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Filomena

Uma viagem de comboio à Polónia (pelos caminhos da União de Direito)

Filomena

Escreve quem sabe

2021-10-15 às 06h00

Ricardo Moura Ricardo Moura

Há mais de 20 anos que uma mulher me inquieta. Não a conheço. Nunca lhe toquei. Vejo-a pontualmente na televisão. Leio-a, por vezes, nos jornais. O que me prende a esta mulher é o olhar morto. Há nele o gelo do deserto. O vácuo das manhãs. Um fedor que amputa o viver.
Este ser que me crava a mente é Filomena Teixeira. É mãe de Rui Pedro, criança de Lousada desaparecida desde 4 de março de 1998. Basta rebobinar uns anos para ver a evolução do rosto desta mulher que recusar desistir. Tem dentro dela uma bomba relógio que ninguém compreende porque ainda não rebentou. Só uma mulher de alma excelsa pode continuar a fazer estrada com a ravina pela frente.
O que vale a palavra acreditar? Seguir em frente quando a rouquidão da noite esmaga o peito. Como se consegue compreender as dificuldades que todos nós invocamos quando vemos e sentimos este nada? Filomena acarta uma medalha onde está escrito: “A esperança nunca morre”. Questiono-me em que fio de sangue está a luz que abre a porta a este louco querer. Alimento amargo que solta demónios, caricatura rostos. Um vómito à esperança que confronta com a dança da ilusão. São assim os dias de fel de Filomena.

Esta reflexão surge na semana em que entra nas salas de cinema o filme “Sombra”, inspirado em histórias reais de crianças portuguesas desaparecidas, em particular esta que estou a narrar. Quase um quarto de século depois, esta segunda longa-metragem do realizador português Bruno Gascon volta a dar holofote à fúria da impotência. Uma película abraçada com entusiasmo no Festival de Cinema Barcelona - Sant Jordi, onde recebeu o prémio de melhor obra, atribuído pela Associação Catalã de Críticos, e o galardão Filme-História destinado ao “melhor filme pelos seus valores históricos”. O projeto, adiado por culpa do impacto da covid-19, desfila agora na sétima arte com o apoio da Associação Portuguesa de Crianças Desaparecidas.
Ironia no mesmo dia ser publicado o novo livro de Gonçalo Amaral – “Maddie: Basta de Mentiras”. O então coordenador operacional das investigações ao desaparecimento de Madeleine McCann, promete, em definitivo, ajudar “a perceber por que razão, 14 anos depois, ainda não sabemos a verdade” sobre o que aconteceu, na Praia da Luz, a 3 de maio de 2007. Quer queiramos quer não, este caso – com impacto nunca antes visto – acelerou a atenção para outros similares. Rui Pedro retornou à agenda. A agulha voltou a ter fio. Todavia, o buraco tinha sumido.

Resgatar este nó de garganta coloca o dedo no buraco da ferida. Filomena, nem que a voz doa, irá sempre lembrar a Polícia Judiciária impreparada que existia em Portugal no final do século passado. Sem meios, os homens não só falharam na avaliação como foram levianos no que ouviam. Ao não acionarem o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) permitiu que a luz verde, que brilhava nas fronteiras, deixasse escapar o predador. Quando acordaram, foi tarde. Um despertar que teve um preço alto, espetado no coração desta estoica mãe. Agir rápido é meio caminho para agarrar. Não foi feito. As pistas foram diluindo. Pelo meio, algumas que iluminaram o rosto de Filomena. A mais forte, a fotografia onde Rui Pedro surge na Disneyland de Paris. A inércia e a indecisão deitaram tudo por terra. O nome Afonso Dias é mais um episódio inglório que não estancou a dor.
Filomena sonha acordada. Não precisa da noite para embarcar na nuvem. Toca no menino. Dá- lhe colo. Afaga-o. Em casa, acende uma vela. Todos os dias. A música, essa, ficou fora da porta para sempre. Madrugada dentro, o mesmo sonho. O dormir é quebrado. Os ansiolíticos já não fazem efeito. Nem sentido. Quer que os olhos toquem no que perdeu. O respirar é o mesmo de ambos.

Para esta mãe, a vida é uma tômbola. Um circo sem palmas. A voz está tricotada. É trémula como a humidade do medo. Pinga palavras. Unem-se em arame. A guelra acentuou-se.
A dúvida rói até matar. Tira o chão a quem ama. Só na Europa, desaparece uma criança a cada dois minutos. Em Portugal, no ano passado e com todo o contexto pandémico, houve mais de 1.100 crianças desaparecidas. A vida passa. O relógio não trava. Apesar deste cruel nada saber, não há nada que mirre o ventre daquelas que deram à luz. Hoje, bastava um fio de toque para voltarem a nascer.

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