Correio do Minho

Braga, terça-feira

Fafe no centro do debate sobre Causas e Valores da Humanidade

Tancos: falta saber quase tudo

Ideias

2017-04-09 às 06h00

Artur Coimbra

Concluiu este sábado em Fafe o evento Terra Justa, que animou intensamente a cidade desde a passada terça-feira.
Terra Justa é um Encontro Internacional de Causas e Valores da Humanidade que esteve em terceira edição e, na verdade, assume-se como um fantástico projecto do Município de Fafe que, juntando algumas associações locais e estabelecimentos de ensino ao empreendimento, consegue colocar esta média cidade de província, durante a sua duração, no centro do mundo, passe o exagero, através do maior mediatismo, que se tece dos jornais, das rádios e dos diferentes canais de televisão, até às redes sociais, que são um poderoso instrumento de propagação de informações e ideias.

O que significa que, com imaginação, com boas vontades, com disponibilidade, com elevada dose de profissionalismo e, obviamente, algum investimento financeiro, o interior pode também entrar no roteiro dos grandes eventos e cumprir a missão de atrair o debate e a discussão dos temas que marcam a actualidade. São estes acontecimentos que contribuem para que o espaço charneira entre o litoral e o interior, como é o caso de Fafe, motivem as populações para o fortalecimento da sua auto-estima identitária, o que é sempre positivo em termos colectivos. O interior não tem de ser necessariamente um espaço de fatalismo, de deserto e de inacção.

Terra Justa parte de uma ideia que tece historicamente a identidade de Fafe, como terra da justiça, que aqui é elevada e decantada no melhor sentido, qual seja o debate sobre temas que fundam a contemporaneidade, a nível global, como é o caso do diálogo inter-religioso e cultural e a causa da paz, tema da edição inicial, ou da dolorosa problemática dos refugiados, como aconteceu na edição do ano anterior, quer contou com a prestigiada presença de António Guterres, ex-Alto Comissário para os Refugiados e já então na fase de candidato, que haveria de ser vitorioso, ao cargo de Secretário-geral das Nações Unidas.

Ao longo de cinco dias, múltiplos acontecimentos enxamearam a cidade, designadamente exposições, conversas de café, em diferentes estabelecimentos do espaço urbano, teatro de rua, debates e conferências em torno do tema fundamental da edição de 2017: as crianças em Portugal e no mundo e sobretudo as crianças vítimas da guerra, do tráfico humano ou da exploração aos mais diversos níveis.
No entanto, avultam as homenagens a pessoas e entidades que, no país ou no mundo, levam a efeito acções relevantes na área temática de cada edição.

Este ano, as homenagens contemplaram, pela primeira vez e muito justamente, uma entidade local, a Cercifaf - Cooperativa de Educação e Reabilitação de Crianças Inadaptadas de Fafe, logo a meio da semana e na altura em que foi também lançado o livro da edição anterior da Terra Justa. A Cercifaf é uma entidade de referência nacional no âmbito da integração dos cidadãos com deficiência no mercado do trabalho, no desporto adaptado e em outros sectores.

Na quinta-feira, a homenagem foi para a conhecida UNICEF, criada em 1946, por decisão da Assembleia Geral da ONU, e que é a principal organização mundial que tem como missão defender e proteger os direitos e o bem-estar das crianças e adolescentes. A organização trabalha em mais de 150 países em desenvolvimento e em 36 países industrializados e vive exclusivamente de donativos voluntários provenientes de doadores individuais, fundações, empresas e governos de todo o mundo.

Nesse quadro, foram revelados números aterradores quanto ao tráfico humano no mundo, bem como às situações de risco. Há 48 milhões de crianças em risco pelo mundo e só no Sudão do Sul há 1 milhão de crianças em risco de fome. Mas também Portugal não sai incólume, sendo revelado que o nosso país serve de plataforma para venda de pessoas. Nos últimos dois anos, 115 pessoas foram vítimas de tráfico.
Na sexta-feira, foi homenageado o Instituto de Apoio à Criança, uma Instituição de Solidariedade Social, sem fins lucrativos, criada por um grupo de pessoas de diferentes áreas profissionais - médicos, magistrados, professores, psicólogos, juristas, sociólogos, técnicos de serviço social e educadores.

Desde Março de 1983 que o Instituto de Apoio à Criança tem desenvolvido esforços no sentido de apoiar e divulgar o trabalho de todos aqueles que se preocupam com a procura de novas respostas para os problemas da infância em Portugal, assumindo-se como promotor e defensor dos Direitos da Criança, junto de diferentes entidades, instituições e da comunidade em geral.
Foi ainda homenageada a Rede Talitha Kum, fundada em 2009, rede internacional da vida consagrada contra o tráfico de pessoas. Trabalha em rede, favorecendo a colaboração e intercâmbio, entre homens e mulheres, em 70 países.

Igualmente o foi, por fim, a Fundação Champalimaud, cujo objectivo é criar e desenvolver, com independência, rigor, dedicação e criatividade, um ambiente propício ao desenvolvimento de programas avançados de investigação biomédica e à prestação interdisciplinar de cuidados clínicos, numa perspectiva transnacional, que resultem em descobertas pioneiras na área da saúde com um reflexo directo na qualidade de vida dos cidadãos.

Representantes das quatro organizações tiveram oportunidade de colocar uma mensagem para o futuro no Mural das Causas, na Praça 25 de Abril, as quais só poderão ser abertas daqui a 25 anos. Nas três edições, já foram colocadas doze mensagens cujo conteúdo apenas será conhecido bem mais tarde.
Ao longo dos dias estiveram em Fafe para participar nas actividades ou para receberem as distinções em nome das respectivas organizações, personalidades como Madalena Marçal Grilo, Ana Jorge, Manuela Eanes, Laborinho Lúcio, Leonor Beleza, Isabel Soares e Margarida Pinto Correia, entre outras.

O evento Terra Justa culminou com um espectáculo solidário a favor da UNICEF, no Pavilhão Multiusos, na noite deste sábado e que contou com as actuações de Luís Represas, da Academia de Música José Atalaya e da Orquestra do Colégio Moderno.
De relevar ainda uma curiosa actividade, que foi a colocação de postais sob o tema “Como mudar a cidade e o mundo através do olhar das crianças”, por alunos do 1º ciclo das escolas de Fafe, para enviar a António Guterres, homenageado da edição anterior, bem como várias exposições no espaço público da Praça 25 de Abril e da Arcada.

Finalmente, de destacar a assinatura de um protocolo entre o município e a UNICEF consubstanciado na promessa de “Fafe Cidade amiga das crianças”.
Caiu o pano sobre um evento que serve para debater questões, agitar consciências, levantar problemas, usar espaços improváveis.
Um evento que está a ganhar o seu espaço e o seu tempo no universo das causas e valores da Humanidade!
Bem-haja aos seus promotores!

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