Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Europeus... inevitavelmente!

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Ideias

2010-06-21 às 06h00

Artur Coimbra

Passaram recentemente 25 anos sobre a data da assinatura do Tratado de Adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia (CEE), actual União Europeia. A cerimónia oficial, retumbante e significativa, estamos lembrados, decorreu em 12 de Junho de 1985, no Mosteiro dos Jerónimos, sendo a assinatura da parte portuguesa protagonizada pelo então primeiro-ministro Mário Soares, o “pai da democracia” neste país, como todos reconhecem, apreciem ou não o seu percurso politico. A entrada efectiva do país na Europa deu-se apenas seis meses depois.

O balanço de um quarto de século de experiência europeia, traduz-se, inevitavelmente, por aspectos positivos e por aspectos negativos.

Hoje em dia, a realidade portuguesa não tem nada a ver com a que caracterizava o país em 1985. Está inquestionavelmente melhor, mais modernizada, mais avançada, mais próxima da média europeia, embora ainda bem distante dela. O que é altamente positivo.

A entrada no então mercado comum europeu espicaçou muitos orgulhos nacionais (ou, mais propriamente, nacionalistas), suscitou imensas dúvidas e apreensões, como acontece perante tudo o que é novo e diferente. Nunca sabemos se vamos para melhor ou para pior.

Ao longo deste período, há aspectos visíveis da modernização e que têm a ver com o apoio da Europa: as acessibilidades rodoviárias são os que mais chamam à atenção. O território está hoje rasgado de lés a lés, com excelentes auto-estradas e itinerários complementares, impensáveis há décadas. É sinal evidente de melhoria da circulação de pessoas e bens, que contribui decisivamente para o desenvolvimento da economia, para a coesão territorial e para o progresso do país.

Negativamente, podem referir-se o desmantelamento de sectores anteriormente vitais para o país, como as pescas, a marinha mercante e a agricultura. A entrada na União Europeia correspondeu à desarticulação e ao quase desaparecimento das actividades piscatórias, pelo menos as de pequenas dimensões, num país com uma imensa costa e que sempre viveu das coisas do mar. Também a agricultura praticamente definhou. Paradoxal e lamentavelmente, ao sabor de decisões estranhíssimas e incompreensíveis das autoridades comunitárias, que ora financiavam a plantação de vinhas ou pomares, ora custeavam o seu arranque. Muito dinheiro que por aí circulou, em poucos bolsos, numa altura em que o controle não era a preocupação maior.

Em causa, em ambos os sectores, estão os grandes empórios económicos a ditar as regras dos países mais ricos, sobre os mais pobres, subsidiados para não produzir, o que não deixa de ser escandaloso.

A entrada na Europa foi também marcada por outros aspectos. Por exemplo, a livre circulação de pessoas e bens (Espaço Schengen), permitindo viajar pelos vários países europeus apenas com o bilhete de identidade, sem necessidade de parar nas alfândegas para mostrar o passaporte que tantos dias levava a tirar. Negativamente, a abertura das fronteiras também origina a circulação do crime organizado. Por exemplo, na área da educação, o acesso ao ensino superior deixou de ser exclusivo das elites. Bolonha permite licenciaturas e mestrados em menos tempo, “harmonizando o ensino superior”. Obviamente, a acumulação de diplomas nem sempre corresponde a um maior acesso ao mercado do trabalho.

E por falar em mercado de trabalho, a abertura das fronteiras permite mais facilmente procurar emprego em outros países, o que nem sempre traduz segurança.

A entrada na Europa significa também a garantia de um espaço de democracia e de paz no território comunitário. As instituições comunitárias, sobretudo o Parlamento Europeu, eleito pelos cidadãos, apresentam cada vez mais poderes, no sentido da coesão europeia, embora, em paralelo, a descredibilização dos partidos políticos tradicionais não augure nada de positivo, urgindo repensar a sua essência e o seu modo de funcionamento.

Hoje em dia, sobretudo para os jovens, há mais oportunidades, mas também mais competição, numa Europa mais viajada, mais evoluída, mais qualificada.
Os grandes problemas continuam a ser, contudo, em todo o espaço europeu, os relacionados com o desemprego e a crise económica. Realidades que prosseguem endémicas, para mal dos nossos pecados.

São estes aspectos negativos que fazem ressurgir, aqui e ali, os temores e as resistências ao projecto europeu, que, apesar de todo este percurso, ainda continua algo distante do nosso dia a dia e das nossas almas. Os portugueses continuam a prezar o seu fado, o seu folclore, o seu artesanato, as suas artes, a sua literatura, o seu futebol, a sua identidade, enfim. Que pouco europeias são, convenhamos. Mas é nessa diferença enriquecedora que está a pujança do “ser europeu”. É nela que se constrói a força que é necessária para vencermos o futuro.

O “ser europeu” é um pouco uma inevitabilidade para todos os portugueses. Algo a que não podemos escapar, custe-nos muito ou pouco.


PS - José Saramago deixou-nos esta sexta-feira. Já tudo foi dito sobre a grandeza da obra, a inovação, o talento, a humildade, a nobreza do escritor e a perda irreparável que constitui para a literatura, não apenas portuguesa mas universal. Curvo-me perante a sua memória de português maior!

Lamenta-se nesta oportunidade a reiterada baixeza intelectual e moral de um tal Sousa Lara, bem como a posição miserável do órgão oficial do Vaticano, o “L’Observatore Romano», que voltou a atacar duramente José Saramago, mesmo depois da sua morte. Se é esta a atitude católica de “respeito” pela morte e pelos mortos, sejam eles quais forem, entende-se que cada vez mais a religião pese cada vez menos no quotidiano das pessoas com coração!...

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