Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Fafe, capital da arquitectura dos 'brasileiros'

Greve

Ideias

2015-10-04 às 06h00

Artur Coimbra

Há duas semanas, Fafe voltou a viver um acontecimento cultural que diz muito às populações, envolvendo o município, que o promove, juntas de freguesia, o movimento associativo e particulares. Trata-se de mais uma edição da iniciativa “Fafe dos Brasileiros”, que consiste num conjunto de eventos que inclui representações teatrais, cinema, exposições, espectáculos musicais e de bailado, culminando com um desfile de recriação histórica, que este ano rememorou a saída emotiva dos emigrantes para o Brasil, a sua chegada a Terras de Vera Cruz e o regresso dos mais afortunados à terra natal.
Convirá adiantar que, como em outras localidades do norte do país, a emigração de cidadãos de Fafe para o Brasil ocorreu em grande número a partir de meados do século XIX e até aos anos 50 da centúria seguinte, quando começou a odisseia da emigração para as Europa e sobretudo paras França. A cidade de Fafe deve muito aos chamados “brasileiros de torna viagem”, tão conhecidos quanto ridicularizados no seu tempo (lembremos as caricaturas que deles deixaram escritores como Camilo Castelo Branco ou Eça de Queirós). No retorno, foi decisivo o seu papel no desenvolvimento do centro urbano, fazendo-o emergir de um longo marasmo que vinha da Idade Média. Mas tão importante quanto essa acção fundamental no quadro do desenvolvimento urbanístico da então Vila, foi a sua intervenção ao nível da filantropia, de criação de obras sociais e humanitárias, além de iniciativas de lançamento industrial e de criação de escolas.
Refira-se a construção do Hospital de S. José ou da Misericórdia (aberto aos pobres em 1863, e que, curiosamente, 152 anos depois, em 2015, voltou à origem…), a fundação da Santa Casa da Misericórdia (1862), para enquadrar a gestão daquela unidade hospitalar, a criação de asilos para meninas pobres (Asilo Montenegro, fundado em 1877) e para adultos inválidos (Asilo de Inválidos de Santo António, fundado em 1906). Em todos os casos, esteve presente a acção decisiva de beneméritos e filantropos locais, que, conseguindo fortunas do outro lado do Atlântico, socorreram os mais pobres da sua terra, dentro de um espírito maçónico de ajuda mútua e de generosidade para com os concidadãos.
Estão também presentes activamente na fundação dos Bombeiros Voluntários de Fafe (1890), na construção do jardim público (denominado Calvário, aberto em 1892), no lançamento dos fundamentos da Igreja Nova de S. José, que arrancou em 1895 (apenas sagrada em 1961) e na edificação de diversas escolas em freguesias rurais, em finais do século XIX e primeiras décadas do seguinte, em que os filantropos não apenas mandavam construir os edifícios como os apetrechavam de material escolar, criavam casas para os professores e pagavam aos próprios docentes para ensinarem os jovens das aldeias de onde tinham saído para a emigração.
Era o fechar de um ciclo de benemerência voltada para a construção e doação ao Estado e à comunidade de escolas para a aprendizagem dos mais novos, numa altura em que a acção do Estado se revelava deficitária nesse campo e era suprida imensas vezes pelos particulares mais disponíveis para a ajuda ao próximo.
Os “brasileiros” fafenses são, basicamente, aqueles que, no período referido, ao longo de um século, conseguindo fortuna no Brasil, construíram residências, compraram quintas, criaram também as primeiras indústrias da região (a Empresa Têxtil do Bugio, em 1873 e a Companhia de Fiação e Tecidos de Fafe, em 1886) e participaram na vida pública e municipal, dinamizando a vida económica, social e cultural local.
Foram milhares os fafenses que decidiram abandonar o rincão natal, em direcção a cidades brasileiras como o Rio de Janeiro, Manaus, Pará, S. Paulo e outras, para trabalhar no comércio, na borracha, na agricultura e nos serviços. Curiosamente, e ao contrário do que seria de supor, nem sempre foram os mais pobres e iletrados que abalaram, mas também aqueles que queriam reforçar a sua fortuna, elevando o estatuto social e simbólico.
A identidade do “brasileiro de torna-viagem”, personagem marcante da cultura e da economia portuguesa, e sobretudo nortenha, da segunda metade do século XIX e primeiras décadas do seguinte, estrutura-se na realidade de uma riqueza conquistada com muito trabalho e dedicação do outro lado do Atlântico e que, retornado à terra de origem, exibe um estatuto económico superior, com um comportamento publicamente extravagante. O “brasileiro” é o símbolo vivo do burguês endinheirado. Vive normalmente dos rendimentos adregados em terras brasileiras, veste a rigor, educa os filhos no estrangeiro, dá grandes festas para os amigos, emoldura-se, bem como à sua mulher, de vistosos bens de sumptuária (anéis, gargantilhas, brincos, braceletes, roupas, etc.). Frequenta os melhores teatros nas capitais europeias, sobretudo em Paris. Veraneia nas praias mais chiques do Norte, com destaque para a Póvoa de Varzim. Adquire comendas a troco de donativos e muitas vezes chega à nobilitação pela compra dos títulos de barão e visconde.
Mas, sobretudo, aplica os seus cabedais na construção de residências apalaçadas, esteticamente agradáveis, que hoje orgulham os fafenses. Falamos da “arquitectura dos brasileiros”, uma marca cultural muito forte em Fafe, que faz desta cidade a “capital da arquitectura brasileira”, ou a cidade mais “brasileira” de Portugal, como alguns pretendem, pela mancha de construções daquele tipo existentes na cidade, desde meados do século XIX e até às primeiras décadas do século seguinte.
Os emigrantes brasileiros, no regresso, trazem valores e modelos que aplicam nas suas habitações. Essa interessante arquitectura, caracterizável por uma grande homogeneidade estética, constitui já um património histórico e artístico de inegável valia. São símbolos da nova situação de riqueza do proprietário na sua terra de origem.
Estamos a falar de palácios e palacetes de grandes dimensões, com amplas fachadas, rebocadas ou revestidas de belíssimos azulejos multicolores (alguns deles das cores verde e amarelo, de homenagem ao país onde granjearam fortuna), numerosas portas e janelas de pé direito considerável, portões com monogramas desenhados, varandas estreitas, quase sempre a toda a largura do prédio, com guardas de ferro forjado ou fundido, ricamente ornamentadas, decoração com estatuária, formas humanas ou vasos, a rematar a habitação e, sobretudo, a indispensável clarabóia, símbolo maior da arquitectura “brasileira”, muitas vezes decorada com cata-ventos, a encimar o telhado e a iluminar as escadas interiores.
É esta arquitectura muito característica e singular, já centenária, fruto de avultadas fortunas conseguidas no Brasil, que hoje marca o legado dos “brasileiros” na cidade de Fafe!

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