Correio do Minho

Braga, terça-feira

Fafe em festa: a cultura e o 25 de Abril

Confiança? Tínhamos razão.

Ideias

2013-04-22 às 06h00

Artur Coimbra

1. Deixem-me os leitores que abandone, por instantes, a urgência de verberar um governo que se empenha em empobrecer selvaticamente os portugueses, mentindo e aldrabando a cada dia que passa; de uma oposição que até dói na sua incompetência para se opor como os portugueses merecem e de um país que obriga o seu potencial de futuro a abandonar a zona de conforto rumo à emigração, para certamente não mais regressar!...
Hoje gostaria de abordar um evento que está a decorrer em Fafe, desde sexta-feira e até ao próximo domingo, em diversos palcos do concelho.
Um conjunto de actividades que fazem de Fafe o epicentro da cultura e da paixão de todo um concelho em torno de valores, de património, de tradições e de potencialidades que tornam a cidade numa capital da cultura, não oficialmente, mas na sua fruição popular!...
Refiro-me à quarta edição das Jornadas Literárias de Fafe, que, nos dois primeiros dias de vigência, já envolveu mais de cinco mil pessoas, entre jovens e crianças das escolas e jardins-de-infância, músicos, bailarinos, artistas e público em geral. É, sem dúvida, a mais relevante manifestação cultural que se realiza na cidade ao longo do ano!...
O evento vai movimentar mais uns milhares de pessoas ao longo desta semana, num vasto conjunto de iniciativas, que resultam de uma parceria entre a Câmara Municipal e as escolas e agrupamentos do concelho, a Associação Empresarial, o movimento associativo, as juntas de freguesia e pessoas em particular, que dão as mãos e, mediante as suas disponibilidades e capacidades, erguem as suas vontades em torno de uma causa maior, a de animar culturalmente a cidade.
A organização orgulha-se de acentuar a conjugação de esforços, a disponibilidade e o espírito de participação de tanta gente para o sucesso da iniciativa.
As IV Jornadas Literárias têm como tema genérico ‘Viajar e sentir”‘ e como subtema forte a epígrafe ‘Fafe dos brasileiros’, em homenagem aos milhares de fafenses que emigraram para Terras de Vera Cruz, na segunda metade do século XIX e primeiras décadas do século XX, retornando, muitos deles, com grossos cabedais que aplicaram na criação das primeiras indústrias, em obras de filantropia e solidariedade social, como o Hospital, a Misericórdia, asilos e outras formas de intervenção pública na então Vila de Fafe, além dos fantásticos palacetes que ornam o centro urbano e que tornam a cidade de Fafe na “capital da arquitectura brasileira”.
A intenção subjacente ao evento é a da afirmação da marca “Fafe dos brasileiros”, dos pontos de vista cultural, patrimonial, turístico e até económico, que se pretende reforçar nesta edição.
Após o lançamento de obras literárias, esta segunda e terça-feira, e de um espectáculo de teatro, na noite de 24 de Abril, ‘Diz-lhes Que Não Falarei Nem Que Me Matem’ (sobre a prisão política do fafense Carlos Costa, desde cedo ligado ao PCP), no Teatro-Cinema, o próximo fim- -de-semana é marcado por um conjunto de recriações históricas em torno do tempo dos ‘Brasileiros’, o que acontece na sexta e no sábado.
No último dia das Jornadas, domingo, 28 de Abril, além da apresentação da Confraria da Vitela Assada à Moda de Fafe, oque é uma novidade, relevam - à tarde - a recriação histórica “1913: os novos Paços do Concelho” e a mostra etnográfica e desfile pelas ruas da cidade, ‘A Memória e a Gente: o Património’, com milhares de figurantes das juntas e associações das freguesias, um evento festivo como não há outro em Fafe.
O programa completo e imagens podem ser vistos na página electrónica: www.jornadasliterariasdefafe.com.

2. O que confrange é que todo este vastíssimo conjunto de iniciativas que movimenta a cultura da cidade, com dezenas de iniciativas e a participação de milhares de pessoas, não tenha uma cobertura mínima por parte da comunicação social de âmbito nacional. Nem jornais, nem televisões. É como se não existisse…
Se uma cabra come as flores de um cemitério ou uma padaria transmontana propagandeia uma coisa chamada ‘pão da troika’, as televisões atropelam-se para reportar meros ‘fait-divers’.
A cultura de participação, de proximidade, de criação e recriação de memórias e tradições, que envolve milhares de cidadãos, não merece a atenção ou o esforço de deslocação da comunicação social!...
É o estado cultural (e político) a que chegámos!...

3. Retomando as Jornadas Literárias de Fafe, que são já mais culturais que outra coisa, elas são uma demonstração inequívoca das conquistas proporcionadas pelo 25 de Abril de 1974, cujo 39.º aniversário se comemora esta quinta-feira.
O 25 de Abril abriu as portas ao reforço do Poder Local Democrático, que promoveu o desenvolvimento dos territórios nas suas diferentes facetas, entre as quais a cultural.
O reforço dos meios financeiros e a aposta decidida na dinamização cultural, permitiu promover, pelo país, o desenvolvimento de acções de animação, em áreas como a música, o teatro, o cinema, as artes plásticas, a dança, o livro e a leitura, as publicações e outras, além da criação, manutenção e dinamização de equipamentos culturais como bibliotecas, auditórios, teatros, museus, arquivos, multiusos, galerias de arte e muitos outros.
Hoje, o desenvolvimento e a animação cultural do país estão a ser feitos basicamente pelas autarquias, dentro das suas limitações, que são cada vez maiores. Se não fora a sua aposta decidida e estratégica na cultura, como em outras áreas sociais, Portugal seria um desgraçado deserto, à mercê da alienação televisiva!
Sinal de que o 25 de Abril valeu a pena! Sem dúvida! E continua a ser a marca da nossa modernidade colectiva!

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