Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Falcões e Pombas

Bragafado 2018: a trindade do fado tradicional

Ideias

2015-03-20 às 06h00

Margarida Proença

Um dos livros que li recentemente, e de que mais gostei, na verdade uma trilogia, é de Ken Follet, o Século. Dividido em três partes, ao longo do século XX, o autor conta a história de cinco famílias - inglesa, escocesa, alemã, americana e russa. O primeiro livro chama-se a Queda dos Gigantes, começa em 1911 e termina em 1925. Bastante mais do que o acompanhar os encontros e desencontros dos personagens, aliás interessantes, plausíveis e bem escritos, do que mais gostei no livro foi da lição de história sobre o período que antecedeu a Primeira Guerra Mundial.

O que deveras impressiona é que, para além das causas mais imediatas, em particular a tensão sobre os Balcãs e o assassinato do arquiduque austro-húngaro Francisco Fernando e da sua mulher por um nacionalista sérvio, as verdadeiras origens da guerra encontram-se numa teia muito complexa de alianças entre países, na fragmentação dos poderes estabelecidos na Europa, acompanhado pelo aumento do imperialismo, de disputas militares anteriores, nunca resolvidas, do acréscimo da importância de movimentos ultra nacionalistas e populistas, e no meio disto tudo, de uma inabilidade gritante da diplomacia, cheia de ideias feitas, mal entendidos e rivalidades, jogando um jogo muito perigoso que acabou mal; por exemplo, a Alemanha sempre atuou na presunção clara de que a Inglaterra se manteria neutral em qualquer caso.

O livro de Ken Follet é interessante ainda na descrição que faz dos jogos no Parlamento inglês, e na descrição cuidada da catadupa de acontecimentos nos dias prévios á guerra, e impressiona exatamente porque se tem a noção clara que tudo poderia ter sido evitado. Os historiadores debatem hoje se isto é verdade; para muitos, os dados estavam já lançados, e a responsabilidade que, obviamente, a Alemanha teve, deverá ser partilhada pelos outros, todos com interesses político- económicos divergentes, mas a leitura do que se passou remete para interações estratégicas, em que cada país tenta aplicar estratégias dominantes, que resultem em vantagens para si mesmo independentemente do interesse dos outros, mas num contexto em que a tomada de decisões vai sendo repetida, e as informações são imperfeitas.

Veja-se por exemplo, o caso de um jogo, em que os participantes podem ir alterando as suas estratégias á medida que o jogo se vai alterando, isto é, nada obsta a que os jogadores possam ir mudando os seus comportamentos, até porque vão aprendendo. Então, imagine-se que temos um jogador vai optar por ser agressivo (falcão) e outro por ser mais maleável e aberto (pomba). A interação entre os dois levará a que aquele que adota uma estratégia de falcão ganhe vantagens para si, se o outro jogador optar por uma estratégia de pomba; o falcão ganhará tudo, e a pomba nada.

Pelo contrário, se os dois jogadores adotarem estratégias de pombas, ambos ganharão, e de forma equitativa; finalmente, se os jogadores optarem, os dois, por se confrontar com base em estratégias de falcão, agressivas portanto, ainda assim irão obter ganhos para os dois, embora menores do que no caso anterior (ambos com estratégias harmoniosas). Assim, se o jogo só for jogado uma única vez, é fácil concluir que a estratégia “falcão” vai ser a escolhida por qualquer dos jogadores, sendo portanto a estratégia dominante.

Imagine-se agora que temos não dois, mas muitos jogadores, e que no início do jogo metade opta por estratégias “falcão”, e a outra metade escolhe seguir estratégias de “pomba”. O resultado é o mesmo - estes últimos vão perceber que a vantagem está toda na escolha de estratégias de falcão, e portanto vão alterando nesse sentido, ao longo do tempo, a sua atuação.
A atual reação da Grécia era, a meu ver, e neste contexto, de esperar.

O crescimento económico da Grécia ocorreu no pós-guerra; entre 1950 e 1973, registou uma taxa de crescimento de 7% ao ano, acompanhada de um desemprego relativamente baixo, e portanto o nível de vida melhorou de forma significativa. Foi o período de ouro dos armadores gregos que se tornaram quase lendas, como Onassis ou Niarchos, dos mega petroleiros que chegaram a atingir as 500 mil toneladas. Mas a crise do petróleo na década de 70 foi um choque fortíssimo; em 1974 a Grécia entrou em recessão profunda, a inflação chegou aos 25% e a dívida pública foi sempre crescendo. Num contexto político sempre bastante difícil, com acusações de populismos e corrupção, de acordo com as estatísticas europeia é certo que a década de noventa era já marcada por baixo crescimento económico e uma inflação elevada, na ordem dos 10%.

A situação parece ter estabilizado em 1992 no pós Tratado de Maastricht, mas com défices fiscais persistentes e uma baixa produtividade, e diz-se que com escrutínio das contas públicas depois do início da atual crise, foi revelada a manipulação estatística da dívida pública, violando as regras da moeda única. Mas note-se que esta é apenas uma das explicações que têm sido adiantadas para a “doença grega”.

Não têm sido suficientemente discutidas as razões do insucesso do programa de austeridade na Grécia; da aplicação insuficiente das exigências da troika passando realidade de taxa de desemprego na ordem dos 25,8%, de 50,6& de desemprego jovem, de 23,1% de gregos em risco de pobreza, mais de 230.000 falências de PMEs, um aumento na ordem dos 22% na taxa de suicídios, á inconsistência ou fragilidade da zona euro, e ao aumento da importância de populismos políticos de diversa ordem, o certo é que se esgrimem hoje exigências dos dois lados, com crescente agressividade, aceitando mesmo a declaração de incumprimento com saída forçada do euro (o Grexit), lembrando histórias antigas.

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