Correio do Minho

Braga,

Feliz Aniversário!

Amigos não são amiguinhos

Conta o Leitor

2015-08-25 às 06h00

Escritor

Susana Miranda

Nasci no dia 11, no pico do verão... Eram quase dez horas da noite, quando a minha mãe, por entre dores e gemidos, deu à luz o seu segundo filho. Após o nascimento, as prendinhas e lembranças dividiram-se entre a minha mãe e eu. Nestas alturas, toda a família anseia por conhecer o recém- nascido, parabenizar a corajosa mãe e o orgulhoso pai. Este foi o meu primeiro dia de “Natal”, o dia em que nasci e todos correram para me adorar.

Sem dúvida que o primeiro aniversário é marcante, não para nós que nunca nos lembramos de como foi, mas para os pais, tios, padrinhos, avós, que antecipam o momento da festa, planeiam a confeção de bolos, bolinhos e mais uma porção enorme de comida, que acaba sempre por ser demais. Pelas poucas fotografias que vi e pelo que a minha mãe me contou, a minha festa de aniversário foi feliz... Com uma mesa cheia, um bolo com enfeites azuis, champanhe e balões a decorar as paredes da sala. A minha família estava lá toda e, fechando os olhos, parece que consigo ouvir ainda hoje as suas conversas e as gargalhadas únicas.

Prendas! Esta é a palavra que marca as festas de aniversário, desde a infância até à idade adolescente. Só pensamos em pedir aquilo que tanto desejamos e não conseguimos comprar, esquecendo, muitas vezes, de dar valor àquele beijo da mãe ou ao abraço apertado do pai. Mas, a vida é assim mesmo, existem fases para tudo... e a infância é a fase dos sonhos!
Quando completei 6 anos de idade, lembro-me que recebi a minha primeira bicicleta. Durante alguns dias, o meu irmão ensinou-me a manter o equilíbrio no parque da cidade. Claro que, mesmo com a fiel ajuda dele, houve dias em que cheguei a casa com os joelhos esfolados! Todas essas marcas fizeram parte do meu crescimento...

A adolescência passou e a melhor forma de festejar o meu nascimento era quase sempre em restaurantes baratos com os amigos de escola e um grande bolo no fim! Eram momentos únicos de convívio, conversas, brincadeiras e brindes à mistura. Começou aqui a minha emancipação, altura em que as festas em família eram demasiado “infantis” para um rapaz que estava a entrar na vida adulta! Depois do jantar, havia sempre lugar a uma dança numa das discotecas mais badaladas ou uma conversa animada num dos bares da moda.

Aos 21 anos conheci a mulher da minha vida, com quem comemorei 48 aniversários. Foram anos felizes, em que soubemos os dois contornar as dificuldades financeiras, de saúde e familiares com mestria e sabedoria. Recordo que, quando completei 45 anos de idade, pedi um desejo antes de soprar as velas... Dirigi-me a uma agência de viagens, comprei uma viagem para nós os dois... E uns dias depois estávamos a contemplar a vista maravilhosa da cidade de Paris, no cimo da Torre Eiffel. Obviamente que foi uma surpresa para a minha esposa, mas também uma compensação para ambos por todas as contrariedades da vida. Existe um momento da nossa existência, em que temos mais prazer em oferecer e oferecer-nos prendas, do que esperar que os outros “adivinhem” os nossos desejos mais secretos. Nada me deu maior gozo do que oferecer-me aquele fim-de-semana memorável, com tudo aquilo que eu achava que tinha direito! Sim, porque se antes era demasiado jovem para apreciar algumas coisas da vida, aquela foi a altura ideal... Dali a uns anos, já seria demasiado velho para aquele tipo de “aventuras”.

Nessa noite, jantámos no terraço do restaurante “Les Ombres”, onde desfrutamos de uma autêntica refeição francesa com três pratos e uma vista panorâmica da cidade e da icónica Torre. No quarto do hotel esperava-nos uma garrafa de champanhe francês, morangos, um banho de imersão e uma cama apetecível para uma noite de amor... Ou não estivéssemos nós na cidade mítica do romance e dos amantes!

Enquanto vi os meus dois filhos crescerem, tornarem-se adultos, homens de negócios e de família, festejávamos sempre o dia do nascimento de cada um de nós. Eram sempre jantares muito agradáveis e prolongados, em que tentávamos sempre esquecer os problemas durante aquelas horas de confraternização. Sentado à mesa, recordava sempre com saudade os meus pais e orgulhava-me por ter conseguido tornar-me um homem feliz, como eles tanto queriam. Realizei alguns dos desejos das pessoas que mais amei na vida e que ali se reuniam...

Tudo o que é bom deixa saudade e, por isso, hoje recordo algumas destas passagens com um sorriso nos lábios.
Agora, os meus dois filhos moram em Lisboa, trabalham ambos em duas multinacionais e deram- me três netos maravilhosos. Descobri que afinal a nossa capacidade de amar não tem fim! Os meus dias passam-se num lar com companheiros da minha geração e que partilham comigo as mesmas dores... Hoje posso dizer que a vida é como um círculo, dá voltas e voltas sem cessar...

Acabei de dar uma volta completa e contei-vos partes da minha história. Hoje é dia de “Natal”... é dia 11 de Agosto e completo 85 anos de vida! Falta-me a presença física da minha esposa, que mora eternamente no meu coração, e o calor dos abraços dos meus filhos... Descobri que afinal este dia pode ser doloroso, porque um dia chegou a ser tão bom...
Porém, é dia de festa e, como tal, Feliz Aniversário!!

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