Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Feliz coincidência

O que nos distingue

Ideias

2013-06-07 às 06h00

Carlos Alberto Pereira

Na sua última edição, o semanário Expresso publicou a primeira de quatro revistas especiais sobre ‘os 100 portugueses que moldaram o século XX’, esta lista foi elaborada pelo historiador Rui Ramos e pelo jornalista e ex-diretor do Expresso Henrique Monteiro.
Ainda no Corpo Nacional de Escutas se ouviam ecos das cerimónias comemorativas do 90.º aniversário da sua fundação, realizadas em Braga no fim de semana de 25 e 26 de maio e em Lisboa, no dia 27, respetivamente o Conselho Nacional Plenário, a Celebração Eucarística de Ação de Graças e o lançamento de um livro, quando deu à estampa a referida edição do Expresso.
Feliz coincidência, porque de entre as 100 personalidades a quem Rui Ramos e Henrique Monteiro reconheceram mérito na ação que desenvolveram, por forma a serem consideradas marcantes nos destinos do Portugal do século XX, figura o nome do Arcebispo Primaz de Braga, D. Manuel Vieira de Matos, o fundador do Corpo Nacional de Escutas - Escutismo Católico Português.
D. Manuel Vieira de Matos era Bispo da Guarda quando foi implantada a República, tendo sido cercado pela polícia e pela Carbonária, durante 13 dias. A oposição ao novo regime, sobretudo por causa da Lei de Separação do Estado e da Igreja, de 20 de abril de 1911, publicada no Diário do Governo n.º 92, de 21 de Abril, valeu-lhe várias prisões.
Na verdade, esta tendência fez--se sentir, bem antes da publicação da lei, pois “logo a 8 de outubro de 1910, ainda a República nascia, o ministro da Justiça, Afonso Costa, repõe em vigor as leis de Pombal contra os jesuítas, bem como as de Joaquim António de Aguiar (também conhecido como o Mata-Frades) quanto às ordens religiosas (1834). Também são então arrolados os bens e propriedades da Igreja e incorporados no Estado”1 .
Tanto na diocese da Guarda como na arquidiocese de Braga este Arcebispo foi um verdadeiro reformador da estrutura organizacional e de governança das suas dioceses, foi também um paladino da educação tendo efetuado uma profunda reforma nos Seminários cujos frutos foram bem visíveis, permitindo aos seminaristas e jovens sacerdotes uma nova e melhor preparação para o exercício das suas missões.
Este homem de ação tinha uma visão, diria que atual mas antes do tempo, sobre a importância da comunicação social no mundo, pois apostou no desenvolvimento da imprensa católica, tendo mesmo criado vários jornais.
Na dinâmica das pessoas e com as pessoas, lançou vários grupos e associações, contornando, desta forma, o articulado da Lei da Separação do Estado e da Igreja, mais conhecida por ser uma lei para aniquilar a Igreja Católica. Afonso Costa preconizava que, com esta lei, no espaço de duas ou três gerações o Catolicismo estaria irradiado completamente do País, sendo secundado por outras figuras republicanas, como Magalhães Lima.
Apesar de toda esta obra, o Expresso considera que a principal marca deixada, no século XX, por este Arcebispo reformador, foi a fundação do Corpo Nacional de Escutas - Escutismo Católico Português.
Não sabemos se este Pastor tinha consciência do que viria a ser o desenvolvimento da sua obra, sabemos que acreditava nela e que nela investiu muito das suas energias e nela empenhou os seus melhores colaboradores, por isso as palavras de Baden-Powell são apropriadas: “ a maior parte dos que temos andado a lançar a semente não estaremos aqui, tendo em conta a natureza das coisas, para assistir à colheita; mas bem nos podemos sentir agradecidos, e em boa vontade rejubilantes, por a nossa seara já se encontrar tão adiantada...” in O Chefe Escuta, número de Abril de 1940.
Com este reconhecimento o Expresso veio confirmar que a “colheita” da obra deste Arcebispo visionário tem sido de qualidade. A visão de dignidade que D. Manuel Vieira de Matos nos legou, nesta sua obra, ilustra bem o conselho deixado por Baden-Powell no seu livro O Caminho do Triunfo “o respeito, e não o amor, de si próprio gera o respeito dos outros”.

1 Separação da Igreja e do Estado em Portugal (I República). In Infopédia. Porto: Porto Editora, 2003-2011

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