Correio do Minho

Braga, terça-feira

Europa solidária ou egoista?

Dar banho às virgens

Ideias

2011-04-19 às 06h00

Jorge Cruz

A chamada “troika” do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Central Europeu (BCE) e da Comissão Europeia (CE) inicia esta semana as discussões políticas com os responsáveis portugueses para estabelecer os precisos termos do empréstimo a Portugal.
Ao partir para esta maratona, que inclui negociações com as autoridades portuguesas e encontros com os principais responsáveis, os negociadores já terão uma perspectiva bem real da actual situação portuguesa. E têm-na porque as suas equipas já trabalharam, na última semana, na análise das condições financeiras do país, nos diversos sectores, e na verificação do estado dos sectores da economia com maiores dificuldades.
Será, pois, a partir de agora que serão estabelecidos os compromissos que as autoridades portuguesas terão de assumir para a concessão do empréstimo. Ou seja, a partir desta semana começam a ser definidas as medidas de austeridade e as reformas estruturais que Portugal terá que adoptar para reorientar a economia no sentido do seu crescimento.
Evidentemente que o memorando que vier a ser subscrito elencará ao pormenor os compromissos que o nosso país se verá forçado a assumir trimestralmente, e cujo cumprimento serão condição indispensável para a libertação das sucessivas parcelas do empréstimo. Mas, embora sendo estas questões da máxima relevância, acredito que para nós, portugueses, haverá aspectos das negociações indiscutivelmente mais sensíveis para o nosso quotidiano e, principalmente, para o nosso futuro colectivo.
De facto, embora a disponibilização do montante do empréstimo venha a ser assumida de uma forma tripartida, a verdade é que para nós, portugueses, não é indiferente a identidade da instituição que vai traçar o plano de apoio.
Há questões como os prazos ou os juros a pagar que não são irrelevantes, como também não o são os caminhos a percorrer para tentar relançar a nossa economia. E tanto quanto se sabe, em algumas destas matérias as entidades que estão a preparar a ajuda a Portugal não falam a mesma língua, isto é, têm visões não coincidentes quanto às receitas a aplicar. Ora, o gravíssimo estado em que o doente se encontra impõe cuidados especiais e, nesse particular, a terapia a aplicar pode fazer toda a diferença entre a saúde precária e a incapacidade, entre a vida e a morte.
Acontece que, para surpresa de muitos, o plano desenhado pelo FMI é mais favorável para Portugal do que a proposta da Comissão Europeia já que propõe um prazo mais dilatado, logo com juros mais baixos do que a oferta da CE.
Esta aparente inversão de posições entre as instituições dos dois lados do Atlântico está a surpreender alguns observadores, designadamente alguns especialistas da área económica, sendo certo que alguns economistas portugueses já manifestaram preferência pelas propostas do FMI.
“Há algumas coisas em que o Atlântico está hoje invertido”, disse à Lusa o docente da Universidade do Minho Manuel Caldeira Cabral, constatando que os Estados Unidos seguem uma política mais expansionista do que a postura conservadora assumida pela Europa. Este especialista considera mesmo que “uma intervenção demasiado dura não resulta”, razão porque acha positivo o sinal agora dado de renegociação das condições impostas à Grécia e à Irlanda. Além do mais, o académico acredita que em caso de insucesso do resgate financeiro a Portugal, corre-se o risco de contágio a outros países, como Espanha, Itália ou Bélgica, opinião que de resto é mais ou menos consensual entre economistas.
Luís Nazaré, por exemplo, afina pelo mesmo diapasão ao afirmar que “a lógica apontaria para que fosse ao contrário, ou seja, os papéis acabam por estar invertidos”. A explicação, segundo este economista ligado ao PS, pode ser encontrada no facto do director geral do FMI, Dominique Strauss-Khan, ser “uma pessoa com uma personalidade mais sensível às questões sociais”, em contraste com a Europa, onde “há hoje um forte cunho de direita, nalguns casos com governos populistas” que querem agradar às suas opiniões públicas, por vezes contrárias ao apoio a países europeus em dificuldades.
Penso que esta análise de Luís Nazaré coloca o dedo na ferida tanto mais que já quando foi preciso intervir na Grécia, a resposta da Europa deixou muito a desejar.
“Há um cunho conservador e populista em alguns governos europeus que pode ser visto como uma marca egoísta do norte da Europa contra uma visão e política solidárias”, afirmou Luís Nazaré antes de recordar que o FMI “já passou por muitas crises em muitas latitudes, pelo que aprendeu a ser moderado nas intervenções. Percebeu que não se consegue nada com práticas sanguinárias”, concluiu.
Hoje a realidade é substancialmente diversa, quer no plano interno quer no externo, das que se verificaram nas duas anteriores recepções que o PS protagonizou ao FMI - em 1978, com um governo de Mário Soares apoiado pelo CDS, e em 1983/85, com um governo de coligação com o PSD. Actualmente, o FMI é dirigido por um socialista e no BCE destaca-se um antigo secretário-geral do PS, Vítor Constâncio. Ou seja, trata-se de pessoas mais próximas do pensamento político de Jacques Delors, um dos maiores impulsionadores da ideia de integração europeia, do que da Europa egoísta e por vezes pouco solidária da senhora Merkel.
Restará saber se o PS e a Internacional Socialista têm suficiente capacidade de influência junto dos principais gestores da geo-finança. É que o facto de eles serem socialistas pode não ser suficiente.

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