Correio do Minho

Braga, terça-feira

Fazer cultura, elevar a qualidade de vida

Pilaretes pra que vos quero

Ideias Políticas

2013-04-30 às 06h00

Carlos Almeida

Também porque estamos em Abril e amanhã faz-se Maio, fa-lar de cultura é falar de uma das grandes conquistas da Revolução.
A cultura será, provavelmente, a dimensão mais incongruente no plano da gestão pública.
Se, de um lado, existe o reconhecimento generalizado do seu papel enquanto factor de desenvolvimento humano, do outro assiste-se confortavelmente à sua depredação em favorecimento de muitas outras áreas de primazia, no mínimo, duvidosa.

Braga, infelizmente, é um caso desses. Como é possível que um concelho com mais de 180 mil habitantes invista, por ano, apenas duzentos mil euros em cultura? Duzentos mil euros representam 0,23% da despesa do Município! É pouco mais de 1€ por cidadão gastos em cultura!
Para além disso, ao longo dos tempos estabeleceu-se a ideia de que uma boa política cultural dependia fundamentalmente da capacidade e qualidade das casas de espectáculos. Sem querer renegar o papel, também ele importante, das infra-estruturas culturais, torna-se hoje por demais evidente que estas não são condição suficiente para o sucesso das políticas culturais.

Veja-se o caso paradigmático do Theatro Circo em Braga. Um espaço de excelência, recheado de conforto, instalado numa localidade com potencialidades enormes no quadro de uma vasta região. No entanto o Theatro Circo, sete anos depois da sua reabertura e de um investimento desmesurado, continua entregue à gestão rotineira, sem rasgo, sem capacidade para atrair sequer os cidadãos da sua própria cidade. O Theatro Circo não conseguiu ainda impor a sua marca e afirmar-se na região, cativando públicos de diferentes quadrantes, tornando-se uma casa de espectáculos de referência.

Esta constatação leva-me mais longe, de encontro a uma lógica cultural assente na participação dos cidadãos. E o que se espera com essa participação é que os cidadãos não sejam apenas espectadores que, mais ou menos frequentemente, assistem a determinada performance ou consomem um qualquer produto. Mas sejam, acima de tudo, parte envolvida. Ou seja, uma acertada política cultural, para além de se mostrar empenhada na requalificação ou criação de espaços físicos, deve também orientar medidas que promovam a criação e fruição cultural, assim como a partilha de conhecimento e experiências.

Uma das formas mais evidentes de caminharmos nesse sentido passa pela aproximação ao movimento associativo cultural. O envolvimento da comunidade em determinado projecto cultural é meio caminho para a sua afirmação. É através desta aposta na comunidade que, muitas vezes, projectos que à partida estariam condenados pela falta de financiamento conseguem afirmar-se no panorama cultural nacional.

Infelizmente, na actualidade, as associações culturais com raízes populares já não prosperam em Braga como noutros tempos. Talvez não por culpa própria. No entanto, existem ainda muitas associações que dedicam a sua actividade à prática e recuperação de tradições, à dinamização de iniciativas culturais (teatro, cinema, fotografia, literatura, etc…), ou ainda ao desenvolvimento de novas formas de fazer cultura. E é a partir destas associações e movimentos criativos que devem ser pensadas políticas e dinamizados projectos.

Uma outra fonte de criação indispensável é a escola. Entenda-se escola como instituição pública sob gestão do Estado. Esta deve ser encarada como um local privilegiado para se estabelecerem relações entre instituições e cidadãos, bem como um suporte para as mais diversas formas de produção cultural. O desafio será sempre como envolver professores, pais e alunos em projectos amplos, abertos à participação em larga escala, fazendo do próprio processo criativo um exemplo de concretização de cultura. Recai ainda sobre a escola a responsabilidade de incentivar à formação e ao enriquecimento culturais.

A partir do trabalho desenvolvido na escola, e da sua articulação com as casas de espectáculos, mormente no que res- peita à elaboração das respectivas programações, tornar-se-ia inevitável uma política cultural baseada fundamentalmente num serviço educativo prestado à comunidade.
Evidenciar-se-ia a qualificação dos indivíduos, a valorização do trabalho colectivo e a fonte inesgotável de criatividade que este representa.

Ganhar-se-ia pela abrangência das políticas, pela participação aberta dos cidadãos e pela afirmação de uma identidade local.
Em suma, pela elevação cultural até à transformação social.

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