuda, por misericórdia. Eles, pobres também, pouco lhe puderam oferecer e indicaram-lhe aquele casebre ali perto, abandonado. Desde essa altura a Firmina morava lá. Com o passar dos anos, lavando roupa para as senhoras do centro da cidade, foi descobrindo que possuía certas habilidades intuitivas… Daí a enfeitar a pequena sala de entrada com cores garridas, onde se destacava uma mesa redonda no centro, foi um “ ver-que-te havias “. Foi passando palavra na vizinhança que, através das cartas, adivinhava o futuro e fornecia receitas para vários problemas. Firmina da Glória Von-Krauss passou a ter uma vida desafogada ali, mesmo em frente da Igreja de S.Paulo de Luanda. Sua filha já era uma mulher bela, inteligente, loiríssima e casara.

Quando os fiéis saiam da Igreja persignavam-se, rapidamente, olhando de lado para a fila de mulheres frente à casa de Firmina. Ela, por detrás das cortinas ria-se.

- Desconjuro! Beatas! Que sabem vocês da vida?? As mulheres que deixam a minha casa vão mais felizes que vocês ao sair daí! Por muito azar que encontre na vida delas, nunca lhes digo; troco tudo; sempre acabo as consultas com uma mensagem de esperança. Na segunda-feira passada, a Crisália veio reclamar que o marido a tinha espancado e eu disse-lhe - Pois amor, ele bebeu vinho a mais, eu quando deitei as cartas ele estava sóbrio!...

Hoje iria, de novo, semear sonhos naquelas cabeças famintas de coisas boas, positivas, alegres. A troco de alguns angolares e até de algum peixe seco ou um kilozito de fuba, faria crescer a esperança naqueles corpos. Arranjara forma de amarfanhar as suas dores socorrendo outros necessitados da vida.

Firmina da Rosa Von-Krauss afastou as madeixas brancas que lhe tapavam os olhos verdes e pintou os lábios de um vermelho vivo, da cor das unhas, a condizer com os cortinados das janelas. Era imperioso sentir-se vida ali dentro. Tudo vermelho!
- Olá! Quem é a primeira?...

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

31 Agosto 2018

Ingratidão

30 Agosto 2018

Humanum Amare Est

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.