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Saúde escolar: parceiro imprescindível das escolas de hoje

Ideias Políticas

2015-01-27 às 06h00

Pedro Sousa

As grandes mudanças têm, normalmente, um “click” que as despoletam. Espero e desejo, com muita força, que o resultado das Legislativas Gregas do passado Domingo sejam esse “click”, esse despertar, essa alvorada, esse nascer de novo, rumo a uma Europa que tem urgentemente de se reencontrar com o seu ideário fundador.

A grande verdade é que nos últimos anos, sobretudo na última década, a Europa perdeu o rumo, a Europa, o Projecto Europeu, deixaram-se sequestrar por interesses burocratas, deixaram-se capturar por uma visão monetarista da sua identidade e da sua governação e, assim, quase sem darem por isso, deixaram à sua sorte, cada vez mais fracos e indigentes, os seus valores, os seus princípios e a sua razão de ser.

Aqui, é imperioso parar para fazer um exercício de memória, para recordar como e porquê nasceu o Projecto Europeu, quais os seus valores, qual a sua identidade, qual a sua matriz essencial.

Fazendo-o, recordaremos com certeza que o Projecto Europeu, a actual União Europeia, que ao longo de várias décadas passou por diferentes estágios de evolução, foi na sua génese, na pureza das suas ideias fundadoras, um projecto de paz para um Continente que havia sido devastado por duas Guerras Mundiais, foi, também, um projecto de prosperidade partilhada onde os Países que mais tinham contribuíam com mais para que os que menos tinham pudessem prosseguir níveis de desenvolvimento social e humano que nos orgulhassem a todos e foi, para além disso, um projecto de social acrescento, na medida em que preconizava um projecto de direitos sociais de acesso à educação, à saúde e à segurança social públicas capaz de garantir que a Europa seria composta por países e sociedades onde a igualdade de oportunidades não fosse, apenas, um balofo verbo de encher.

Infelizmente, muitas destas ideias, muitos destes valores, muitos destes princípios, foram-se perdendo pelo caminho e muitos de nós não reparamos que quando permitimos que o BCE emprestasse dinheiro aos Bancos Comerciais dos Países da Zona Euro com taxas de Juro 0% ou 0,5%, para estes, posteriormente, emprestarem esse mesmo dinheiro aos cidadãos cobrando taxas de 3% ou de 4% estávamos ajudar a destruir o Projecto Europeu, que quando permitimos que o BCE emprestasse dinheiro aos Bancos Comerciais dos Países da Zona Euro a taxa de juro 0 ou quase zero e os países que necessitaram de assistência financeira no Pós-Crise mundial de 2008/2009 tivessem de pagar 3%, 3,5% ou 4% estávamos a esfaquear o Projecto Europeu, que de cada vez que permitimos que a Saúde e a Educação alienem um bocadinho que seja da seu carácter público e universalista estamos a matar o Projecto Europeu.

A Europa está doente. A Europa corre o risco de morrer. Sim, os Pojectos Políticos também morrem. Morrem quando, na sua acção, deixam de traduzir o seu ideário fundador, o que, na verdade, é o mesmo que desistir.

É nesta encruzilhada que a Europa se encontra. Neste cruzamento há, apenas, duas soluções. Ir em frente, manter o rumo recente e ver esfumar-se uma das maiores e mais incríveis construções políticas da humanidade ou mudar de rumo, “rasgar” de vez com o discurso liberal e impossibilista das regras, dos tratados, das obrigações para com os credores (esquecendo as obrigações com os pensionistas, os trabalhadores, os estudantes, os doentes...), reencontrar-se consigo própria, com os seus valores, com a sua tradição e com a sua prática que nos anos setenta e oitenta tão bons resultados trouxeram à nossa vetusta e querida Europa.

O facto do vento da Esperança vir da Grécia, o aluno errático, o preguiçoso, o indisciplinado do Sul, segundo os ditames reinantes que hoje lideram a União Europeia, torna tudo isto ainda mais poético. As últimas semanas foram sintomáticas do medo que os burocratas e liberais que capturaram a União Europeia tinham destas eleições. Eles bramiram ameaças, encostaram os Gregos à parede, falaram da saída do Euro, tudo no sentido de forçar uma solução conservadora, uma solução que mantivesse tudo tal e qual estava.

Os gregos responderam alto e bom som. Sem deixar dúvidas. Querem a Europa, querem a Europa dos valores, da solidariedade, a Europa de Delors. Eu também quero.

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