Correio do Minho

Braga, terça-feira

Eventual vitória eleitoral do ‘Syriza’: Uma esperança de mudança na Europa?

Confiança? Tínhamos razão.

Ideias

2015-01-24 às 06h00

António Ferraz

“Dia de chuva na cidade triste como não haver liberdade”. Não, esta frase não é minha, mas sim do grande poeta chileno já falecido e prémio Nobel da Literatura em 1971, Pablo Neruda. Liberdade não significa apenas ausência de ditadura, falta de expressão livre, exercício de cidadania, etc., mas também garantia dos direitos humanos básicos: emprego, salário justo, prestação de serviços públicos essenciais, em particular na segurança social, educação e saúde.
A Europa de nossos dias é uma Europa dos programas de austeridade, de clima económico recessivo, de elevado desemprego, de aumento da pobreza e miséria extrema, de demissão do papel central do Estado como regulador e interventor na economia de mercado. Na Europa do presente o futuro é incerto, nada é seguro, as pessoas sentem-se constrangidas e tristes.
Será uma eventual vitória eleitoral do Syriza (coligação de esquerda radical) na Grécia uma esperança de mudança na Europa? Como sabemos, na Europa em geral, mas com maior intensidade nos países da Europa do Sul (Grécia, Espanha, Itália e Portugal) as crises financeira e económica global de 2008 e das dívidas públicas soberanas de 2011, tem conduzido a imposição externa de programas severos de austeridade a que se seguem outros programas do mesmo tipo, trazendo consigo dificuldades económicas significativas e uma muito grave degradação das condições de vida das populações.
Na Grécia onde o problema é mais severo se tem verificado uma contínua instabilidade política, social e económica. Vejamos, tendo por referência o ano 2010, do início dos programas de austeridade, que a produção interna grega quebrou em 20%, o desemprego disparou para os 25%, mais grave ainda o desemprego juvenil está nos 50% e, por fim, a pobreza e miséria extrema aumentaram dramaticamente. Nesse quadro, e muito recentemente o Parlamento grego avalizou a realização de eleições antecipadas, em 25 de janeiro próximo. Ora, o fenómeno mais relevante dessas eleições será claramente uma eventual vitória eleitoral do Syriza, com base nas sondagens até então realizadas.
Como seria de esperar os mercados financeiros e os países dominantes da União Europeia (desde logo, a Alemanha) tem vindo a reagir negativamente a tal possibilidade dada a incógnita quanto aos seus efeitos tanto na Grécia como na Europa. Deste modo, as pressões/chantagens feitas pelos meios mais conservadores sobre o eleitorado grego tem vindo a fazer-se sentir e cada vez com mais intensidade tentando criar um cenário de medo na população grega. Proclamam que se forem postas em prática as promessas eleitorais do Syriza isso significaria a impossibilidade de permanência da Grécia no euro, o que conduziria segundo eles a uma situação futura de bancarrota. Contudo, mais recentemente tem vindo a aparecer cada vez mais vozes dissonantes, mesmo na coligação governamental alemã, como é o caso do líder do SPD, ao perfilhar a ideia de ser admissível e desejável negociar com a Grécia em condições adequadas porque entendem que se um dia um qualquer país participante na zona euro sair, então é muito credível que, “termine de vez a confiança no projeto europeu”.
Diga-se ainda que as mais recentes sondagens mostram que a grande maioria dos gregos desejam continuar no Euro, porém, que haja mudanças estratégicas e que se pare com as severas políticas de austeridade que lhe foram, são e continuarão a ser são impostas se nada se alterar.
Mas se justificará todo esse alarido em caso de uma eventual vitória eleitoral do Syriza? Vejamos que é o próprio líder do Syriza, Alexis Tsipras que contraria os argumentos mais conservadores ao considerar como uma hipótese muito remota a intenção de saída da Grécia do euro, o chamado “Grexit”, afirmando que, “o Syriza não pretende o colapso, mas a salvação do euro”. Mais, para salvar o euro é necessário evitar a desagregação política, social e económica da União Europeia e dos seus Estados Membros o que passa por resolver de imediato a questão das dívidas insustentáveis ou fora de controlo através de negociações justas entre as instâncias de governação europeia e os Estados Membros com mais dificuldades, viabilizando, deste modo, o crescimento económico e a criação de emprego quer a nível daqueles países quer da própria União Europeia.
Enfim, para o Syriza é necessária uma urgente renegociação da dívida pública externa para quebrar o ciclo recessivo e de elevado desemprego. Para isso, deverão ser feitas reformas estruturais do Estado, relançar o investimento, onde o investimento público na atual conjuntura é fundamental para estimular a procura interna, a produção e o emprego. Nesse sentido a vitória eleitoral do Syriza seria uma promessa de mudança de políticas europeias. Para Tsipras “o problema da dívida não é apenas da Grécia, mas também da Europa”.
Nas próximas eleições gregas releva mais o travar a austeridade e a resolução da crise humanitária (mais de 2300 mil famílias gregas vivem abaixo da linha da pobreza) e menos da ideologia.
Será o programa do Syriza algo original? Claro que não, então em outras situações históricas de grave crise não se recorreu ao investimento público e a renegociações da dívida pública? Exemplificando: na Grande Depressão de 1929-1933 nos Estados Unidos o Presidente Roosevelt não aplicou a sua nova política económica “New Deal”, relançando a economia através de avultados investimentos públicos? e a Alemanha não foi um dos países que mais beneficiou com isso quando em 1953 as potências vitoriosas da 2ª Grande Guerra e lideradas pelos Estados Unidos perdoaram a enorme dívida alemã (derivada em grande parte das indemnizações de guerra) o que permitiu que a Alemanha se tornasse na potência económica que é hoje?

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